O grande amor da minha vida

FOGO – CAPITAL INICIAL

Você é tão acostumada

A sempre ter razão

Você é tão articulada

Quando fala não pede atenção

O poder de dominar é tentador

Eu já não sinto nada

Sou todo torpor

É tão certo quanto calor do fogo

É tão certo quanto calor do fogo

Eu já não tenho escolha

E participo do seu jogo, participo

Não consigo dizer se é bom ou mau

Assim como o ar me parece vital

Onde quer que eu vá o que quer que eu faça

Sem você não tem graça

Você sempre surpreende

E eu tento entender

Você nunca se arrepende

Você gosta e sente até prazer

Mas se você me perguntar

Eu digo sim, eu continuo

Porque a chuva não cai

Só sobre mim

Vejo os outros

Todos estão tentando

E é tão certo quanto calor do fogo

Eu já não tenho escolha

E participo do seu jogo, participo

 

Chegou o momento pelo qual eu estava apreensiva, mas sabia que ia ter que dar conta. Escrever este post não é fácil para mim. Mas vamos lá.

Desde os sete anos eu sonhava (acordada ou dormindo) com aquele moço (vamos chamá-lo de número um). Era alto, magro, tinha um nome específico, gostava de esportes radicais e tinha três traços físicos peculiares: olhos que mudam de cor conforme a luminosidade, lábios finos e mãos bonitas.

Segui procurando esse moço pelas cidades em que morei. Eu olhava o telefone e pensava: “Há uma combinação de números que, se eu discar agora, é ele que vai atender. Mas eu não sei essa combinação”.

Toda noite, era nele que eu pensava antes de dormir. Inventava histórias, enredos do nosso amor. Nessas histórias, nós nos amávamos, mas acontecia algum tipo de impedimento, algum mal entendido, e não ficávamos juntos. Também havia um segundo personagem (vamos chamá-lo de número dois), que também tinha um nome específico, que gostava de mim, mas eu gostava mesmo do número um.

Escrevi muitas vezes sobre ele em meus diários, em várias ocasiões.

Então aconteceu o equívoco de eu me casar com o terceiro marido justamente porque tinha o mesmo nome do número um. Quando me separei (aos trinta anos), pensei: vou deixar de lado estas bobagens de criança, príncipe encantado não existe, não vou pensar no número um nunca mais. Fiz um esforço (afinal eram mais de 20 anos sonhando com ele) e deixei de pensar. Fiquei aborrecida comigo mesma por ter gasto tanto tempo com aquela fantasia.

Comecei a dar aulas na instituição na qual eu voluntariava. Na primeira turma com carga horária mais extensa, portanto de maior responsabilidade, eu me sentia preparada para a incumbência. O curso duraria quatro semanas, aulas à noite. A primeira semana transcorreu tranquila. No fim de semana, havia uma atividade na instituição: um filme era exibido e depois debatíamos sobre ele. Nesta atividade, eu não era a coordenadora, era aluna. Meus alunos compareceram. No debate, um deles, especificamente, citou um conceito astrofísico chamado “buraco de minhoca”. Não sei o motivo, mas aquele momento caiu como um muro na minha cabeça. Um arrebatamento. Quem é esse homem? Fiquei muito impactada. Fui ver o nome dele na lista de presença e era o nome do número um. Olhei para ele. As características estavam todas lá. Era ele. “Ele existe”, pensei. “Não é uma fantasia”.

A partir daí, entrei na maior crise maníaca da minha vida. Não sabia nada sobre ele, se era casado, se era gay, se tinha AIDS… Mas precisava descobrir. As últimas três semanas do curso foram um martírio. Eu jamais poderia abordá-lo, isso seria totalmente antiético, eu sendo a professora. Mas como me comportar, se estava totalmente apaixonada e fascinada? Eu pensava nas roupas que usaria, a forma como daria a aula, tudo para conquistá-lo. Um grande erro, pois o decente tem que estar a serviço do aprendizado dos alunos, e não tentando conquistar um deles.

Uma outra coisa: na classe também estava o número dois, exatamente o mesmo nome, e que quis me conquistar inutilmente.

Quando o curso acabou, eu me declarei. Fiquei sabendo que ele tinha 10 anos a mais do que eu, solteiro, sem filhos, engenheiro, e, sim, gostava de esportes radicais. Eu estava cada vez mais siderada. Ouvia a música Fogo, do Capital Inicial (essa no topo do post), e chagava a ficar tonta, tal a grandeza daquele sentimento.

Havia um problema: ele era adepto de um guru indiano que pregava o celibato. Mas eu sabia que ele gostava de mim, eu sentia.

Conversávamos muito. Trocávamos longos emails. Trabalhar, eu não conseguia nem de leve. Dormia quatro horas por noite, acordava e ia de madrugada para o meu trabalho, usar o computador para escrever-lhe. Comer, não comia. Tudo para mim tinha gosto de papelão. Emagreci mais de cinco quilos em um mês. Naquela época eu era magra, fiquei magérrima. Me achava linda, e de fato fiquei bonita mesmo.

