O marido número três

Seguindo a ordem cronológica, vou contar a história do terceiro marido – ao todo são seis maridos.

Um moço muito, muito bonito. Alto, magro, olhos profundamente azuis, loiro, feições europeias. Foi ele que se interessou por mim, e foi uma grande surpresa. Não esperava que um moço tão bonito me cortejasse. Mas ele era apaixonado por mim. Eu, na verdade, nunca o amei de verdade. Gostava dele, mas é só. Gostava dele por suas boas qualidades: íntegro, sincero, sempre em busca da melhoria, inteligente.

Como ocorreu com o primeiro marido, eu morava sozinha e logo ele se mudou para a minha casa. O apartamento era diminuto, mas demos um jeito de ele se instalar. Depois alugamos um apartamento maior, quando o meu irmão mais novo veio morar com a gente, para estudar. Ele e meu irmão tornaram-se muito próximos, eram como irmãos.

Eu sequer sentia atração física por ele. Sei lá, para certas coisas a gente não encontra explicação… Para mim ele era um amigo querido, nada além disso.

O nome dele fez com que eu me equivocasse: ele tinha o mesmo nome do homem dos meus sonhos, o homem com quem eu sonhei desde os sete anos de idade. Pensei: é ele! E me casei (nunca me casei perante padre ou juiz de paz, eu chamo de casamento o fato de viver sob o mesmo teto).

A família dele montou todo o nosso apartamento. Ele não trabalhava, só estudava (pós-graduação), recebia mesada do pai. Eu achava isso muito errado, e com o tempo passou a ser fator de discórdia entre nós. Um homem de trinta anos sendo sustentado pelo pai, para mim era inconcebível.

Eu penso desse modo até hoje, mas a minha reação foi erradíssima. Eu brigava com ele: era autoritária, controladora, intolerante, irascível. Uma pessoa muito difícil de se conviver. Ele, para se defender, também tornou-se inflexível e irritadiço.

A minha mania, na maior parte das vezes, resvala para a irritação, a intransigência. Não fico eufórica, fico colérica.

Hoje entendo que deveria ter feito justamente o contrário: deveria tê-lo elogiado, enaltecendo-lhe as boas qualidades, para que ele se sentisse fortalecido e, assim, procurado um emprego. O que eu fazia era aviltá-lo, e ele ficava com a autoestima enfraquecida, portanto sem condições de mudar as coisas para melhor.

Ele era técnico em plásticos e engenheiro mecânico. Fazia pós-graduação em segurança do trabalho. A certa altura, eu elaborei o currículo dele, fui até a FIESP e consegui uma lista com dezenas de empresas no ramo de plásticos, e ordenei que ele enviasse o currículo para cada uma delas. Ele obedeceu e foi chamado por uma das empresas. O trabalho não durou nem dois meses, ele foi demitido.

Então eu fui pedir conselho ao homem mais sábio que já conheci nesse mundo. A resposta foi: “Ele ser sustentado pelo pai está errado, mas não é assim que você vai conseguir aquilo que você quer.” Então parei de falar, não toquei mais no assunto. A energia e o clima entre nós, contudo, continuavam tensos. Eu emanava energia de repreensão. O que ele precisava era de apoio, fortalecimento do ego, alguém que o pusesse pra cima. E eu fui o oposto. Hoje vejo o quanto errei.

Até que resolvi terminar. Ele chorou muito. Coitado. Como me arrependo! As coisas que a família dele haviam comprado ficaram todas comigo. Eu me arrependo disso também, não foi certo.

E a história termina aqui. A história de uma mulher rígida, e de um homem inseguro e irritadiço. Ele voltou em casa três vezes para pedir para voltarmos, mas eu disse não. Pensei assim: se ele vier mais uma vez, vou dizer sim. Mas ele nunca voltou. Começou a namorar uma moça com a qual está até hoje. Tomara que sejam felizes.

Depois de um tempo, tomei consciência do meu erro. Uma mulher, na vida de um homem, deve apoiá-lo, exaltar-lhe as qualidades, estimulá-lo. Essa foi a maior lição de vida que restou deste relacionamento malfadado. Tenho uma dívida para com ele, meu terceiro marido. Sei que vou ter oportunidade de pagá-la, no futuro, possivelmente em outra vida.

2 thoughts on “O marido número três”

  1. Espero que consiga superar as dificuldades, deste relacionamento, nesta vida, não precise esperar, por outra. Boa Sorte!.
    Ass: Uma bipolar!.

    1. Oi, Anagaia, obrigada pelo comentário. Então, nessa vida está difícil porque ele está casado e eu também, e acho que para resgatar essa relação malfadada teríamos que ter um relacionamento bem próximo. Se não de marido e mulher, mas de mãe e filho, pai e filha, irmãos. Mas você tem razão em uma coisa: o melhor seria resolver nesta vida mesmo. sem jogar para a(s) próxima(s). Abraços de outra bipolar!

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