Trajetória até a ancoragem

Uma amiga do facebook me escreveu assim: Será que você pode contar um pouco como foi o início do tratamento com os medicamentos? Desde o início tomou estabilizador de humor? E desde o início recebeu o diagnóstico de bipolaridade? E quanto aos efeitos colaterais? Obrigada.

Percebi então que estava faltando eu relatar o que ocorreu até eu ficar estabilizada, ou seja, a trajetória até a ancoragem. Então vou contar agora.

Os sintomas da bipolaridade começaram a aparecer aos 18 anos (hoje tenho 47). Eu era irascível, prepotente. Ou estava tão mal a ponto de dormir o dia inteiro. Sentia uma angústia imensa. Não sabia que isso era uma doença, e que, portanto, tinha tratamento.

Quase não consegui terminar a faculdade e não parava em emprego nenhum. Durante uma das crises, procurei um psiquiatra que me diagnosticou como depressiva e receitou fluoxetina. O remédio me deixou mais calma.

Depois de um tempo, parei de tomar. Mas em 2009 meus sintomas recrudesceram e voltei a procurar ajuda psiquiátrica. O médico fez uma anamnese detalhada e deu o diagnóstico correto: transtorno bipolar tipo II. No início tomava só depakote, e não sentia nenhum efeito colateral.

Passados alguns anos, minha vida entrou em declínio: detestava meu trabalho e meu casamento estava em frangalhos. Os sintomas patológicos ficaram muito aparentes. Para mim, as crises sempre são deflagradas por algum gatilho, algum estopim que me tira do eixo. Meu médico foi trocando os medicamentos, mas mesmo assim eu não estabilizava.

Há um ano, porém, encontrei um médico que foi certeiro na minha medicação e felizmente estou estabilizada desde então. Importa acrescentar que também tomei decisões que melhoraram muito a minha qualidade de vida (aluguei uma casa, saí da casa da minha mãe).

Faço psicoterapia com um ótimo profissional. Tomo cinco remédios: depakene, diazepan, amitriptilina, fluoxetina e risperidona. Estou muito bem, só preciso acertar duas coisas na minha vida: a compulsão por comida e por compras. Mas todo dia eu me sinto bem, e sem afeitos colaterais, exceto tremor nas mãos.

Esse meu equilíbrio é dinâmico. Sei que gatilhos futuros podem desencadear novas crises. Não tenho a ilusão de que estou curada. Minha meta é ficar estável o maior tempo possível, e diminuir as perdas e as quedas quando chegar o vendaval.

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