Minha mãe

Figura-chave da minha psique. Criadora de vários traumas e dissabores,  ao mesmo tempo que a minha melhor e maior cuidadora.

Minha mãe também tem transtorno bipolar, mas não admite e nem se trata. A maior parte do tempo ela é bem disposta, ativa, trabalhadora. Já está aposentada, mas mesmo assim continua lecionando em uma escola particular de manhã, e à tarde atende alunos particulares. Ela mesma limpa a casa – mora sozinha -, não tem faxineira.

É muito prestimosa. Faz a comida que eu peço (eu quase nunca peço nada, mas, se eu pedir, ela faz com certeza). Há poucos tempo se ofereceu para fazer um caldo para mim todos os dias, pois estamos no inverno. Não aceitei, claro.

De quando em quando um gatilho faz com que ela caia em depressão, ela adoece. Sempre foi assim, desde que eu me recordo.

O processo de vitimização é a sua característica mais proeminente. Se ela é a vítima, então há um algoz. Este papel ela atribuiu a várias pessoas ao longo do tempo: à sua mãe, à sua irmã mais velha, ao meu pai, à alguém do trabalho, ao irmão mais novo, à mim. Hoje esse papel é desempenhado pelo pai dos seus netos, o viúvo da minha irmã. Minha irmã morreu em 2002, com 30 anos de idade.

A estrutura da família em que ela nasceu repetiu-se na família que ela formou: duas irmãs e um irmão caçula. Ela é a filha do meio e tem uma relação antiga de ressentimentos em relação à irmã mais velha, que ela julga ter sido a preferida da mãe dela, a minha avó. Não sei dizer o quanto disso é fantasia. Na família que ela criou, eu sou a filha mais velha, então a associação com a irmã é imediata. Muitas vezes ela troca o nosso nome, me chama pelo nome da minha tia. Ela, portanto, identificou-se inteiramente com a minha irmã mais nova. Elas viviam em uma espécie de simbiose, sem conflitos. A minha mãe era tudo que minha irmã poderia querer de uma mãe, e vice-versa.

Aí entra mais um fator complicador: meu pai sempre demonstrou predileção por mim, mas sempre foi um pai ausente. Isso só fazia com que a minha mãe e a minha irmã me afastassem mais, e eu não tinha um pai para fazer a contrapartida. Interessante: eu sou muito parecida fisicamente com a minha mãe, e a minha irmã era muito parecida fisicamente com o meu pai – mistérios do imponderável.

Desde que a minha irmã morreu, a minha mãe é a avó mais dedicada do mundo aos netos deixados pela filha querida. Eu tinha bastante ciúme, agora acho que já sei lidar melhor com isso (mas não está superado completamente).

Por conta da bipolaridade da minha mãe, minha irmã e eu apanhamos muito (todos os dias) quando éramos crianças. Mas não eram surras violentas, apenas uns gritos e umas palmadas no bumbum.

Quando adolescente, eu e a minha mãe brigávamos sem trégua. Em seus piores momentos, me chamava de monstra e dizia: “como você pôde ter saído de dentro da minha barriga??” Deixou feridas. Por conta disso, acabei escolhendo a profissão errada. O que eu queria mesmo era ser psicóloga, mas escolhi ser administradora de empresas para ganhar dinheiro rápido e não precisar mais do dinheiro dela. Saí de casa aos 16 anos, para estudar em uma cidade maior.

De fato, ganhei dinheiro, trabalhei em grandes empresas recebendo ótimos salários, mas a minha bipolaridade sempre fez com que eu vivesse endividada. Além disso, o ambiente empresarial, a concorrência interna, a politicagem, isso me adoece, literalmente. Hoje eu não sou mais capaz de trabalhar em um ambiente corporativo. Por isso a aposentadoria veio como uma bênção.

Voltando à minha mãe, afinal hoje é Dia das Mães… Nós nos aproximamos com a morte da minha irmã. Não fosse a bipolaridade e essa maldita identificação que ela faz entre mim e a minha tia, minha mãe poderia ter me enchergado como de fato eu sou, e teria sido uma boa mãe. Quando a minha irmã morreu e ela passou a conviver mais comigo, um dia ela pediu perdão de joelhos por ter me afastado. Eu perdoei.

Mas tenho motivos para lhe ser grata: ela estudava comigo em casa, principalmente matemática, a disciplina em que eu tinha mais dificuldade. Obrigava-me a estudar. Colocou-me em aulas de inglês e sempre dava um jeito de comprar os livros de literatura brasileira que eu tanto gostava, mesmo nos momentos de maior dificuldade financeira.

Também foi ela que cuidou de mim nas duas vezes em que estive internada nos hospitais psiquiátricos. Valente demais a minha mãe. E também sempre me arrumou dinheiro quando eu precisei. Aliás, até hoje ela faz isso, porque não superei as compras maníacas, embora ninguém saiba disso (eu compro escondida de todos).

Minha mãe é muito elegante e preocupada com a aparência. Anda sempre bem arrumada. Minha irmã também era assim, ao contrário de mim, que saio por aí de cara lavada e sem nenhum acessório. Ela tem uma preocupação enorme com a autoimagem, tanto do ponto de vista físico quanto do comportamental. Socialmente, ela é simpática, educada, honestíssima, bem-humorada. Da porta de casa para dentro, irritadiça e intolerante. Depois de adulta eu voltei a morar na casa dela por um período, depois de uma das minhas internações psiquiátricas. Não deu certo. Ela é intrusiva e possui mal-humor crônico. Mas só dentro de casa.

Hoje ela fez um almoço gostoso para mim e para o meu namorado. Sempre caprichosa. Nasceu em 1941, mas aparenta ser mais jovem. De velhinha não tem nada. Magrinha, cinturinha, bem penteada, maquiada, unhas feitas, bem vestida. Essa é a minha mãe, que hoje eu tanto amo, mas que eu tanto odiei na minha adolescência.

4 thoughts on “Minha mãe”

  1. esta história é a minha história, que coincidência… algumas coisinhas aqui e ali… mas o cerne, a coluna …
    espelhos,
    espelhos,
    identificações,
    perdões…

  2. Oi, Dory! Mãe é uma pessoa tão importante na vida da gente, né? Felizmente consegui sair da casa dela, e nosso relacionamento melhorou muito depois disso. Agora ela me trata como adulta – com algumas escorregadelas, mas em geral me trata como adulta. Obrigada pelo comentário! Amanda Montenegro – Codinome: Vagalume.

  3. Decidi ler tudo desde o começo, acho que vou conseguir acompanhar melhor. Ainda estou lendo no trabalho, então, acho que vai demorar um pouco. Não vou comentar em todos os textos, só em um ou outro, pra lembrar que estou por aqui rs

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