A adolescência

A minha adolescência não foi tão boa quanto a minha infância. Adolescência, em geral, é um período difícil.

A microssociedade adolescente é dividida em castas. Há a casta mais alta, daqueles que têm mais amigos, saem mais, são bonitos, praticam esportes e obtêm vitórias, as moças mais cobiçadas, os que lançam tendências, os rapazes mais paquerados. Assim como os winners e os losers norte-americanos.

Eu e as minhas amigas éramos da subcasta. Tínhamos inveja dos winners e queríamos ser como eles, mas não tínhamos acesso. O relacionamento entre as castas era difícil. Nós os chamávamos de soçaite. Nós éramos meio que obcecadas por eles.

Éramos cinco amigas inseparáveis, amizades vindas da infância. Jogávamos muito vôlei, andávamos muito de bicicleta. Fazíamos coisas bobas, como ir ao cemitério passar medo. Ou acordar às quatro da manhã para ir caminhar. Minha melhor amiga estava sempre comigo.

Uma vez, aconteceu uma coisa estranha: estávamos jogando vôlei e um pessoal começou a falar mal da minha amiga. Fiquei aturdida: “Como eles podem falar mal de mim, não estão vendo que eu estou aqui?” Ou seja, por um segundo eu era ela, não existia separação entre as nossas personalidades. As coisas que me aconteciam, só se tornavam realidade depois que eu contasse para ela. Conversávamos horas e horas.

Durante toda a minha adolescência fui apaixonada por um moço da casta mais alta. Foram anos e anos. Ele me levava em banho-maria, ou seja, não se aproximava, mas também me paquerava de longe. Um sádico. Engraçado que sonho com ele até hoje. Ele continua bonitão. É o homem dos meus sonhos, o inalcansável.

Por essa época, meu pai era administrador de uma fazenda na qual passava a semana. Minha mãe obrigava todos a ir passar os fins-de-semana com ele, na fazenda. Imagine o que era isso para uma adolescente. Eu ficava furiosa. Minha mãe sabia e recrudescia ainda mais a obrigatoriedade. Uma sádica. Muito de vez em quando eu passava os fins-de-semana na casa da minha melhor amiga. Se eu tinha alguma coisa para fazer na sexta-feira à noite (um trabalho escolar, por exemplo), ela mandava meu pai ir me buscar no sábado de manhã. Meu pai ia, obediente. Mas nunca me achava, a mãe da minha melhor amiga dizia que nós tínhamos saído. Era nossa cúmplice. Meu pai também era cúmplice, é lógico, pois sabia da falcatrua.

Eu e a minha mãe brigávamos muito. Meu pai, omisso. Todos omissos, e eu sempre levava a pior, é claro.

Meu primeiro beijo foi aos quinze anos, com um moço da casta superior de uma cidade vizinha. Um gatinho. Eu não sabia o que fazer, então só pensava assim: “O que ele fizer eu faço,o que ele fizer eu faço…”

A partir daí eu beijei muitos moços. Naquela época (1985) já havia o que se chama de “ficar”. É sair de casa, encontrar um moço na noite e trocar beijos e abraços, mas sem sexo. No fim da noite cada um ia para a sua casa e acabou o contato, na maioria das vezes.

Eu era bonitinha, nunca me faltaram paqueras. Nunca fui muito bonita, mas feia também não era. Eu era (sou) muito baixinha, cabelos curtos. Os rapazes sempre gostaram de cabelão, mas o meu cabelo era crespo.

Nessa época eu e a minha melhor amiga estudávamos em um colégio particular em uma cidade vizinha, e as castas foram se diluindo. Agora fazíamos parte da casta superior de uma outra cidade. Nossos horizontes se alargaram. Já era hora de pensar na faculdade. Estudei dois anos nessa escola e saí de casa com dezesseis anos para estudar na cidade grande, sozinha, em um pensionato de freiras. Depois voltei, fui morar junto com a minha melhor amiga em uma quitinete em uma cidade mais próxima. Foi então que surgiu o cafa número um, e o resto os queridos leitores já sabem.

Escrevi diários a adolescência toda, e agora isso é importante para eu reviver o momento conforme ele realmente aconteceu.

Com a sua licença, Amanda de 15 anos, vou transcrever uma parte do seu diário:

 

16/12/84 – Domingo

Meu pai e minha mãe estão no hospital, e eu estou com saudade deles. Meu pai está internado porque estava com uma pedra no rim esquerdo, e o médico achou que seria necessário operar. Mas graças a Deus não foi preciso, a pedra saiu com uma sonda. Meu pai já está bom, ontem eu fui vê-lo. Eu amo o meu pai. A minha mãe também.

Mas as coisas não estão boas pro meu lado. Acontece que ontem houve baile, e eu estava planejando ir a esse baile faz tempo, porque eu queria bagunçar um pouco. Então, ontem, quando eu vi que estava tudo bem com o meu pai, eu pedi a ele e falei com a minha mãe. Minha mãe falou que não tinha problema e meu pai só pediu que eu telefonasse mais tarde. Havia o problema da companhia para voltar para casa, mas eu falei que podia chamar alguém para dormir aqui, já que havia colchões sobrando com eles dormindo no hospital.

