Sessão de terapia

Hoje tive uma sessão com o meu psicólogo. Gosto muito dele: assertivo, inteligente, positivo. Contei da felicidade de ter lançado o meu site, ele me parabenizou. Por enquanto as visitas ao site são tão minguadas… Mas vão aumentar, tenho certeza, se eu me esforçar.

Conversamos sobre a minha relação com o meu marido. Eu disse que sou a cabeça do casal e ele me corrigiu: não, você é a cabeça, tronco, braços, pernas, pés… Tive que concordar. Sou sempre eu que tomo as iniciativas. Meu marido mudou-se para a minha casa, e, por não ser uma construção conjunta, ele por vezes se sente um hóspede, deslocado do seu espaço. Durante o dia, ele não tem o que fazer (é aposentado), e fica perambulando pela casa e reclamando que eu não lhe dou atenção. Propus um trato: de dia eu tenho as minhas tarefas (o blog e a antologia), a partir das 18h eu paro de trabalhar e sou só dele. Ele aceitou, mas é um porre vê-lo tão ocioso. Ele diz que não tem o que fazer porque as coisas dele estão na casa anterior, no sobrado em que ele morava antes de vir morar comigo. Bem, esse é um problema que ele tem que resolver, não é mesmo? Não vou parar o meu serviço para ficar paparicando-o. Propus (aliás, decidi) construir um cômodo no quintal para que ele possa trazer todas as suas coisas. Ele diz que fica preocupado com o dinheiro para construir este cômodo, mas no fim eu é que tomo a decisão.

Minha postura é sempre de liderança. Até o presente do Dia dos Namorados eu indiquei o que ele deveria me dar. Sou muito controladora e autoritária.

O meu psicólogo salientou duas coisas muito importantes:

— Colocar-se sempre em uma posição de líder diminui o outro. Desautoriza-o, infantiliza-o.

— Ter controle sobre as coisas não é de todo mal, afinal uma das características das crises de bipolaridade é justamente perder o controle de tudo.

Meu marido é depressivo e imaturo. Tem 21 anos a mais do que eu, eu às vezes tenho que cuidar dele como se fosse um bebê. Não era exatamente este o meu ideal de casamento, mas eu gosto dele e quero ajudá-lo. Possui qualidades inestimáveis: é muito sincero, carinhoso, confiável, humano. Gosto dele de verdade.

Este é o meu sexto marido. Ele não sabe disso, pensa que é o segundo. É muito ciumento e eu é que não vou me atrever a contar sobre os outros maridos para ele. Na verdade, nunca me casei perante um padre ou um juiz de paz, mas chamo de maridos porque vivemos sob o mesmo teto. Vou dedicar um post a cada um deles, vale a pena.

Esta característica de ter uma vida afetiva instável é sintoma da bipolaridade. Isto se reflete também na vida profissional: tive 12 empregos em 25 anos. Hoje estou aposentada devido ao transtorno bipolar.

Voltando à sessão de terapia, saindo do consultório, fiz exatamente o que o meu psicólogo recomendou que eu não fizesse: comprei um móvel sem comunicar o meu marido, sem chamá-lo para escolher comigo, sem conversar sobre se a compra é mesmo necessária. Escolhi, comprei, vou pagar. Já vi esta característica de insubordinação e independência em outros bipolares. A gente gosta de decidir e realizar, sem muita enrolação. Com o meu marido, certamente a compra não seria daquele móvel que eu escolhi.

Ou seja: em teoria eu gostaria que fosse a nossa casa, mas na prática faço questão de demonstrar que a casa é minha. O que eu quero, afinal? Um companheiro ou alguém que viva na minha sombra?

Cuido dele com cuidado de mãe. Ele se escora em mim e eu aceito. Meu marido é viúvo, só teve a esposa como namorada, é infantil nas questões afetivas. Eu o consolo, o apoio. Gosto de fazer isso.

Meu terapeuta diz que também há um lucro em eu agir desta maneira: se ele está doente e precisando de cuidados, eu tenho que estar saudável para ajudá-lo. Tirando a compulsão por compras e por comida, estou saudável. Nem perto das crises mais agudas de mania ou depressão, felizmente.

10 thoughts on “Sessão de terapia”

  1. Muito bom o post, a relação de você e seu marido lembra muito a dos meus pais, vou mostrar o texto pra minha mãe com certeza. rsrs
    Sobre a sessão de terapia, certamente rendeu boas reflexões.

    1. Oi, Mauricio! Que bom que você gostou do post. Muito obrigada pelas palavras. Espero vê-lo por aqui mais vezes! Ah, se você conhecer alguém que tem transtorno bipolar ou se interessa pelo assunto, poderia por favor me informar o nome para que eu envie uma solicitação de amizade? Estou à procura de amigos rsrsrs Agradeço desde já! Abraço, Amanda.

  2. Amanda,
    Adooorei o seu último post, como me identifico c vc em 80% do q relatou (pq será?!rs)
    Em breve irei ler os outros posts, está d parabéns pela iniciativa!
    Eu, fui diagnosticada com TAB misto recentemente em março deste ano, ainda estou na fase de aceitação, mudanças d medicamentos p acertar qual melhor eu me estabilizo e isto me deprimi muito!
    Mas sei q chegará o momento q eu estarei estabilizada e retomar meu trabalho e ter uma vida “normal”
    Obrigada por compartilhar suas experiências comigo!
    Posso copiar e colar o significado do codinome vagalume em minha timeline?
    Bjs e até

    1. Claro que pode colocar o texto sobre o codinome vagalume na sua timeline, Kelly. Peço apenas que coloque a fonte (transtornobipolar.net). Assim quem sabe eu consiga mais amigos – estou atrás de amigos rsrsrs Se você conhecer alguém que tem transtorno bipolar ou tenha interesse pelo assunto, poderia por favor me informar o nome para que eu envie uma solicitação de amizade? Desde já agradeço! Abraços, Amanda.

      1. OI, Kelly! Que bom que você gostou do post, é uma satisfação tê-la por aqui! Claro que pode copiar o significado de Codinome: Vagalume na sua page. Por favor, cite a autoria assim vou conseguindo mais leitores, pouco a pouco. Obrigada, minha Flor!
        Bjs, Amanda Montenegro – Codinome: Vagalume.

  3. Vagalume… penso que sua história será meu futuro caso o meu casamento saia da tela de cristal e vá para a realidade. Eu sempre fui controladora e autoritária, e agora estou aprendendo a não ser mais, nem comigo. Eu sempre fui descontrolada financeiramente e agora estou aprendendo, de verdade. Eu sempre olhei outros homens de “soslaios” e sempre gostei muito de namorar… características bipolares… Tenho medo disto demais, porque já tive apenas um marido por tantos e tantos anos, e outros tantos namorados que me roubaram a juventude e a paciência. Mas acho lindo quando você diz que cuida dele. Meus olhos se enchem de lágrimas, porque no final, isto é nosso espelho… queremos que alguém cuide de nós, nos pegue no colo, nos conforte e nos proteja… é o retorno ao útero… ou quem sabe o retorno de Jedi?
    Estou amando seus textos… tudo a ver comigo e com minha trajetória bipolar…
    Obrigada!

    1. Oi, Dory Você não sabe como fico feliz quando um leitor diz que se identificou com meus textos. Obrigada por me dizer, você me incentiva muito. O que você fez foi retribuir, em um gesto de gratidão, o meu post. Rumo ao retorno de Jedi! Abraços, querida! Amanda Montenegro – Codinome: Vagalume.

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