Cafa número um e as três tentativas de suicídio

Começo hoje a escrever sobre os principais homens da minha vida. O primeiro, que conheci aos 18 anos, quando ainda era virgem, é o retrato do CAFAJESTE. Casado, desde o primeiro encontro (ele era amigo da minha melhor amiga) rolou um clima entre nós.

Ele foi me conquistando cada vez mais, com presentes, mimos, cartões de amor, visitas inesperadas. Ele tinha 36 anos, o dobro da minha idade. Fiquei completamente apaixonada e entrei em surto maníaco (eu não tinha a mínima ideia do que era transtorno bipolar). Aquele homem virou uma obsessão, tomou conta total dos meus pensamentos. Eu já não estudava, não dormia, não comia. Ficava esperando a visita dele ou o nosso próximo encontro. Ele dizia que o casamento não ia bem e planejava um futuro junto comigo.

Nesta época, eu morava com a minha melhor amiga. Ele me visitava umas três vezes por semana, à noite. Minha amiga fazia vista grossa. Saíamos, jantávamos em restaurantes caros e depois ficávamos namorando no carro até de madrugada (até aí, sem sexo). Foi a primeira vez que um homem me disse “eu te amo”. Ele preencheu um cartão inteirinho com esta frase, escrevendo-a repetidas vezes. Eu, cada vez mais apaixonada e maníaca. Vivia excitada, com a calcinha molhada. Tomada pelo desejo.

Com o passar do tempo, a minha amiga incomodou-se e disse que não toleraria mais aquilo. Então ele passou a me esperar na porta do cursinho, bem cedo, só para me ver e dar um (uns) beijo (s) de bom dia.

Então a minha amiga revelou o nosso caso para a família dele e para a minha família. Causou um enorme conflito. Me insultaram, me ameaçaram. Todos. Minha mãe, bipolar, também entrou em crise maníaca e me batia. Quanto drama ela fez, meu Deus. Meu pai ameaçou contratar um bandido para matá-lo. Nessa época, meu pai já morava distante de nós, o casamento com a minha mãe era só aparência, ele era bígamo. Eu sentia muita necessidade da aprovação do meu pai, então fui até a cidade em que ele morava para conversarmos. Não adiantou, ele não se posicionou, era omisso.

Sofri demais. Tentei me suicidar três vezes, enfiando a cabeça no forno e ligando o gás. Não adiantou nada, nem tonta eu fiquei.

Até então eu não havia transado. Eu dizia que não faria isso com ele sendo casado, pois era contra os meus princípios. Os amassos no carro tudo bem, mas sexo não, aí já é demais (vejam a contradição).

Então ele brigou com a esposa e foi morar em outro lugar. Bem, o campo estava livre, não havia mais o obstáculo do casamento – e eu transei com ele, o primeiro homem da minha vida.

E aí o CAFA me deu um pé na bunda e voltou com a esposa. Sofri como uma condenada, uma proscrita, uma degredada. O mundo contra mim. Entrei em depressão profunda. Não podia contar com a minha família e nem com as minhas amigas. Perdi a noção de certo e errado; eu, que havia entrado no enredo com tantas certezas (ah, as certezas dos jovens…), agora não tinha mais certeza nenhuma. Eu me sentia como uma lesma, no sentido de que, se alguém me apertasse muito, eu seria esmagada. Já não havia barreira sólida entre mim e o mundo. Por dentro, virei gosma.

Houve uma noite em que ele brigou comigo, eu chorei muito, ele me despachou (colocou dentro do ônibus) para eu voltar para a cidade em que minha família morava. No meio do caminho, inconformada com a situação, tomei um ônibus na direção contrária, voltei para a cidade dele. Liguei, ele não atendeu. Então fui para a porta da casa em que ele morava e fiquei lá a noite inteira, sentada na calçada esperando que ele voltasse (ele tinha viajado com a esposa, eu não sabia). Essa foi a maior e a mais perigosa loucura que já fiz por um homem. Sintoma da bipolaridade: essa intensidade insana, indomada.

Também me lembro que, enquanto nosso relacionamento durou, e piorava dia a dia, havia um cheiro horrível de carniça no meu quarto. Eu limpava e limpava, e o cheiro não saía. Isso tem a ver com o que eu escrevi em

O transtorno bipolar e o assédio extrafísico.

 

Trecho de “Eu te amo”, música do Chico Buarque:

 

Ah, se já perdemos a noção da hora

Se juntos já jogamos tudo fora

Me conta agora como hei de partir

 

Se ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios

Rompi com o mundo, queimei meus navios

Me diz pra onde é que inda posso ir

 

Se nós, nas travessuras das noites eternas

Já confundimos tanto as nossas pernas

Diz com que pernas eu devo seguir

 

Se entornaste a nossa sorte pelo chão

Se na bagunça do teu coração

Meu sangue errou de veia e se perdeu

 

Essa música representa o que eu sentia. Nossa história durou um ano. Foi em 16 de novembro de 1987 o nosso último encontro. Ele estava frio, distante, agressivo. Eu sabia que não o veria mais.