Bom, à tarde eu ia telefonar a eles explicando que estava tudo certo e que eu tinha convidado a P. e a M. para dormir aqui, mas minha avó falou que não era para telefonar porque a minha mãe já havia telefonado há pouco tempo. Agora vejo que devia ter ligado, mas na hora pensei: “tudo bem”.

Fui ao baile, antes passamos aqui eu, a P., a M., a S. e o namorado prá trocar de roupa, porque a gente tinha saído à noite e precisava se trocar. O namorado da S. ficou na sala, minha avó acordou superbrava e ficou em pé vigiando a gente. Eu fui pegar um pouco de vinho, ela viu e ficou puta da vida. Mas dane-se, afinal eu não podia ir ao baile sem beber, e a muito custo, correndo um risco enorme, eu peguei duas garrafas de cerveja da geladeira prá gente ir tomando no caminho. Eram uma quinze para as 11h. Bom, uma cerveja eu tomei sozinha, e a outra ei dei para eles repartirem. Fiquei alegre.

As garrafas precisavam ser jogadas fora, uma o M., namorado da S., jogou longe num terreno baldio e a outra ele colocou num canto escuro. Havia umas mulheres na esquina, elas viram que era eu que estava bebendo a tal da cerveja no bico e o M. tratando de se livrar das garrafas. Eram esse tipo de mulher faladeira que há muito por aqui, dessas mal-amadas desgraçadas, e suponho que isso deu motivo a elas para conversas a semana toda. Uma bosta mesmo.

Bom, voltando ao assunto, hoje de manhã, na hora que nós acordamos, minha avó me disse que minha mãe estava muito chateada comigo, porque eu fui ao baile, e que não era para eu ir ao hospital, porque ela não queria me ver, como tinha ficado combinado.

Eu levei uma surpresa enorme, mas consegui servir o almoço às meninas numa boa, apesar da vó ter dito que era para elas irem comer na casa delas, porque a comida teria que dar para o jantar.

Depois que elas foram embora, minha mãe ligou e, apesar de ter dito que não queria falar comigo, eu achei que a gente precisava conversar. Ela disse que estava muitíssimo chateada , que não esperava isso de mim, e que não tinha deixado eu ir ao baile não, e que tinha dito nem precisa pensar quando eu falei de chamar alguém para dormir aqui. Eu tentei me defender, mas ela disse que dessa vez eu não conseguiria enrolá-la e não quis mais conversa. Ela não estava nervosa, mas bem triste.

É uma pena. Uma pena que entre nós haja tantos mal-entendidos, que a gente se entenda tão mal. Não sei porque ela faz isso. Quero só ver amanhã, quando eles voltarem. Mas tudo bem, amanhã já estarei mais feliz só deles estarem aqui, porque eu preciso demais deles, e estou morrendo de saudade da vida que a gente levava antes da internação.(…)

Foi ótimo eu ter ido ao baile, e espero que isso não cause problemas demais com os meus pais. Como eu disse no começo, eu gosto muito deles, e é quando eles ficam longe assim que eu percebo o quanto sou uma garotinha à procura de colo.

 

O3/02/85 – Domingo

(…) Bom, o Natal foi o seguinte: antes um pouco de eu sair na rua, a mãe ficou me enchendo para eu levar a minha irmã, que não tinha companhia. Eu falei que não, e aí ela começou com aquelas histórias que eu não tinha coração, que não era de casa (isto é, nasci no lugar errado), etc. e tal. Mas eu não ia levar mesmo e fim, ora. Poxa, se a menina não tem amigos nem para sair de casa no dia de Natal, não sou eu que tenho que aguentar o pato. Falei para a mãe que havia motivos sérios debaixo disso tudo, e não era eu levando um embrulho por uma noite que ia resolver tudo. Tarde demais. Mamãe, coitadinha, já tinha começado a chorar, para variar. Bom, falei que não ia sair. Daí meu pai teve com ela uma conversa séria, ela se arrependeu, pediu desculpas e pediu para eu sair. Mas eu estava me sentindo mal e não estava a fim. Mas ela tanto pediu que eu troquei de roupa e saí.(…)

 

OBSERVAÇÃO: nestes trechos vemos o que eu já havia relatado antes.

Minha mãe: autoritária, chantagista, fazendo tempestade em copo d´água, sempre defendendo a minha irmã, me ferindo com palavras ásperas, um relacionamento comigo repleto de mal entendidos.

Eu: querendo a liberdade mas pedindo colo, precisando de colo. Insegura e complicada. Sempre bebendo para me divertir.

Meu pai: essa foi a surpresa, um pai não omisso, que se posicionou e fez a minha mãe me pedir desculpas. Disso eu não lembrava. Que bom foi ler esses escritos. Obrigada, pai.

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