O marido número cinco

O marido número cinco foi um equívoco do começo ao fim. Fiquei com ele oito anos, mais do que com qualquer outro, e no entanto tudo foi artificial. Não havia verdade entre nós, só medo de ficarmos sozinhos. Não havia proximidade afetiva, não havia vínculo amoroso.

Havia afinidades, sim, e por isso a esperançazinha de que tudo fosse ficar bem. Nós nos empenhamos para que desse certo, mas levamos o relacionamento longe demais, devíamos ter encarado a verdade bem mais cedo.

Ocorreu a mesma coisa que com o terceiro marido: eu nunca o amei, era só um amigo. Atração física zero.

Eu precisava de alguém, tinha terminado o relacionamento com o grande amor da minha vida e estava toda machucada. Quando ele se interessou por mim, eu gostei da ideia de ter alguém ao meu lado, começar uma outra história.

Ele era problemático demais. Fez parte da igreja católica por 20 anos, abandonou a igreja aos 35 anos, virgem. Conheceu uma moça e saiu com ela algumas vezes, e foi só então que perdeu a virgindade. Eu fui a segunda mulher da vida dele.

Como sempre, eu morava sozinha e não demorou para ele se instalar na minha casa. No começo foi gostosinho, a descoberta, a companhia, o carinho. Ele tinha (tem) várias qualidades: bondoso, bem intencionado, calmo, honesto, sincero, esforçado, trabalhador.

Contudo ele trazia muitos problemas pelo fato de ter sido padre. Na relação sexual, não conseguia manter a ereção. Excitava-se com filmes pornô. Eu ali do lado dele, finalmente uma mulher de verdade disponível, e ele se masturbando, mergulhado na fantasia.

As nossas afinidades resumiam-se à parte intelectual. Ele escreveu um livro contanto a sua trajetória e abandonando em definitivo a igreja e a fé. Eu tive um papel importante, revisando o texto e dando várias ideias. Nessa parte éramos grandes parceiros.

Nunca fomos um casal. Ele tinha dificuldade de estabelecer vínculos profundos. É incrível o estrago que o celibato clerical faz na vida dos religiosos. Vivia deprimido, mas nunca aceitou que precisava de tratamento.

Fazia o possível para manter a aura de santidade, muito preocupado com a autoimagem. Não relaxava nunca.

Fomos perdendo a proximidade, até o momento em que ele começou a reclamar que eu estava gorda. Disse que não sentia atração sexual por mulheres gordas. Me fazia prometer que ia emagrecer. Eu tentava, mas não conseguia. Não estava tão gorda como agora, pesava 70 quilos, mas para ele este peso já era uma deformidade. Quando casamos, ou seja, quando fomos morar juntos, eu era bem magrinha, pesava 43 quilos, era corredora de rua. Depois comecei a trabalhar o dia todo, e engordei. Eu me sentia muito depreciada, é claro.

Segurei a relação o tanto que pude. Temia que ele tivesse muitas dificuldades em se estabelecer sem mim, já que era eu que (como sempre) pagava todas as contas e ele não tinha nem um jogo de talheres, nada mesmo. Por essa época eu tinha um emprego em que ganhava muito bem.

Mas não adiantou, ele me deixou. Foi o primeiro homem a terminar uma relação, os demais fui eu que rompi. Eu não senti dor, senti alívio. Depois ele voltou, todo arrependido, pedindo para reatarmos. Não aceitei. Sabia o desfecho da história.

Encerro este post com esse belo texto que encontrei na internet (infelizmente não sei a autoria). O texto fala do prolongamento artificial de um relacionamento, exato o que aconteceu com este terceiro marido:

“Abrir mão não é covardia. É um gesto de coragem. Deixar ir o que nos aperta. O que não encaixa, mas também não desprende. O que não se permite e ainda confunde nossa mente. O que não se entrega por inteiro e ama pelas beiradas. É preciso liberar espaço para o novo. Mesmo que o apego seja grande. Abrir mão é a nossa chance de ser feliz novamente.”

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