Certa vez, ficamos 12 horas conversando em um Frans Café, da meia-noite ao meio-dia. Foi um encontro fabuloso, um encontro de almas saudosas. E ele enfim decidiu desvincular-se da seita e ficar comigo.

Eu continuava em crise maníaca. Ele estava desempregado e morando sozinho, eu morava com o meu irmão em um apartamento grande e ele logo mudou-se para lá. Era uma tortura deixá-lo em casa para ir trabalhar, eu precisava da companhia dele o tempo todo. Faltei bastante no trabalho. Nada mais importava.

Então ele recebeu uma excelente proposta para ir trabalhar em outra cidade. Como eu não conseguia ficar longe dele, pedi demissão e fui junto. Eu tinha um alto cargo em uma grande empresa, mas e daí? O que significa isso em comparação ao grande amor da minha vida?

E então vivi o período mais feliz de toda a minha existência. O sexo era fantástico. Ele, apaixonado e muito romântico. Certa feita, fez um caminho de pétalas de rosas que começava na porta da nossa casa e terminava na nossa cama, também coberta por pétalas de rosa. Pela primeira vez experimentei o que é ser penetrada pelo grande amor. Eu me sentia cada vez mais mulher. Este é, para mim, o topo da escala da felicidade. Em uma escala de um a dez, nota dez. Todos os demais relacionamentos obtêm nota inferior.

Porém, o relacionamento, com o tempo, foi se degradando. Eu não estava trabalhando, e, quando o meu dinheiro acabou, ele arcava com todas as despesas. Ficou irritado. Disse que não ia sustentar dondoca. Demitiu a empregada. Em 2004, nem se lembrou do meu aniversário. Tratava-me mal, às vezes com desprezo. Eu estava atônita com tamanha transformação. Uma coisa que o número um não tem é generosidade. Eu procurei emprego em tudo quanto é lugar, mas todas as portas estavam fechadas para mim. Fui encantoada.

Tomei a decisão mais difícil: separar-me. Fui também influenciada pelo fato de ir trabalhar na sede da instituição em que voluntariava (que eu considerava e considero a minha missão de vida), que ficava em outra cidade. Estes dois fatores fizeram com que eu fosse embora. Fiquei com ele quatro anos.

Fui chorando, mais do que ferida. Eu sabia que também era um golpe e tanto para ele. Ele pediu para eu não ir, mas eu estava decidida. Nunca fui dondoca e não podia admitir tamanho menosprezo. Deixei tudo para ele: o carro (que era meu), a mobília, os eletrodomésticos. Levei minhas roupas e meus livros. Só.

Ele me deu uma certa quantia de dinheiro para eu recomeçar a minha vida. E eu fui. Sem saber onde ia morar, sem ter trabalho, sem ter a certeza de nada. Cheguei ao meu destino no dia 04/04/2004, um domingo. Na segunda-feira já estava empregada, como professora universitária. Incrivelmente, as portas de abriram para mim como nunca dantes.

Neste período, nunca perdemos o contato. Eu ligava para ele e ficávamos horas conversando. Em 2014 surgiu a oportunidade de revê-lo. Eu fui até a casa dele, completamente apaixonada. Ele não me deu esperança alguma, estava frio e distante.

Até que o inesperado aconteceu: em agosto de 2016 ele me ligou e disse que me queria de volta. Era tudo o que eu esperava ouvir nestes 12 anos de distância. No entanto, já estava namorando o meu atual marido, e não tive coragem de abandoná-lo. Ele não merecia, não merece. Então eu disse: “Há pouco tempo ouvir isso me faria a pessoa mais feliz do mundo, mas estou namorando um homem que me trata como uma rainha, e simplesmente não posso fazer isso com ele.”

O número um nunca mais ligou. Vamos nos reencontrar, tudo tem seu tempo. Vamos viver esse amor, há muitas vidas pela frente.

Eu o amo de todo o meu coração. É ele a outra pessoa, além do meu irmão, que eu amo incondicionalmente. Amor verdadeiro e imenso. Como eu já disse no post O meu melhor namorado, é perfeitamente possível amar dois ou mais homens ao mesmo tempo.

2 thoughts on “O grande amor da minha vida”

  1. E estou eu aqui, ainda, lendo seus textos, acho que já passou mais uma hora desde o primeiro comentário rs
    Acho que encontrei “meu texto”, claro que numa versão totalmente romantizada da minha situação.

    “… Não sabia nada sobre ele, se era casado, se era gay, se tinha AIDS… Mas precisava descobrir…”
    “…Eu jamais poderia abordá-lo, isso seria totalmente antiético…”

    Acho que minha história não vai ter nem meio final feliz, pelo menos, desejar ainda é de graça. Parabens pelo texto

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