Segurar o touro pelo chifre

O bipolar, sabemos, precisa de tratamento psiquiátrico e psicológico. Eu tomo meus cinco remedinhos todo dia, sem reclamar, muito pelo contrário: agradeço a indústria farmacêutica que os coloca à minha disposição. Sei que tanta gente critica a indústria farmacêutica, por capitalista predatória, mas não me junto a essas vozes.

Depois de tantas tentativas, cheguei ao meu coquetel certo de medicação que me põe estável há um ano. Bendita combinação, que bênção!

Quanto ao tratamento psicológico, hoje tenho o melhor psicólogo que já me atendeu. E foram muitos, alguns até renomados. Mas nunca ninguém me ajudou tanto quanto ele, e vim encontrá-lo aqui, na minha cidadezinha… Quem diria.

Estes dois componentes (medicação + terapia) me ajudam incomensuravelmente. As crises, as tentativas de suicídio, as internações, as demissões, tudo ficou para trás. Sou “quase” normal. Digo “quase” porque o bipolar sempre tem suas extravaganciazinhas, por mais que esteja equilibrado. Acho até engraçado…!

Porém, por mais que a medicação e a terapia ajudem, tem algo que cabe a mim, e só a mim, enfrentar e vencer. É isso que eu chamo de “segurar o touro pelo chifre”. É ter forças para se levantar, para procurar e encontrar ajuda, deixar de lado os pensamentos de menos valia, posicionar-se para enfrentar a batalha da doença.

Há algo de ambíguo na doença: ao mesmo tempo em que faz o corpo todo doer, a doença é aconchegante, ela me acolhe. Tira de meus ombros o peso que os normais têm que carregar. É aconchegante, nas crises depressivas, por mais sofridas, deitar-se em um quarto escuro e escrever na porta: eu estou muito doente.

Não estou fazendo pouco da dor dos depressivos, eu a conheço bem de perto. Muito de perto. Já estive depressiva a ponto de tentar me suicidar três vezes. Não é disso que eu estou falando. Estou falando é que, por mais ajuda que eu tenha recebido, houve um esforço grande da minha parte para escalar novamente o platô do equilíbrio.

Tem que ter raça, força, perseverança. Ninguém sai do buraco sem usar seus pezinhos e suas mãozinhas. Isso é “segurar o touro pelo chifre”.

Meu irmão querido é mestre nisso. Ele é bipolar, assim como eu, e já esteve severamente doente. Hoje estuda (está completando a segunda faculdade), trabalha, faz trabalho voluntário e muita atividade física. Ele não deixa a peteca cair. Ele é o meu exemplo. Tem 35 anos. Ele também está “quase” normal – o mais próximo que ele, como bipolar, pode estar das pessoas ditas saudáveis.

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