Compulsão por compras

Olho à minha volta e vejo dezenas de objetos que nunca usei: roupas, livros, revistas nunca retiradas da própria embalagem plástica… E coleções: relógios de mesa, miniaturas de perfume, toy art, caixas, lápis, canetas, quadros, CDs, DVDs, tesouras, latas decorativas, vasos, adornos de toda espécie…

Fazendo uma estimativa rasa, pode-se dizer que, daqui deste ambiente (meu escritório), eu faço uso de no máximo 20% das coisas. O resto é supérfluo, aquilo que, se desaparecesse, não faria falta alguma. E estamos falando só do escritório. A casa toda é assim. Uma casa grande, três quartos com armários espaçosos, todos abarrotados com roupas lindas e bem menores que o meu manequim, já que pretendo emagrecer. Por isso o meu marido diz que se sente deslocado aqui, por não ter um espaço dele. Por isso vou construir um cômodo no quintal, com banheiro, para dar o espaço que ele reivindica.

Esta é a história da minha vida: compras compulsivas, inúteis, maníacas. Todo dia eu faço uma compra. Ontem comprei uma bandeja de madeira de demolição, linda, cara, e totalmente sem necessidade, pois já tenho quatro bandejas. E comprei também uma sopeira maravilhosa, caríssima.

Se as pessoas percebem, ficam raivosas com este mau hábito. Por isso compro tudo escondido, pela internet, e mando entregar na casa da minha faxineira. Ontem fui à casa dela buscar as coisas que haviam chegado na última semana, e eram 11 itens: um tapete grande, três objetos decorativos, quatro vestidos, uma tábua de corte (já tenho outras cinco), uma queijeira (já tenho uma, linda), e um edredon king size.

Só de observar este comportamento, já se conclui que são ações de uma pessoa doente, principalmente levando-se em consideração que vivo da aposentadoria do INSS.

Sempre estive endividada, por mais que meu salário fosse alto. Gastei todo o dinheiro da venda da minha casa em desnecessidades. Ando com um carro velhinho. A casa está abarrotada de useless things.

Desde criança, meu pai me ensinou que dinheiro = afeto (já comentado no post Meu pai). Quando eu ganhava concursos de redação, ele às vezes não comparecia à cerimônia de premiação (sempre foi ausente), mas depois me dava um tantão de dinheiro. Quando saí de casa para estudar, e tinha que sobreviver com a mesada dele e da minha mãe, frequentemente pedia mais dinheiro. Meu pai sempre dava. Minha mãe também, mas furiosa. Mesmo assim nunca deixei de pedir dinheiro a ela. Este mês, por exemplo, foi ela que pagou meu plano de saúde. E se ela visse as coisas que eu trouxe para casa ontem? Se encontrasse o tapete escondido debaixo da cama? Se soubesse que comprei uma bandeja caríssima, mesmo já tendo quatro outras bonitas bandejas? Ficaria decepcionada, preocupada e com muita, muita raiva.

Vejo algo de alguém e cobiço. Imediatamente compro uma coisa igual ou melhor. Se preciso de uma coisa e não tenho, compro logo vários exemplares: por isso tenho cinco bandejas, pois na festa do meu aniversário precisei de bandeja e não consegui achar a que eu tinha. Então agora tenho cinco bandejas, para não faltar nunca mais.

No armário da cozinha não cabem mais louças. Adoro porcelana, compro muito. A compra da sopeira foi devido à uma sopeira que vi na casa da minha cunhada (ela mora em um casarão bicentenário, cheio de objetos de família, muito chique). É neste sobrado que meu marido morava antes de nos casarmos. A casa também é dele. Então eu penso: não vou ficar cobiçando objeto dos outros, vou comprar um para mim. Fiz uma tentativa de comprar uma sopeira, mas ela chegou quebrada, culpa dos correios. Ainda bem que tinha seguro, eu devo receber o reembolso mais cedo ou mais tarde. Então, já que quebrou, comprei outra, cinco vezes mais cara.

Curioso é que eu falo estas coisas com uma espécie de orgulho. Dá para notar, não? Há um orgulho em ser uma pessoa que realiza as próprias vontades, independente de tudo e de todos. Mas e se eu gastasse todo essa dinheiro com viagens, um carro novo, uma casa própria? Não seria mais sensato? Claro que sim, mas algo me sabota quando tenho dinheiro em mãos. O dinheiro da casa que vendi dilapidei sem demora, com roupas, sapatos, bolsas, óculos. A grande maioria, reitero, nunca usei. O meu barato é comprar, não usar. E digo “barato” no sentido de adição, ou seja, sou uma adicta em compras.

Tenho vergonha de ser assim, tenho remorso? Olha, não sei… Claro que literalmente pago um preço caro por estes desmandos. Estou endividada e com o nome sujo. Hoje não estou tão encrencada, mas já tive que recorrer a agiotas e penhor, quando mais jovem e em crise maníaca.

A superação deste traço fraco é aquilo ao qual eu dou o nome de “segurar o touro pelo chifre”. Não há medicação ou tratamento terapêutico que resolva, sou eu que tenho que segurar no braço, na raça. Tenho esperança de conseguir – não parar de comprar, mas comprar dentro do meu orçamento e limpar o meu nome. Não está tão difícil, uma vez que agora as despesas são divididas por dois, já que me casei.

Dinheiro é uma questão nevrálgica para o meu marido. Mês passado ele chegou a dizer que deveria ter esperado um pouco mais para se casar comigo. Ou seja, disse que estava arrependido de ter se casado comigo, só que com outras palavras. Isso porque eu comprei uma antena de TV… Mal sabe ele… Se soubesse, era separação na certa. Então por que eu me arrisco dessa maneira? Uma dose de autossabotagem. Uma dose de falta de vergonha na cara.

