Sou uma ladra

Cumprir a minha obrigação mensal com a Justiça foi especialmente desagradável hoje. É sempre desagradável, mas hoje foi mais, pois a moça da 1a. Vara Criminal pediu para eu me informar sobre qual a sentença do juiz acerca de um dos meus processos.

Há dois processos nos quais sou ré, por furto. O primeiro, furto de uma sacola cheia de roupas de uma loja de departamentos. O segundo, óculos.

Minha carreira como ladra começou quando eu tinha por volta de 18 anos. Roubava queijos e hidratantes em supermercados. Depois passei um bom período sem roubar nada. O hábito voltou em 2014, quando fui demitida injustamente. Recomecei a furtar por rancor do mundo.

Na minha grande bolsa, cabiam muitas coisas: cosméticos, queijos, cervejas, talheres, vinhos, louças, canetas. Colocava a bolsa aberta no carrinho pequeno do supermercado e ia enchendo de coisas.

Comecei a ficar mais ousada. Roubei bijuterias finas, óculos, livros, chaveiros. Ainda mais atrevida, roubei lojas de departamento. Roubei muitas e muitas coisas de uma loja de shopping. Escolhia as roupas, sapatos, relógios,  óculos, bijuterias, colocando-as na sacola da loja, depois ia ao vestiário e cortava todos os detectores para que os dispositivos antifurtos não apitassem à minha saída. Então ia para um ponto cego das câmeras e transferia todo o conteúdo da sacola da loja para a minha sacola, e saía caminhando tranquilamente. Furtei um guarda-roupa inteiro.

Até ser pega. Era domingo de carnaval, eu morava sozinha e estava me sentindo extremamente solitária. Saí de casa com o objetivo de roubar. Fui pega na loja de departamentos com a minha sacola repleta de roupas. Passei a noite na cadeia. O interessante é que no início não me senti envergonhada. Como não sabia das consequências, estava achando até mesmo engraçado sair do shopping algemada e ser levada por um camburão à delegacia. Chamei minha advogada, que avisou meu psiquiatra e meus amigos mais próximos. Em pouco tempo a delegacia estava cheia de gente. Foi aí que comecei a sentir a gravidade do meu ato. E se os jornais publicassem? Seria a ruína da minha vida. E a notícia era inegavelmente atraente para os periódicos: mulher de classe média, profissão, formação, etc., flagrada roubando loja de shopping.

Ainda depois de ter ido para a cadeia, não parei com os furtos. Fui pega novamente em uma ótica. Desta vez não fiquei encarcerada. O pior foi a minha mãe ficar sabendo, porque o policial foi até a casa dela, onde eu estava hospedada, para recuperar os óculos. Imaginem o drama.

O resultado destes desmandos são dois processos com a sentença suspensa e a proibição de sair de casa à noite, a proibição de mudar de endereço sem avisar o Juizado, o pagamento de dois salários mínimos a instituições beneficentes, a obrigação de ir mensalmente ao fórum assinar o documento de comparecimento e levar certidões que atestem o meu tratamento psiquiátrico. Não obedeço a proibição de sair à noite, nunca obedeci. Quem está me vigiando? Eu saio e pronto.

Seguiria a minha carreira de ladra não fosse um fato: eu ter sido aposentada pelo INSS devido ao transtorno bipolar. Eu não reivindiquei a aposentadoria, ela veio como um presente, uma dádiva. Depois desta bênção, tomei vergonha na cara e nunca mais roubei nada de ninguém.

A imprensa não noticiou nada, graças a Deus. A pior consequência foi eu ter sido proibida de voluntariar. Eu voluntariava desde 1994 e não queria parar. Mas fui taxada de cleptomaníaca. Não sou cleptomaníaca, apenas agi irresponsavelmente. Foi sem-vergonhice mesmo, malandragem. Roubava porque queria roubar, não porque houvesse uma compulsão mais forte do que a minha vontade.

Devo ter sido ladra profissional em épocas pretéritas, e o impulso voltou nesta vida . Em uma das vezes em que fui internada em hospital psiquiátrico, roubei uma manta que uso até hoje. Detalhe: sempre roubei roupas para quem pesa 50 kg, eu peso 92 kg. Então a maior parte dos meus furtos está sem uso, guardado nos armários. Vou usar quando emagrecer estes 42 kg.

E o que isso tem a ver com o transtorno bipolar? Bem, eu estava em uma fase aguda de mania no auge da ladroagem. A mania faz a gente perder todo o bom senso. Sem medo de errar, posso dizer que eu compraria todos os itens que roubei, até os mais absurdos – as roupas que não me servem e os sapatos de salto altíssimo que eu não sei usar – se tivesse dinheiro. Mas não tinha, então roubei. Além disso, roubar dá uma sensação de poder, de estar levando vantagem, de ser espertalhona. Aquela sensação veio a calhar em um momento em que eu me sentia tão fraca por ter sido demitida injustamente.

2 thoughts on “Sou uma ladra”

  1. Eu roubava moedas, moedas do meu pai, da minha mãe e da minha irmã. Já casada, com filhos, trabalhava para minha irmã e roubava 1 dinheiro todo o dia, e dizia para mim mesma que ela me devia muito. Roubei muito material de escritório e tinha tudo em minha casa. Um dia um padre me disse que isto era pecado.
    Eu nunca mais roubei. Em 2014, um namorado filho da mãe me roubou 9 mil reais. Ainda não consegui reaver este dinheiro. Eu o praguejei diariamente todo o ano de 2015, até depois entender que talvez fossem os juros das moedas que eu roubei antigamente. Faço de tudo para não me lembrar dele. De vez em quando, como hoje, eu falo alto: é seu safado, a vida vai lhe roubar também. E procuro me distrair com outras coisas, mas pensando no quanto este dinheiro me faz falta.

  2. Sabe, Dory, também já perdi muito dinheiro. Veja o post “Os cafajestes da internet – o número três.” Mas ficar remoendo esta história só me intoxica. Então procuro não pensar em nada mais. A conta mais importante é aquela que indica o bem e o mal que você fez aos outros. Nesta conta eu quero estar superavitária, então se fui roubada, penso o mesmo que você: estou diminuindo o saldo da minha conta negativa.

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