Hoje é o dia

Hoje é o dia tão aguardado em que publico meu primeiro post. Quanto eu caminhei para chegar até aqui…! Estou feliz e grata ao Universo. Escrevendo anonimamente, vou abrir o jogo total. As pessoas sabem de parte da minha história, ninguém sabe da história toda, principalmente os episódios mais sórdidos. Vou contar tudo, na intenção de ajudar.

Sei que por enquanto estou falando no vazio, não há ainda ninguém do outro lado. Tem alguém aí? “Nããããooooo”. Mas vai ter, as pessoas vão aparecer. Neste mundo digital tão vasto, sei que sou um mosquitinho, mas quem sabe eu possa ser um pequeno vagalume que aos pouquinhos vai acendendo a sua luzinha… Opa, adorei esta metáfora! Pouquinhos, luzinha, vagalumezinho… Tudo no diminutivo, para ficar bem bonitinho.

Tenho 47 anos e me sinto infantilizada. Meu escritório possui brinquedos, tudo que reluz me atrai, compro coisas de criança, gosto de cores, estampas, lápis de cor, canetinhas, adesivos, toy art. Assumo esse lado infantil de peito aberto e não pretendo combatê-lo. Por que o faria? Faz parte de quem eu sou e sempre vou ser. Não acho que eu vá mudar depois de velha.

Por outro lado, sou muito madura em certas circunstâncias e sob certos aspectos. Cresci. E como cresci! O dia de hoje é um ótimo exemplo: há uns vinte anos, teria terminado meu relacionamento com o meu namorado e estaria chorosa pelos cantos. Meu namorado disse que gosta de mim, mas que não sabe se gosta “o suficiente”. Em outras épocas, ele já estaria fora da minha vida ao proferir tais palavras. Mas vamos contextualizar: ele está passando por uma crise de depressão aguda, tem quedas de lucidez aflitivas, e ele mesmo pediu para eu não levar as suas palavras ao pé da letra pois está “muito doente”. Eu compreendo e aceito. Eu o aceito.

Meu namorado tem 68 anos, portanto 21 anos mais do que eu. As pessoas não entendem porque estou com ele, tão mais velho, depressivo ao extremo, aparentemente sem nada a me oferecer. Mas não é bem assim. Como o meu psicólogo já pontuou, a doença dele ressalta a minha saúde. Efeito contraste. Agrada-me o ego ser altruísta. E tem também a questão da punibilidade: eu sinto que preciso cuidar de alguém, ser abnegada a alguém, pois fui filha-da-puta com dois moços que não mereciam, no passado.

Outro aspecto, nada honroso: o dinheiro que ele está me dando para ajudar as despesas da casa é muito necessário, pois estou bastante endividada devido às minhas compras maníacas. Eu estaria com ele independente disso, pelos motivos anteriores, mas não posso negar este fato.

De qualquer forma, a sinceridade dele permitiu-me ser sincera também: eu disse que estou com ele porque percebo que as suas qualidades superam os seus defeitos e também porque aposto em dias mais felizes. Aposto em sua melhoria e invisto em nosso relacionamento – mas este investimento tem prazo de validade. Eu disse isso a ele. O que eu não disse é que o prazo é de um ano. Completamos há quatro dias o nosso primeiro aniversário de namoro. Estabeleci mais um ano de investimento nessa relação. Se ele não melhorar, adeus. Quando começamos a namorar ele não estava depressivo e houve um período agradável de convívio. Agora, por parte dele, há só tristeza, desânimo, desespero, pessimismo. Claramente não vou conviver a vida toda com alguém nestas condições. Já estive em crises psíquicas mais graves e consegui superar graças ao apoio e, principalmente, graças à minha vontade. A vontade de curar-se é determinante. Ele não pode conformar-se com a doença. A depressão é insidiosa. Há um conforto estranho em estar doente e ser o centro das atenções.

2 thoughts on “Hoje é o dia”

  1. Vagalume, três meses atrasada, mas com a honra de estar postando algo neste site muito lindinho! Ter cores, adesivos, lápis de cor e coisas assim no escritório não são do universo infantil, são de quem é criativo! Minhas estantes são inundadas de papéis e pequenos pedaços de papéis, onde a cada dia eu desenho algo, jogo cores… agora quero desenhar a botânica.
    E quero desenhar uma vida que tento reconstruir. E quero desenhar uma casa, onde tenha um casal, óbvio, eu e mais um. Já criei meus filhos, agora sou só… tentando reconstruir não o que eu destruí, porque este não tem volta, mas tentando reconstruir dentro de mim mesma, a capacidade de conseguir viver com alguém, viver um sonho.
    Tal qual você com você, ele é um homem mais velho do que eu, nesta faixa, mas líquido, virtual, indisponível. Não é um amor platônico, é um relacionamento imaterial, a matéria é o amor, o sentimento que transpõe barreiras (10 mil km). Não sei quanto tempo vou dar a ele… Talvez seja quanto tempo eu vou dar a mim mesma para o próximo relacionamento aparecer…

  2. Oi, Dory! Muito obrigada pelo seu comentário. Adorei a parte em que você fala que ter coisas espalhadas pelo escritório não é coisa de criança, mas sim de gente criativa. Você está coberta de razão! Obrigada de novo!
    Torço para que o seu amor imaterial saia desta categoria e você possa concretizar seu sonho de uma vida a dois. Na verdade, não sei se isso é o melhor para você, então vou mudar meus votos de felicidade: “que aconteça o melhor para todos”.
    Beijo, querida – Amanda Montenegro – codinome Vagalume

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