Cafa número dois e os dois abortos

Muito bonito. Negro, alto, magro, cabelos compridos com trancinhas. Parecido com o Toni Garrido do Cidade Negra, mas mais bonito. Olhos brilhantes como faróis. Sorriso encantador. Muito assediado – quero dizer que era constantemente molestado por maus espíritos, – no espiritismo dizem obsediado. Na época eu não entendia nada de assédio, só depois é que fui ligando as pontas.

Nos conhecemos em um festival de música no qual a banda dele venceu. Ele era percussionista. Começamos a nos encontrar. Ele era carinhoso, atencioso, empático. Vivemos uma relação ilícita: ele era casado e tinha três filhos.

Ele me levava a eventos musicais, me apresentava seus amigos músicos, me mostrava novas bandas. Íamos a motéis. Eu para variar, me apaixonei. Muita atração física, mas também afinidades em outras áreas. Eu penso que o bipolar é um ser carente. Eu sou muito carente. Qualquer migalha de carinho e eu me apaixonava.

Eu morava em um pensionato de freiras, só para moças. Nossos encontros tinham que ser em motéis baratos. Eu saía destes encontros totalmente vampirizada, me sentindo mal de verdade, mas não sabia o que acontecia por trás dos bastidores do extrafísico: os maus espíritos sugando a minha energia.

Ele era pobre. Eventualmente participava de algum evento musical, e também era artesão, expunha suas criações em uma praça pública. Irresponsável, mal intencionado, cafajeste.

Fazia seis meses que a minha relação com o Cafa número um tinha acabado, eu ainda estava machucada, vulnerável.

E então aconteceu uma coisa horrível: eu engravidei. Nem pensei em ter o bebê, imediatamente pensei em abortar. Eu tinha 19 anos e estava no primeiro semestre da faculdade. Minha família nunca me apoiaria. E ele não me ajudaria em nada, disso eu estava certa. Precisava abortar, mas como? Eu precisava encontrar uma clínica ilegal e arrumar o dinheiro para o procedimento, que era caro. Estive por um triz de contar para a minha mãe, mas felizmente tive fibra suficiente para não contar. Aguentei o tranco. Minha mãe, muito religiosa, nunca me perdoaria.

Eu vivia da mesada dos meus pais, que pagava a cara mensalidade da faculdade e eu me virava morando no pensionato. Fiquei desesperada e, mais uma vez, maníaca. Sozinha em meu quartinho no pensionato, arrancava tufos de cabelo. Deixei de pagar uma mensalidade para ir juntando dinheiro para o aborto, e cometi a ingenuidade de deixar o dinheiro com ele. O que ele fez? Comprou timbales. Quando soube, fiquei mais desesperada ainda. E a barriga crescendo.

Eu sabia que o aborto só poderia ser feito até os quatro meses de gravidez. Cada dia era um martírio. Fiquei quase careca.

Ligava para ele todos os dias, cobrando uma definição. Ele desligava na minha cara. Foi para a praia e voltou todo bronzeado.

Finalmente, arrumou o dinheiro e o endereço de uma clínica. Que alívio!

Depois de todo o desgaste, ficamos um bom tempo sem nos ver. Havia sido uma situação muito pesada.

Os anos se passaram (uns três ou quatro anos) até que um dia, casualmente, nos encontramos na rua. Por esta época ele estava separado da mulher e morando na casa da mãe. A paixão voltou. No primeiro dia do nosso reencontro ele disse que me amava. E eu acreditei.

Minha família não aceitava o nosso namoro por ele ser negro e pobre. Todos me condenavam, para variar.

Eu já não morava mais no pensionato, havia alugado um apartamentinho e morava sozinha. Tinha me formado e estava no meu primeiro emprego. Rapidamente ele foi morar comigo. Colocamos aliança e nos “casamos”. Ele era inseguro, sentia-se diminuído perante mim e não perdia oportunidade de me depreciar. Reclamava do tamanho do apartamento, dizia que estava acostumado com casas maiores. Eu, depois de muita procura, encontrei um apartamento em uma área nobre da cidade, bem maior do que o anterior. Nem preciso dizer que era eu que pagava todas as contas. Essa minha característica eu já abordei no post Eu compro afeto. Senti-me na obrigação de encontrar um local mais confortável. Por que, meu Deus? O pior é que há reminiscências desta manifestação até hoje.

Ele começou a tocar com bandas maiores e conheci alguns artistas famosos. Mas a vida de músico, se não for contratado, é muito incerta. Um dia ganha cachê, depois vem um período longo sem ganhar nada.

Nosso relacionamento era ruim. Um dia, durante uma discussão, ele cuspiu na minha cara. Um dos maiores orgulhos que carrego nesta vida é não ter retribuído na mesma moeda.

Por essa época, começou a ter um caso com uma mulher que conheceu no conservatório em que estudava. Eu, lógico, não desconfiava, nem me passava pela cabeça. Ele levava essa mulher para fazer sexo em nossa cama. Cafajeste no mais exato sentido da palavra.

Não fazíamos mais sexo, nosso relacionamento estava em declínio. Um dia, ele me pegou praticamente à força e eu engravidei de novo. Mas dessa vez foi mais tranquilo, eu já trabalhava e podia pagar o aborto, o que fiz sem demora.

Então pedi a separação. Não aguentava mais tanto assédio, intra e extrafísico. Queria a minha paz de volta. Ele se revoltou e jogou na minha cara que transava com outras mulheres. Mais um motivo para a separação. Eu disse que a minha mãe viria passar um tempo comigo e ele precisava se retirar. Implorei à minha mãe que fizesse isso, mas ela se negou. Devo dizer que guardo essa mágoa.

Enfim, ele se foi. Não sem antes levar consigo várias coisas minhas, eletrodomésticos e o sofá. Eu aceitei, contanto que ele fosse embora logo.

Em relação aos abortos, não carrego culpa nenhuma. Pelo contrário, me sinto orgulhosa por ter conseguido segurar sozinha essa barra, tão jovem e sem apoio. Ninguém gosta de fazer um aborto. Eu fiz porque não tinha a mínima condição de criar aquelas crianças. Isso arruinaria minha vida, meu relacionamento com a minha família, minha carreira. Perdi perdão a eles, os bebês, mas eu não tinha outra opção.

Depois desta fase pesadelar, senti inconscientemente que precisava de uma desintoxicação. Virei vegetariana. Comia ovos e laticínios, mas eliminei totalmente a carne e a gordura da minha alimentação. Açúcar, só mascavo. Sal, só sal marinho. Eu precisava me limpar por dentro e por fora. Emagreci, cheguei aos 47 quilos.

Este momento coincidiu com o abandono do meu pai, que confessou ser bígamo. Não aguentei o tranco, entrei em crise de depressão, não conseguia mais trabalhar e pedi demissão do meu emprego. Ficava em casa, sozinha, lendo e escrevendo. A recuperação foi lenta.

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