Meu pai

Meu pai, um homem pacato. Nunca arrumou briga com ninguém, nunca discutiu com a minha mãe (minha mãe sim, brigava com ele). Tratava bem os empregados, era generoso. Morreu de câncer de próstata. Ele tinha nos abandonado há tempos. Morreu pobre, ele que tinha sido tão rico.

Quando meu pai e minha mãe se casaram, ele era um rico fazendeiro, sem estudo, mas muito trabalhador. Minha mãe era uma moça de família, estudiosa, professora. Não sei o que uniu duas personalidades tão antagônicas. Meu pai era extrovertido, gostava de festas, de jogar futebol, um bon vivant. Minha mãe, pelo contrário, sempre considerou festas um desperdício de dinheiro e gosta de uma vida caseira, fechada em seu círculo familiar mais próximo. O casamento não tinha nada para dar certo.

Ao longo do tempo, meu pai foi perdendo sua fortuna, por causa de desmandos e mau gerenciamento do patrimônio. A certa altura, foi morar em um Estado distante, para ser administrador de fazenda. Nesse momento já tinha perdido suas próprias fazendas e era empregado. Nós, a família, não fomos junto, minha mãe era professora concursada e eu já tinha saído de casa para estudar em uma cidade maior. Neste local distante, meu pai arrumou outra família, teve um filho e passou a viver maritalmente com outra mulher, mais jovem do que eu.

Periodicamente (no início mensalmente, depois as visitas foram rareando) ele nos visitava, e eu e ele combinávamos de irmos no mesmo período para a cidade em que minha mãe e meus irmãos moravam. Era impensável ele ter outra família. Mas um dia ele revelou – revelou para mim, então com 23 anos – que tinha essa outra família. Só contou para mim. Estávamos nos preparando para sair em viagem de férias, e ele me chamou num canto e contou. Tive enxaqueca a viagem inteira. Não contei para ninguém, uma vez que pensava que era ele que tinha que contar, e, além do mais, eu não morava com a minha família, não poderia dar assistência quando recebessem uma notícia tão devastadora. A notícia causou em mim uma forte crise bipolar, eu entrei em depressão e não consegui mais trabalhar, pedi demissão de uma empresa multinacional na qual eu tinha um cargo invejável.

Depois de alguns meses, e por ver que a minha mãe continuava tão iludida, eu contei. Minha mãe teve uma depressão quase fatal, mal conseguia andar ou falar.

Meu pai teve uma infância difícil, a mãe se suicidou quando ele tinha 5 anos. O seu pai, meu avô, casou com várias mulheres depois disso, e por nenhuma ele foi tratado como filho. Meu avô seguia trocando de mulheres e tendo filhos com cada uma delas. Meu pai tinha muitos meio-irmãos.

Cresceu em uma cidade muito pequena, era bonito, galanteador, sedutor. E rico. Mas sempre foi promíscuo, mesmo quando namorado e depois noivo da minha mãe. Minha mãe sabia destes descalabros, mas pensava (como é que pode?) que ele mudaria depois de casado. O apelido dela era “Molecão”, termo que não poderia ser mais exato. Meu pai não tinha a mínima estrutura interna para ser pai de família

Sou a filha mais velha. Meu pai se apaixonou por mim quando eu nasci. No meu primeiro aniversário, deu uma festa que durou três dias. Meu pai era assim: passional. Ao longo da vida, seguimos muito próximos. Meu pai mal escondia que eu era a filha predileta. Eu ganhava sempre os melhores presentes. O problema é que isso me causou problemas sérios de aceitação por parte do restante da minha família. Eu sentia o ciúme e o ódio que pairavam sobre mim por parte da minha mãe e da minha irmã. O pior é que eu não tinha o apoio do meu pai. Ele me privilegiava e caía fora, sempre foi um pai ausente, enquanto a minha mãe era muito-muito próxima. Mas me odiava. Ou seja, esse sentimento de predileção por parte do meu pai só me causou dissabores.

Eu sempre fui descontrolada com dinheiro e perdulária. Recorri ao meu pai muitas e muitas vezes em busca de dinheiro. Ele sempre me ajudava. Dinheiro = afeto.

Eu amei muito o meu pai, era quase uma idolatria, mas a decepção de saber que ele era bígamo bateu forte. Não pude perdoá-lo. Passei anos só telefonando para ele na data de seu aniversário (que quase sempre coincidia com o dia dos pais). E ficava só nisso.

Voltei a vê-lo por ocasião da doença da minha irmã (história para outro post). Ele voltou para se despedir dela. Nós não nos víamos há cerca de 15 anos.

Depois, quando ele adoeceu, eu convenci a minha mãe a irmos até ele para nos despedirmos. Eu sabia que o futuro dele seria difícil, então achei melhor tirar dos seus ombros o peso de algumas culpas. Agradeci tudo o que ele fez por mim, desde a escolha do meu nome até o pagamento da minha faculdade cara. E o dinheiro que ele sempre me arrumou.

Na nossa história há uma passagem especialmente tocante: quando eu estava estudando com todo o afinco para passar no vestibular super concorrido, minha mãe falou para ele que eu estava nervosa. Ele me ligou e disse: “Fia (significa filha, meu pai era um homem simples do interior), não precisa ficar nervosa não, se você não passar agora o pai paga mais um ano de cursinho para você.” Claro que eu fiquei super emocionada e foi aí que estudei mais ainda. Passei no vestibular depois de seis meses de cursinho. Relembrei-o dessa história e agradeci demais. No fundo, o meu coração ainda estava magoado pela traição, mas eu não quis que isso preponderasse no nosso último encontro. Agradeci e agradeci. Me senti mais leve e tenho certeza que ele partiu mais leve também.

Com este último encontro, minha mãe também teve a oportunidade de fazer a sua reconciliação.

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