Transcrevo o meu diário. Nós havíamos jantado em um restaurante perto do prédio em que eu morava. O clima entre nós estava esquisito, insuportavelmente artificial e formal.

“ – É melhor você não me deixar na frente do prédio, parar longe.

– Onde você quer que eu pare, então? Aqui? – Percebi na sua voz uma ironia levemente irritada.

– É. (Pausa) Ninguém pode saber que nos encontramos hoje.

Sorriu cinicamente, como se tudo aquilo fossem mesquinharias que ele já tivesse superado e eu não. Estacionou quase bruscamente, e eu ouvi o ruído de algo caindo no banco de trás. Debrucei sobre o encosto.

– Caiu alguma coisa.

– Quê? – Debruçou também e começou a procurar, como se algo realmente pudesse ser importante numa situação daquelas; e eu soube que estava sem graça e queria ganhar tempo. Chegada a hora de eu ir embora, ele esperava que nossa reconciliação fosse afinal selada, mas sabia que, de qualquer forma, deveria partir dele.

Eu, oprimida pela DOR, já velha conhecida, não queria que a situação se prolongasse, e o desfecho estragasse tudo, e eu fosse obrigada mais uma vez a dizer coisas que não queria realmente dizer. Agi rápido, abrindo a porta do carro.

– Não é nada, pensei que tivesse caído alguma coisa. Tchau, vou embora.

– Espera, vem cá. – Aproximou-se, mas hesitou. Puxou meu cabelo e falou lentamente: – Se você precisar de alguma coisa me liga, tá?

Assenti com a cabeça e saí.

– Gostei muito de ter encontrado você hoje, viu?

Ele fez que sim, mas não disse nada, já agora um pouco irritado, me pareceu.

Dei as costas e atravessei rapidamente a rua, em direção à praça escura. Olhando para trás, mas sem diminuir o passo, ainda pude ver o carro que se afastava.”

Então esta foi a última vez que nos encontramos.

Há três anos ele se tornou meu stalker na internet. Descobriu a empresa em que eu trabalhava, mandou emails com o mesmo domínio que o meu (fulano@empresa.com.br). O nome da empresa era o mesmo da minha. Abriu um perfil na internet e colocou que trabalhava naquela empresa e morava na mesma cidade que eu. Um dos emails dizia mais ou menos assim: “Levei um grande impacto ao você responder meu email. Penso em você toda vez que vejo o mar. Desculpe se lhe causei algum percalço.” Respondi sem descer do salto: “Não se preocupe com os percalços. São pedras com as quais vou construindo minha estrada à caminho da evolução.” Nunca mais ele escreveu, thanks God.

4 thoughts on “Cafa número um e as três tentativas de suicídio”

  1. Ainda não consigo classificar, em minha vida, quem é quem na ordem de cafagestagem. Se o marido, único, que me deixou com uma dívida impagável nos bancos, se o causador de minha separação que me chifrou com meio mundo, comeu e bebeu em minha casa de graça por 3 anos, me fazendo ficar numa fase maníaca durante este período, e me mandou fotos nuas com outra na cama. Ou se outro que me fez mudar de uma cidade para outra me roubando 9 mil reais. Fora os mini cafagestes…

    1. São BIG cafajestes. Cafajestes profissionais. Acho que você ganhou de mim. Mas isso ficou para trás, não é amiga? Não seremos mais vítimas fáceis deste tipo de homem! Abração, Amanda Montenegro – Codinome: Vagalume.

      1. Bom, primeiro desculpe pelo erro da ortografia… cafageste com g. Mas me desculpe, porque cafageste com G, é cafageste que tem uma gang… daí o g…. rsrs
        É, ser cafajeste é igual gravidez, está ou não. Procede. Cafajeste é cafajeste!

        Acabei de ler ali agora num livro do Divaldo Franco (espírita) sobre obsessões, algo que cai muito bem. Diz o seguinte: […] sempre sob a lei de causa e efeito, porque ninguém resgata o que não deve, ninguém sofre aquilo de que não tem necessidade para evoluir.

        É… preciso fazer aquela regressão que você fala…

  2. Então vamos pensar assim: nesta vida cruzamos com cafajestes bem cafajestes mesmo. Eles vão, necessariamente, ressarcir ao Universo todo o mal que causaram. Mas a evolução funciona para todos. Um dia eles vão deixar de ser cafajestes. E, seguindo o mesmo raciocínio, eu posso ter sido um cafajeste em uma vida passada, e agora já estou mais evoluída.

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