 

6 thoughts on “Compulsão por compras”

  1. Boas adorei o seu post.Parecia q eu estava me vendo no espelho.============Tenho feito tudo igualzinho a vc. Acho que é como vc disse pegar o touro a unha. Não tem remédio ou tratamento para o impulso por compras desnecessárias. Vivo um dia de cada vez, se possível, sem compras!

    1. Oi, Silvia! Que bom que você gostou do meu post! Tomara que você consiga refrear o impulso por compras, isso leva a gente para o buraco, né? Acabei de chegar da rua, fui comprar um cobertor e voltei com dois… É, amiga, esse touro é osso duro, mas nós somos mais! Uma coisa que não falta ao bipolar é RAÇA! Não perco a esperança de vencer esta batalha! Volte mais vezes, beijos, Amanda.

      1. Pois é Amanda,fui perceber q sou compradora compulsiva há poucos meses.Sou bipolar,e agora com a crise econômica do Brasil,me vi com limite estourado.E em estado de mania.Fiz um monte de empréstimos,me achando a dona do mundo.Agora não tenho mais crédito,nao tem como eu gastar o que não tenho.Ai entro em depressão.Bjs para vc,para todas nós lutadoras!

        1. Oi, Rose! Incrível a capacidade que a gente tem de se autossabotar, né? Estou com dívidas até o pescoço, nem si se o orçamento vai dar para setembro. Se não der, vou ter que fazer uma daqueles empréstimos tipo “agiotagem”, com juros altíssimos. E já estou devendo 2.500,00 para a minha mãe. É o que temos. Abs, Amanda.

  2. Puxa….
    Nem sei por onde começar a falar sobre. …
    Se pela compulsão, pela droga, por nós. .
    Talvez comece pela humildade em admitir que igualmente estou endividada e com o nome sujo e que não consigo comprar uma agulha em meu nome.
    Apesar disso vivo sozinha, me mantenho a duras penas.
    Já tive a fase “áurea “, quando namorava um cafa (como diz você ) que me deixou em mania por 3 anos. Além disso, sentia a necessidade de mostrar para o ex-marido e a corja da família dele que eu estava por cima. Daí botei o pé na jaca. Além da herança do divórcio que foi uma dívida impagável de 170mil reais em meu nome, tinha outras e outras … sapatos, roupas, decoração.

    Hoje eu não tenho dinheiro prá nada, nem cartão, não compro nada. Vou gastando as roupas inúmeras de tantos anos. Minha prioridade é o aluguel, plano de saúde, medicamentos, comida e transporte. Vivo com o essencial. O necessário, “meus discos e livros”. Gostaria de completar a letra da música …”e nada mais”. Seria uma grande mentira.

    Porque o nada mais é o tudo mais. Tudo exagerado. A mania, a depressão, a solidão maldita, a vontade doentia de ter um lar, de vencer essa parada que são esses altos e baixos.

    Mas de tudo, tudo mesmo, o que eu mais queria ter, era uma casa minha, onde eu pudesse ser e estar do meu jeito.

    O tempo está passando, os dias correndo, e eu vejo cada vez mais distante a possibilidade. Eu me lembro de falar com o ex-marido sobre este sonho e o filho da mãe me cortou todas as possibilidades. E eu as tive.

    Hoje eu me masturbo diariamente na casa dos outros, nos portões que passo e vejo algo simpático, nos locais onde eu moro.

    Os terapeutas queimam a pestana para tentar saber como eu posso ter já morado em 33 casas em 32 anos. Burrinhos, vou voltá-los para o banco da universidade. A universidade da vida.

    Meu sonho é ter um cartão de crédito. Não para gastar. … Superei a fase do consumismo. A meditação me ajudou demais. Mas queria ter um cartão para não precisar, nunca mais, de ter que pedir para as minhas filhas para comprar ou pagar algo para mim que só aceita cartão de crédito (como passagens de avião e inscrições de congressos). E o dinheiro está na mão. É só trocar. Mas elas têm que pedir permissão para seus pares. Nisso, eu não sei se fico mais triste, se por não ter o cartão, por ter que pedir ou se pelo fato de vê-las assim submissas. Ou por que não , submersas. …

    É isto. O sábado está aqui. Minha mãe veio me visitar por tempo indeterminado. O pagamento só sai quinta feira que vem, tenho 20 reais na carteira e minha mãe quer comer um peixe no almoço. ..

    Aprendizado. Da humildade. Baixar a bola e dizer: mãe, me ajuda. E eu sei que ela espera por isso.

    Bom fim de semana. Beijos
    Dory

    1. Dory Querida, somos um quebra-cabeça multifacetado… Gastei todo o meu dinheiro da venda da casa (100 mil reais). Não sei bem onde está esse dinheiro, talvez nas dezesseis portas dos meus armários abarrotados de roupas lindas e caras – que eu não uso porque estou muito gorda. Talvez nos meus vinte e um pares de óculos, talvez nas quinze bolsas de marca. Não uso nada disso. Estou gorda, acho que não mereço, guardo para o dia em que estarei magra. O barato não é usar, é comprar. Posso falar também na minha grande coleção de porcelanas finas, tão lindas. E eu quero sempre mais… Agora mesmo estava vendo na internet um aparelho de jantar maravilhoso – mil e duzentos reais. Não teria nem onde guardá-lo, minha casa alugada é pequena.
      Poderia ter comprado um carro novo, ou pago as dívidas antigas para limpar o meu nome, mas não foi essa a escolha da Amanda bipolar. É uma vergonha mesmo, não dá para negar. Abraço da amiga Amanda.

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