Eu compro afeto

Acabei de ter uma conversa virtual profunda, rica e muito sincera com uma moça que eu não conheço. Essa conversa me deixou muito pensativa, e, como eu disse a ela, foi como uma das melhores sessões de terapia que eu poderia ter com o meu psicólogo.

Esta moça é sobrinha do meu namorado e o conhece muito bem. Já havia trocado pequenas mensagens com ela, mensagens superficiais. Ela sabe da história toda entre mim e o tio. Mora em outra cidade.

Inteligente e autêntica, ela abordou o assunto do meu namoro de forma muito franca, mas também respeitosa. A palavra que ela salientou foi autopreservação. Ela sabe que eu tenho transtorno bipolar. Falei a ela sobre o efeito contraste, sobre a síndrome de Madre Tereza e do ego inflado por ser tão abnegada. Ela diminuiu a importância disso tudo. Disse que eu tenho que abrir o jogo com os filhos dele e dizer que a carga está muito pesada para mim.

Sim, a carga está pesada para mim, mas… Essa parte eu não consigo elaborar. Qual o efeito desse ato? O que eu esperaria com isso? Que os filhos contratassem um enfermeiro? Levassem-no de volta para o sobrado? Logicamente eu não quero isso. Penso que antes de falar com os filhos tenho que saber muito bem o que eu quero.

O que mais repercutiu em mim foi ela dizer que as despesas têm que ser igualmente divididas. Sim, eu sei disso teoricamente, mas na prática me precipitei e disse a ele que pode contribuir com o que quiser. Por que eu fiz isso? Para garantir que ele vai ficar comigo. Para comprar o seu afeto.

Minha psicóloga anterior sempre me perguntava o porquê de eu achar que preciso comprar amor. Ela me conduzia a todas as situações em que eu agi desta forma. Eu entendi, mas olha eu aqui repetindo o mesmo erro.

De qualquer modo, não tivemos aquela conversa sobre a provisoriedade (ou não) de ele ficar na minha casa. Ele vai morar comigo de agora em diante? Eu acho que vai, sim. Não toco nesse assunto porque ele está muito mal, está realmente doente e incapacitado para tomar decisões mais graves. O que eu sei é que ele precisa melhorar primeiro. Essa conversa seria muito pesada agora, capaz de deflagar uma crise ainda pior.

O importante nisso tudo, no aqui-agora, foi eu ter me olhado no espelho e ter visto essa mulher que acha que não merece amor, então precisa comprá-lo.

Eu tinha um casal de amigos queridos, quando morava em outra cidade. Gostava de ter a amizade deles, que eu considerava uma honra. Vivia comprando presentes para a filhinha deles, como se assim eles fossem gostar mais de mim. Uma vez eu confessei isso a eles. Dar presentes era uma sincera vontade de ver a menininha feliz, mas era também uma forma de garantir que eles gostassem mais de mim. Eu resolvi abrir o jogo. Claro que eles disseram “nada a ver”.

Com o marido anterior eu também fiz isso. Eu queria proporcionar-lhe uma vida confortável para ele não ir embora.

Erro atual assimilado. E agora? Como fazer para voltar atrás? Meu namorado vai me achar uma traíra, não vai? Por que me lanço cegamente nestas emboscadas? Pela falta de autoestima. Não me considero merecedora de amor, preciso garantir que o marido não me abandone.

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