Minha irmã

Éramos muito diferentes, até na aparência: ela, loira como o meu pai, eu, morena como a minha mãe.  Eu e a minha irmã nunca tivemos intimidade. Ela era três anos mais nova que eu, e muito ligada à minha mãe. Devido às circunstâncias já relatadas nos posts “Minha mãe” e “Meu pai”, não havia meio de a gente se aproximar.

Ela e a minha mãe viviam uma espécie de simbiose. Minha irmã nunca fez nada que desagradasse a minha mãe, exceto casar-se com um homem que a minha mãe nunca aprovou. Detalhe: eu nunca soube dessa desaprovação, elas faziam questão de manter para mim a imagem da relação perfeita.

Eu me lembro de uma passagem, no fim do ano, em que a minha irmã fez uma linda declaração para a minha mãe, lindo mesmo. “Eu queria ter uma mãe assim”, pensei.

Habitávamos universos diferentes. Eu saí de casa com dezesseis anos para estudar fora, a minha irmã nunca teve essa vontade. Ela casou de branco, com véu e grinalda e todas as formalidades da cerimônia, eu nunca pensei em me casar dessa forma. Para mim, casar na igreja pomposamente era pagar um mico (ainda é). Ela era quase totalmente submissa à minha mãe. O que minha mãe não aprovava, ela fazia escondido e minha mãe nunca ficava sabendo. Por exemplo: ir ao motel com o namorado. Minha mãe achava que ela havia casado virgem. Bem ao contrário de mim, que deixava a cartela de anticoncepcional em cima do criado-mudo, para a minha mãe saber que eu transava com o meu querido namorado e não havia nada de errado nisso. Mas a minha mãe não aceitava. Será que eu fazia isso para afrontá-la? Prefiro pensar que fazia isso para ser o mais franca possível.

Minha irmã era super caseira, arrumadinha, convencional, feminina, meiga, religiosa. Formou-se em Pedagogia e trabalhava na APAE. Nunca saiu da nossa cidadezinha. Era muito querida por todos. Eu morava em uma cidade grande, e quando ia visitá-los, encontrava o estereótipo da família perfeita: casa impecável, casamento feliz, excelente relacionamento genro-sogra. Tudo em perfeita harmonia – mal sabia eu que aquilo tudo era um castelo de cartas.

Como manda o protocolo, ficou grávida um tempinho depois de se casar. Um menino. Eu me preocupava muito com aquele menininho, pois o pai, ignorante e autoritário, mantinha-o sob severa subserviência, e a minha irmã não se posicionava, ela também muito submissa. Mas o casamento ia bem, a combinação dos dois de alguma forma dava certo.

Um dia mandei para ela um artigo que abordava as vantagens de ter só um filho, pondo por terra a crença antiga de que ter só um filho é torná-lo mimado. Por alguma razão, eu tinha uma intuição muito forte de que ela não deveria ter um segundo filho.

Mas ela quis. Quando eu perguntei porque, ela respondeu: “Porque eu quero que o meu filho mais velho conheça o amor de irmão.” Achei lindíssimo, mas continuava fortemente preocupada.

Aos sete meses de gravidez a minha irmã descobriu que estava com câncer em estágio avançado. Não podia fazer os tratamentos indicados (quimioterapia e radioterapia) por estar grávida. Mesmo assim, era tratar-se ou morrer, então ela se tratou com o mínimo de medicações possível, para não prejudicar o bebê.

O bebê nasceu aos oito meses de gravidez, pequeno, magrinho, mas saudável e sem sequelas. Naquele momento eu queria ficar o mais próxima possível dela, e finalmente nós nos reconciliamos, depois de uma vida toda de desentendimentos. Eu pus na cabeça que não ia deixar que ela morresse. Pensei: ela vai receber tanto amor, mas tanto amor, que vai se curar. Pela primeira vez ela me disse: “eu te amo”, na cama do hospital.

O câncer não regredia e meu pai foi avisado. Esta foi a ocasião em que voltamos a vê-lo, depois de 15 anos de abandono. Nós o recebemos bem, e ele pode conviver um pouco com a minha irmã.

Após um mês do parto, ela morreu. Todos morremos um pouco. Eu fiquei desesperada e meus seios começaram a produzir leite. Eu queria “amamentar” todo mundo: o nenê, minha mãe, o meu cunhado. Via todos sofrendo e sofria junto. Comecei a acalentar duas ideias: ter um filho para que ela renascesse (eu acredito em reencarnação) ou morrer para cuidar dela lá no extrafísico. Mas eu sabia que seria um duro golpe para a minha mãe perder duas filhas. Mesmo assim, por imprudência, sofri um acidente de carro. Eu definitivamente queria morrer para ficar perto da minha irmã.

Esse meu desespero não poderia ter sido mais nocivo. Ela ficou na minha psicosfera, ou seja, seu espírito ficou ao meu lado, durante um ano. Ela não aceitava a própria morte e muito menos eu aceitava que ela tivesse morrido. Foi um intercâmbio patológico. Eu, mesmo conhecendo as coisas do extrafísico, não imaginava que ela poderia estar parapsicótica (psicose dos espíritos). Achava que ela era muito boa demais para isso, e devia estar habitando em paz uma colônia extrafísica. Ingênua, ou cega pela dor, não conseguia perceber que a minha profunda angústia a estava mantendo perto de mim. Comecei a desenvolver todos os sintomas da sua enfermidade: emagreci por demais, meus cabelos caíram, eu sentia dores no corpo todo, não conseguia respirar direito (o câncer da minha irmã foi na região do pulmão).

Felizmente, e graças ao Amparadores (espíritos mentores), depois de um ano nós duas fomos assistidas. Ela foi encaminhada para tratamento. Depois disso, senti a presença dela só mais uma vez, bem nítida, mas, sabendo do perigo que representava a nossa proximidade, eu disse a ela: “Irmãzinha, volte para o extrafísico, você já não pertence mais a este mundo.” E ela se foi. Nunca mais senti a presença dela. Nesse momento ela deve estar bem, conformada com a morte precoce e preparando seus próximos passos. Ela morreu em 2003. O bebê cresceu e é um pré-adolescente muito inteligente, vivo, esperto, sagaz, alegre. Faz diversas mágicas e já ganhou campeonato de montagem de cubo mágico! Obrigada, Amparadores.

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