Depressão

Tenho transtorno bipolar do tipo II, tendo à depressão.

Minha primeira crise foi aos 17 anos. Eu morava com uma amiga, teoricamente fazia cursinho. Simplesmente não conseguia sair da cama. Dormia o tempo todo. Saía só para comprar um quilo de sorvete de flocos, e essa era a minha alimentação diária. Passei o segundo semestre de 1986 na cama.

Não havia ninguém para me repreender, então eu não fazia nada. Eu sentia muito cansaço. Pensava que era preguiça, mal sabia que era a primeira manifestação de uma doença que me acompanharia vida afora. Estudar? Eu não tinha a mínima condição. Sentia culpa e vergonha, afinal meus pais estavam me sustentando para eu dormir o dia inteiro, mas não havia meio de superar aquilo.

Como a depressão se manifesta em mim:

– Dificuldade de pensar, raciocinar, concentrar-me;

– Perda ou diminuição da memória;

– Dificuldade de conviver, fobia social, vontade de ficar sozinha;

– Tristeza, cansaço;

– Estado de passividade e negativismo;

– Aumento da fome (o que me faz engordar e ficar ainda mais deprimida);

– Perda total do sentimento de satisfação e prazer com o que quer que seja;

– Nas crises agudas, perda da capacidade de leitura e escrita.

O problema maior era sempre quando eu trabalhava em uma empresa. Como esconder ou dissimular o meu estado? Isso era muito angustiante. Eu atendia o telefone, por exemplo – fazia isso automaticamente, como um robô. Quando desligava, não sabia quem havia ligado, o que a pessoa havia dito e nem o que eu respondera.

As empresas em que trabalhei sempre foram empresas grandes, cobram muito o desempenho dos funcionários. O que uma pessoa doente pode fazer em uma circunstância dessa? E eu pensava que era culpa minha, que era eu que estava fazendo corpo mole e enganando meus chefes. Passava os dias terrivelmente mal, fingindo que estava trabalhando e olhando sites de futilidades (decoração ou moda, na maioria das vezes). Observando o relógio, contanto os minutos para ir embora e parar de me sentir uma embusteira.

Em casa, ficava deitada vendo TV, mas não conseguia manter a concentração por mais de meia hora. Depois desse tempo, não lembrava mais o enredo do filme, quem era o bandido e quem era o mocinho.

A convivência era uma agonia. Quando uns amigos foram se hospedar na minha casa, eu fugi e fui para um hotel. Deixei meu marido de anfitrião. Ele não soube entender, ficou muito bravo comigo (estou me referindo ao meu marido daquela época, não ao meu atual marido).

Interessante é que eu não choro. Se chorasse, talvez aliviasse, mas não choro nunca. Posso estar morrendo por dentro, mas não choro.

A depressão normalmente é derivada de algum gatilho. Meu péssimo relacionamento conjugal, por exemplo. Uma briga com a minha mãe. Minha chefe me dar uma bronca. Sempre fui boa funcionária, mas, quando deprimida, só quero distância do trabalho.

Ficava me imaginando num SPA, recebendo massagens relaxantes, andando por caminhos de água morna e pedrinhas, para massagear meus pés… E ninguém (por favor, ninguém), para conversar comigo.

As maiores crises de depressão ocorriam domingo à tarde. Solidão e angústia sem fim. Um peso enorme que eu tinha que carregar. Saí da casa dos meus pais aos 16 anos, para estudar fora, me senti sempre muito sozinha. Domingos à tarde sem sol, então, eram sacrificiais. Vontade de me desmaterializar no Universo. Com certeza isso era devido ao retorno ao trabalho no dia seguinte, mas o sofrimento era por demais exagerado. Eu devia ter procurado um médico e relatado estas emoções, mas não sabia que eram anormais.

Evidente que hoje é um alívio saber que este é um ciclo depressivo da minha bipolaridade. Quando eu me sentir assim de novo, vou saber que é um sintoma, e não um traço de personalidade. Estou equilibrada, então faz tempo que não sinto depressão, ainda bem. As pessoas não entendem.

 

 

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