A melhor amiga

Vamos falar dela, a melhor amiga. Quem nos aproximou foi a minha mãe. Minha mãe a viu andando de bicicleta na praça e sugeriu que eu andasse de bicicleta com ela. Ela estudava na mesma classe que eu, mas eu nunca havíamos conversado.

Foi outro encontro de almas saudosas (igual ao grande amor da minha vida). Desde o primeiro dia, nunca mais nos desgrudamos. Tínhamos o sonho de morar juntas, e ele se realizou quando tínhamos 18 anos. Morávamos só nós duas em uma quitinete, em uma cidade grande, para estudar.

Mas antes disso devo dizer que, aos 15 anos, eu me apaixonei por ela. Queria beijá-la, abraçá-la, tocá-la. Pensava nela todos os dias, quando me masturbava. Não cheguei a revelar esta paixão na época, revelei apenas recentemente. Foi a minha única paixão homossexual. Nunca saiu do plano da fantasia.

Bem, então lá estávamos nós morando juntas. Foi aí que entrou em cena o cafa número um. Foi ela que nos apresentou. No começo, eu escondia dela aquele amor proibido. Mas a culpa me corroia, pois até então não havia segredos entre nós. Até que um dia não consegui mais fingir e contei tudo a ela. Ela não demorou a contar para a própria família e para a minha família. Além disso, quando a bomba estourou, não se posicionou ao meu lado, como eu faria se a situação fosse com ela.

Foi o maior drama. Ameaças de morte, de suicídio… Eu, inocente, não acreditei que ela pudesse fazer isso. Quando viu o estrago que tinha causado, me pediu perdão aos prantos. Na hora eu disse que perdoava, mas no íntimo não perdoei. Ficamos 20 anos afastadas, por minha decisão.

Até que eu voltei para a morar nesta minha cidadezinha. Encontro-a casada, com um filho de 11 anos. No começo, fiquei ressabiada, não queria saber de conversa. Mas o amor foi mais forte que a mágoa e agora estamos super unidas outra vez. Ela é a minha melhor amiga e sempre será. Penso que a maioria das pessoas não tem o privilégio de viver uma amizade tão profunda.

Ela é mimada, egoísta, hedonista, sincera, boa profissional, inteligente, dona da razão, vaidosa. Eu a amo como ela é, é claro. Tem um marido que a venera, super gente boa. Às vezes tenho dó dele, por ter que aguentar os ataques de fúria da esposa. Mas ela o ama também e o relacionamento deles é firme como uma rocha. Embora ela o considere preguiçoso e pouco ambicioso.

Igual àquela música da Legião Urbana: “Porque se toca o telefone pode ser alguém com quem você quer falar por horas e horas e horas…” Ontem mesmo falei que estava com saudade e queria passar um dia inteiro conversando com ela. O assunto não acaba…

Tenho outras amigas, é claro, mas ela é especial. Não preciso fingir ser alguém melhor do que eu sou, não preciso mostrar só o lado bom, posso ser honesta ao máximo. Não é uma felicidade ter uma amiga assim?

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