A segunda internação e a volta para a minha cidadezinha

Passei um período muito ruim em relação ao transtorno bipolar, há três anos. Sozinha em casa, desempregada, vivendo às custas do auxílio doença do INSS, e tendo que fazer as perícias que acabavam comigo. Aliás, acho que essas perícias acabam com qualquer um.

Fiquei muito doente. Se houvesse mais de duas coisas a fazer na rua, eu já não conseguia ir, tinha medo de fracassar – por exemplo: ir ao banco, ao supermercado e à lavanderia. Entrava em pânico. Também desenvolvi sociofobia, não aguentava ficar perto de ninguém. Bati o carro várias vezes, em postes, muros, e em outros carros. Sorte que o seguro cobria tudo.

Nesse momento deu-se a segunda internação, mais hard que a primeira. Aconteceu logo em seguida da minha estada na cadeia. Fui para uma clínica de doentes mentais, ambiente bem diferente do hospital em que estive internada da primeira vez. Mas a clínica era boa também. Quem me arrumou esta internação foi o meu psiquiatra. Não sei como ele conseguiu, pois a clínica era particular e eu não tinha condição de pagar. Será que ele mesmo pagou? Meu psiquiatra foi um dos meus melhores amigos.

Fiquei uma semana. Cheguei agitada, nervosa, com vergonha e melancolia. Minha família não estava presente, e eu me sentia muito sozinha. O convívio com os outros pacientes era esquisito, alguns me adoravam e outros me odiavam. Acho que faz parte do processo da doença mental.

A clínica propiciava atividades lúdicas e caminhadas, mas eu não participava de nenhuma delas, estava muito deprimida para isso. Passava a maior parte do tempo na cama, em posição fetal.

Havia uma questão que estava me atrapalhando, e foi tomando conta do meu pensamento: eu havia encomendado uns óculos em uma loja do shopping, e combinado de passar para pegá-los. Mas fui internada, então não podia cumprir o combinado. Fui ficando inquieta e pedindo para me deixarem ligar na loja, mas os enfermeiros não deixavam usar o telefone, por mais que eu argumentasse. Até que fizeram uma falcatrua: disseram que eu estava ligando para a loja mas eu estava ligando para o celular de uma enfermeira. Não adiantou, eu queria ter a certeza de que estava ligando para a loja certa. Fui ficando obcecada por esses óculos.

Meu irmão chegou, e a primeira coisa que eu disse a ele foi: “Que bom que você está aqui, vai buscar os meus óculos!” Mas ele não foi. Disse que eu estava muito transtornada, sem falar coisa com coisa. E a situação só piorava, pois eu temia que vendessem os óculos a outra pessoa.

Até que sentei no chão do corredor, e falei assim: “Daqui eu não saio, não me alimento, não tomo os remédios, não faço nada até trazerem os meus óculos!” Fui levada à força para a cama e amarrada. Mas, gente, era uma questão simples de resolver, por que não traziam os óculos de uma vez? Meus braços ficaram roxos pela pressão da mão dos enfermeiros. Na cama, tentei me cortar, mas só tinha disponível um tubo de creme dental, não surtiu muito efeito.

Então chegou a minha mãe e me encontrou naquela situação deplorável. Não sei se foi intervenção dela, mas enfim trouxeram os meus óculos. Fiquei muito mais calma e colaborativa. Minha mãe me levou para a minha casa. Decidiram que eu não poderia mais morar sozinha, teria que me mudar para a cidadezinha em que nasci, esta em que estou agora, onde minha mãe morava.

Daí em diante minha memória é muito falha. Lembro de negociarem o aluguel da minha casa, venderem os eletrodomésticos e boa parte da mobília, doarem as minhas cachorrinhas, tomarem todas as providências para a minha mudança. Quem fez tudo isso foi a minha mãe e os meus amigos.

Não me perguntaram se eu queria vir, e eu não estava em condição de me posicionar. Via tudo de dentro de um nevoeiro de bipolaridade. Meus cabelos caíram e eu tive que cortá-los bem curtinhos.

O resumo da história foi que eu vim, deixei muitas coisas na minha casa alugada, trouxe o que foi possível, e passei a morar com a minha mãe, minhas coisas todas encaixotadas e a casa dela entulhada. Período muito, muito difícil.

Fazia mais de dez anos que eu não vinha à cidadezinha (desde a morte da minha irmã), foi um reencontro penoso.

Pude perceber que havia sido egoísta de não visitar a minha mãe. Só pensei em mim e na minha dor pela minha irmãzinha. Eu deveria ter vindo, pela minha mãe.

Bem, com o tempo a minha casa foi vendida pelo psicopata da internet número três, bem abaixo do valor de mercado. O que fiz com o dinheiro? Dilapidei-o. Hoje estou endividada.

Fui agraciada pala pensão por invalidez, inacreditável tanta sorte. Hoje alugo uma casa toda bonitinha, primeira inquilina. Já está quase tudo bem.

6 thoughts on “A segunda internação e a volta para a minha cidadezinha”

  1. Minha querida amiga, teu relato é o meu maior medo do futuro. Nunca fui internada, todas as crises que tive foram sozinhas e algumas com a ajuda de uma grande amiga e outros dois não tanto. mas todos espíritas.
    E é no espirtismo que eu tenho encontrado meu equilíbrio.

    Mas teu relato é forte. Me balançou.

    Quando precisar, estou aqui ao lado, do lado, do outro lado desta tela líquida, às vezes imperfeita, quase sempre rarefeita….

    Beijo com carinho.
    Dory

  2. muito comovente seu relativo querida “ama”, minha sinhazinha bipolar! Também passei por 2 internamentos alcoolicos ” em comunidade terapeutica!’ que não difere muito de regimes manicomiais, me botaram para “laborterapia, 7 cozinha para 40 homens “dependentes de drogas”, uma minoria alcoolatras feito eu! Não tão dramático como voce mas foi muito difícil aos quase 60 anos 2 internamentos compulsórios. SOU CONTRA, SOMENTE OS VOLUNTÁRIOS DEVERIAM EXISTIR!!! HOJE ESTOU LIVRE MAS LIDANDO COM COMPULSÃO ALCOOLICA, QUE NÃO TEM CURA, ME UTILIZO DA FÉ EM DEUS, BÍBLIA, CAPS, PSIQUIATRIA, REMÉDIOS ANSIOLITICOS, E ESTOU CONSEGUINDO MAIS 24 HORAS DE SOBRIEDADE DESSA DROGRA LÍCITA , MAS TALVEZ A MAIS DEVASTADORA, POIS ESTÁ EM TODAS AS ESQUINAS , ATÉ OS MOTOTAXIS A TRAZEM PARA CASA QUANDO A COMPULSÃO É GRANDE!!! MAS ESTOU DECIDIDO , EU E MINHA NAMORADA A NAO INGERIR O 1O GOLE , ELA TAMBÉM TEM PROBLEMAS!!! AMÉM!

  3. Giovani, o que move para a abstinência continua sendo o medo de ser internada. Eu faço qualquer negócio para não entrar numa clínica ou hospital. E assim eu tenho superado crises e mais crises. Fé irmão! Força aí cara!,

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