Meu corpo

A ilustração retrata o meu corpo com precisão. A ilustração é de uma mulher grávida, mas meu corpo é assim mesmo, com este barrigão maior que os peitos.

Sou baixinha (1,56m) e gorda (92kg). Meus seios são caídos (sempre foram, desde a adolescência), minha barriga é enorme e flácida. Nunca estive tão gorda quanto agora. Estou deformada pela gordura. Tenho vergonha do meu corpo, principalmente pelos seios. Quando estou magra, são duas meiazinhas estendidas no varal. Totalmente murchos.

Na minha vida adulta, já cheguei a pesar 43kg – esta é a realidade do bipolar. Nesta época, eu era corredora de rua, treinava seis vezes por semana. Tinha uns 35, 36 anos. Me sentia lindíssima.

Se magra, tenho um corpo bem proporcionado, com cintura, bumbum (e seios caídos, não se esqueçam). Se gorda, como agora, chego a passar por grávida, uma vez que a gordura tende a se acumular na região do abdômen. Já entrei em filas preferenciais ao me passar por grávida (isto foi antes de eu conseguir miraculosamente a aposentadoria – desde então sou incapaz de sequer pensar em qualquer ato antiético).

Tenho muitas roupas novas, que nunca usei porque não me servem. Eu as comprei no intuito de emagrecer. Meus armários têm ao todo 16 portas, todas abarrotadas de roupas lindas e caras. Uma insensatez.

Nenhuma calça comprida me serve mais. Uso vestidos largos o tempo todo, mesmo agora em que estamos no inverno.

A compulsão por comida é vinculada à compulsão por compras. Eu como muito. E como errado, contrariando as regras nutricionais. Não gosto de comida caseira (arroz, feijão, bife, salada). Muito tempo morando fora de casa e me acostumei a comer outras coisas.

Passo dias só comendo doces: chocolate gourmet em barra, chocolate gourmet recheado com marshmallow, capuccinos, paçoquinhas, tortinhas, brigadeiros, merengues e, ultimamente, cerca de 20 bombons Raffaellos por dia. Estou na fase do bombom Raffaello.

Tenho fases em que me apaixono por um doce, tenho que comê-lo todos os dias. Já tive a fase da vaca preta, do sorvete de flocos (mais de um quilo por dia), do creme de papaia com licor de cassis. No auge da compulsão, já cheguei a sair de casa de madrugada para conseguir estas comidas maníacas.

Tenho uma amiga bipolar que também relata estes ciclos de mania por um determinado tipo de comida. Ao que parece, não é só comigo. Antes de eu saber o diagnóstico da bipolaridade, achava que era só uma extravagância da minha parte, embora sempre escondesse de todos.

Meu marido já me pediu para eu emagrecer, ou ao menos parar de engordar. Ele também é baixinho e gordo, então não tem muita moral para cobrar. No entanto, eu me sinto no dever de satisfazê-lo. Meu marido anterior desfez o casamento por conta da minha gordice. É uma história interessante, relato em outro post.

Por hora, escondo os doces do marido. Escondo os doces, escondo as compras. Escondo quem eu sou e substituo a Amanda real pela Amanda ideal. Se ele soubesse destes escondimentos, tenho quase certeza de que me abandonaria, principalmente pela questão do dinheiro.

Ele é distraído, então exponho novos objetos decorativos e ele não nota. Se nota, pensa que eu já tinha e estavam guardados. Assim também acontece com as roupas. E assim vou seguindo minha trajetória de engodos.

7 thoughts on “Meu corpo”

  1. Também tem épocas em que meu fascínio por doce vira obsessão! Já passei pala do leite condensado cozido, pelo sorvete… Eh preciso muito afinco e muita força de vontade pra sair do ciclo. Dai vem as compras, ou aumenta sua libido…os ciclos sem-fim!

    1. Sim, Vitoria, conhecemos bem estes ciclos… As minhas compulsões são por compras e por comida. Gasto o dinheiro que não tenho, fico endividada e com o nome sujo. E sempre compro coisas desnecessárias, inúteis. Faço tudo escondido, pois se meu marido soubesse o quanto estou endividada acho que ele separaria de mim. E então vem a culpa. Mania-culpa, culpa-mania. Ciclo que parece não ter fim… Mas tem controle, eu ainda não joguei a toalha!

  2. Não concordo com vc, Amanda q bipolar perca o controle da nutrição ideal, a ponto de perder a silhueta…
    Eu tenho sobrepeso de 8 kg, depois q comecei fazer uso do lítio e outros, mas procuro me alimentar adequadamente e fazer caminhadas qdo não estou na fase depressiva.

    1. Ótimo, Luana, que bom que seja assim. Será que no texto eu fiz alguma generalização indevida? Claro que muitos bipolares conseguem manter a silhueta, até por questões metabólicas genéticas. Eu não sou uma destas pessoas, mas estou me esforçando para ser.

  3. Me identifico muito com você Amanda nas compulsão. Sou gorda 1.58 MT e 90 kilos ando trocando medicação para ver se emagreço. Parabéns continua postando quero segui lá bjs

    1. Oi, Denise! Pois então, menina, esse negócio de ser gorda é um tormento, né? Mas eu não estou derrotada. Como dizia o Cazuza, “mas se você achar
      Que eu tô derrotado / Saiba que ainda estão rolando os dados”. Beijos, minha querida.

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