A infância

Família bem de vida, meu pai fazendeiro, fazenda grande e em uma área valorizada. Todo ano minha mãe trocava de carro e ele de camionete. Minha mãe me conta que eu era uma menina quieta, que pensava muito. Preocupada com isso, me levou para um neurologista e eu fiz um eletroencefalograma, que felizmente indicou que não havia nada de errado com o meu cérebro. Minha mãe conta também que nunca gostei muito de bonecas, gostava muito mais de joguinhos, blocos para construção e coisas assim.

Tenho boas lembranças, eu e meus primos brincando na fazenda, o convívio com os meus tios, as festas de aniversário, Natal ou Páscoa. Nunca vi meus pais brigando – por mérito do meu pai, porque a minha mãe às vezes gritava com ele.

Minha mãe, bipolar, de tempos em tempos entrava em crise. Não sabíamos que era uma doença. Ela ficava de cama uns três dias, então melhorava. Muito irritadiça, colérica, irascível.

Meu pai teve muita paciência com ela. Meu pai, um querido. Nunca o vi responder à minha mãe, nunca ouvi palavras ásperas ou palavrões. Comprava joias para ela. Por outro lado, um fraco. Nunca se posicionava. Meu pai, um homem ambíguo. Preferia se omitir a ver a sua opinião prevalecer. Era carinhoso comigo e com a minha irmã. Nunca bateu em nós. Se falava num tom mais rigoroso, nós chorávamos.

Meus avós maternos, sempre por perto. Meu avô era um patriarca exemplar, aglutinava a família ao seu redor. Dele recebíamos carinho, bondade, altruísmo. Apaixonado pela minha avó, comprava rosas para ela e revistas de fotonovela nas quais escrevia declarações de amor. Um exemplo de humanitarismo. Ele era farmacêutico, muito querido pelos doentes que atendia.

Um dia, meu pai começou a cultivar a ideia de vender a fazenda e comprar terras no Centro-Oeste do País. Com o dinheiro da venda, poderia comprar grandes porções de terra. E foi o que fez. Minha mãe exigiu que ele nos levasse, por mais que ele dissesse que o ambiente era inóspito. Uma cena da qual não me esqueço: minha mãe chorando muito no momento da partida. Sempre se vitimizou. Se foi ela que quis ir, por que o choro, meu Deus? A mulher tem que apoiar o seu marido.

Professora estadual, pediu afastamento. Nos mudamos para lá e ficamos três anos morando em uma cidade empoeirada, repleta de nordestinos, sem recursos e sem lei. Praticamente um velho oeste americano. Morávamos em uma casa grande, sem forro, infestada de ratos. Índios andavam nus pelas ruas. Educação precária. Minha mãe começou a dar aulas na escola que eu e a minha irmã estudávamos. Uma excelente professora – mãe e esposa, nem tanto. De manhã íamos à escola, de tarde ela nos fazia estudar matéria mais avançada, porque não queria que ficássemos para trás em relação aos alunos do outro Estado, do qual viemos. Essa foi uma atitude muito bonita da minha mãe, à qual eu agradeço.

Nos três anos em que ficamos por lá, as coisas só melhoraram. A rua da nossa casa foi asfaltada, minha mãe tornou-se coordenadora da escola, arrumamos amigos muito queridos. Meu pai e minha mãe unidos.

Mas então, repentinamente, meu avô morreu. Minha mãe ficou muito abalada e quis voltar a morar na cidadezinha. De uma hora para outra estávamos de volta. Meu pai vendeu as fazendas, para não ficar longe de nós. Decisão erradíssima do ponto de vista financeiro. Primeiro comprou bois, que foram roubados em sua maioria. Depois pegou o pouco dinheiro que restava e comprou uma casa melhor na cidadezinha. Ao se ver sem nada, praticamente, foi ser administrador de fazenda em uma cidade distante. Foi quando ele se tornou bígamo, etc. Conto essa história no post Meu pai.

Quando voltei a morar na minha cidade de origem e reencontrei os amiguinhos (eu tinha 10 anos), me sentia muito mais madura do que eles. Tive um choque de cultura. As vivências lá no Centro Oeste foram por demais marcantes. Uma infância diferente.

A partir daí, minha mãe e meu pai cada vez mais afastados. Eu, brincando na rua, jogando vôlei, andando de bicicleta com as minhas quatro melhores amigas, sempre inseparáveis. Era muito legal. A família, cada vez mais disfuncional. As amizades, cada vez mais fortes.

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