A primeira internação e a demissão

Fui internada duas vezes.

A primeira internação foi mais tranquila, o meu psiquiatra recomendou e eu acedi. A recomendação foi devido à minha compulsão por compras, que naquela época estava tomando conta de mim. Faz uns quatro anos.

Fui para o hospital calma, acompanhada de uma amiga. Minha família morava em outra cidade, bem longe de onde eu estava. Eu estava trabalhando em uma grande empresa e era um suplício fingir que estava bem. A internação veio em boa hora, pois pude enfim relaxar, ao assumir a minha condição de doente. Fiquei com vergonha em relação a algumas pessoas, que não sabiam que meu caso era tão grave. Mas no geral foi positivo. Fiquei internada por uma semana.

Não tenho muita rememoração, lembro da enfermeira dizendo que era para eu ficar sossegada e não ter preocupação alguma, pois de agora em diante eles iam cuidar até da minha medicação. Entreguei a ela todos os remédios e relaxei. Que bom finalmente relaxar!

O hospital era muito bom, comida gostosa, limpíssimo, quarto individual, atendimento excelente. Lembro que várias pessoas foram me visitar, e perguntavam se eu queria algo em especial. Eu pedi banana, bombons, guache, papel e um caderno. Fiz umas pinturas para a filhinha de uma das minhas amigas. Os bombons, dava para as enfermeiras, para que eu ficasse amiga delas. No caderno, anotava quem ia me visitar, pois queria dar uma festa depois que saísse da internação e só seriam convidados quem fizesse parte da lista. A festa virou meu maior sonho. Na verdade, eu não sabia o quanto estava doente. Me sentia em um spa. Minha memória em relação à internação é muito vaga.

Lembro que, depois que saí do hospital, isolei-me em minha casa (morava sozinha). Festa nem me passava mais pela cabeça. Não atendia as visitas. Mas isso é o que me contaram, pois eu não tenho lembrança de nada disso. Dizem que, quando alguém chegava, eu abria a porta, via quem era e fechava a porta em seguida. Estava muitíssimo deprimida. Só deitada no sofá, com a TV ligada, mas também sem condição de assistir o que quer que seja. Deprimida, confusa, muito solitária.

Esta condição foi involuindo até o meu psiquiatra achar que ficar de licença médica era um desserviço, e que a volta ao trabalho me faria bem – desde que fosse em outra função, com tarefas mais simples. Negociou isso com a empresa e me deu alta. No dia em que voltei ao trabalho os meus colegas me deram um vaso de flores, me receberam muito bem. Logo em seguida o meu chefe me chamou na sala dele e me demitiu.

Nunca pensei em uma coisa dessas. A alegação era que o meu desempenho estava baixo, mas isso não se discute, afinal eu estava doente!

Meu psiquiatra ficou furioso. Ligou para uma advogada, amiga em comum, e eu fui falar com ela. Falamos também com o Sindicato. Entrei com um processo contra a empresa, mas perdi.

Não quero mais falar estes assuntos. Remoer é a pior coisa. Me sinto muito injustiçada! Melhor nem pensar, me faz reviver tudo de novo e eu me intoxico de raiva.

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