As nuances do meu casamento

A cirurgia para a retirada da vesícula do meu marido deixou uma sequela: uma hérnia. O médico explicou que a causa foi ele ter ficado muito agitado no pós-cirúrgico, os músculos se romperam.

Ele estava agitado desde antes da cirurgia, deprimido e muito desassossegado. A depressão piorou muito depois da cirurgia. Ele chegou a aventar a possibilidade de não tomar mais remédio nenhum. Foi quando eu o chamei para vir aqui para casa e desde então moramos juntos. Isso ocorreu no dia 23/03/2016, ou seja, há quatro meses. Passei dias horríveis com ele surtando o tempo todo, mas segurei a onda.

Agora, ele começou a ficar angustiado de novo com a próxima cirurgia. Começou a querer ter mini surtos e chegou a chorar. Disse que está com medo de a depressão voltar. Eu respondi: “Não sei se eu aguento”. E é verdade. Não quero me separar dele, mas a depressão é uma carga muito pesada sobre os meus ombros. Meu psicólogo chamou a atenção para o aspecto que não é só aguentar, é querer. Justamente: eu não quero passar por tudo aquilo de novo. Mas para o meu marido eu falei “não aguento” e não “não quero”.

Ele disse que ficou muito chateado com essas palavras, mas eu não voltei atrás. Ele precisa “segurar o touro pelo chifre“, ora bolas, não pode entregar-se à doença. Eu falo com conhecimento de causa. E a cirurgia é simples, depois é fazer muito repouso e tudo ficará bem.

A reclamatória constante é sobre o que não ter o que fazer. Brevemente (assim espero) vão construir o cômodo no quintal, para ele trazer as suas coisas. Mas até lá, o que eu posso fazer, meu Deus do céu? Quem tem que arrumar afazeres é ele. Eu, como ele, sou aposentada e muito produtiva. Escrevo neste meu site querido e organizo uma antologia, a ser publicada daqui a poucos anos.

Mas eu acho que ele entendeu o recado, pois voltou a praticar o esporte que gosta.

Mudando de assunto, meu marido esquivava-se quando eu falava em colocar aliança ou casar. Dizia: “é muito cedo”. Meu psicólogo me orientou para não deixar por isso mesmo, abrir o jogo em relação ao que eu quero para o nosso futuro. Então eu disse: “Depois de você estar totalmente recuperado da cirurgia, e depois da construção do cômodo, eu quero reunir as nossas famílias e celebrar a nossa união trocando alianças. Isso é o que eu quero, não vou ficar te enganando e vice-versa, precisamos saber um do outro exatamente o que esperamos para o nosso futuro.”

Ele não disse nada, quem cala consente. Não faço questão de padre nem juiz de paz, mas reunião com a família eu quero, e alianças também.

Ontem ele disse que está encabulado comigo, pois não fazemos sexo. Volta e meia ele retoma esse assunto. Respondo que isso não é vital para mim, pois os remédios que eu tomo de fato inibem a minha libido, assim como fazem com ele. Para mim, mais importante é o amor e a segurança.

Nós vivemos bem. Nunca brigamos, não nos alteramos, um cuida do outro. Ele sempre fala que quer estar mais próximo de mim, que o computador e o celular são os seus rivais. O meu site ocupa bastante o meu tempo, sim, mas nunca poderia abandoná-lo. Meu site é minha missão de vida.

Não tenho mais o que fazer por ele senão o que já faço. Faço por amor, faço por gostar da sua companhia. Mais não posso. Ele não é um bebê, que eu tenha que abdicar das minhas atividades para ficar pajeando. Não quero um marido-bebê, quero um marido carinhoso, apaixonado e companheiro. É isso o que eu quero.

ALTERAÇÕES

Acabei de ter uma conversa bem difícil com o meu marido. Ele que começou. Disse que não está legal, que faz tempo que não está legal aqui na minha casa. Que ele fica vendido, sem ter o que fazer, aborrecido, entediado, esperando o tempo passar. Que ele vê que eu trabalho aqui no site com gosto, mas que ele não tem mais tesão por nada. Disse que precisa gostar mais de mim para a vida dele ter um sentido. Se nós fizéssemos sexo, tudo estaria bem (nós não fazemos sexo por decisão dele, ou incapacidade dele). Perguntei o quanto ele gosta de mim, de zero a dez, e ele não respondeu. Eu disse que gostava dez (menti, na minha escala do amor o dez é o grande amor da minha vida). Acho que eu gosto do meu marido uns seis, por aí. Falei isso para ele não ir embora. Embusteira.

E por que não quero que ele vá embora? Se nem gosto tanto dele… Mas sendo o amor maior que 51%, então já vale a pena. Eu gosto dele, não o amo, mas gosto. E não sei viver sozinha, não quero ficar avulsa. Senão vai começar a confusão com os psicopatas da internet, de novo. Mulher, quanto mais carente, mais atrai homem que não presta.

E o meu marido presta, e muito. (Já nem sei se faz sentido chamá-lo de meu marido, eu é que estou forçando a barra). Ele tem bom coração, ótimos valores, é muito humano, sincero ao extremo.

Eu falei que, se ele for embora, eu vou sofrer, mas ele precisa ver o que é melhor para si. Ele disse que não quer que eu sofra. Eu respondi: “Isso é inevitável, você não tem que tomar a sua decisão com base no meu sentimento, e sim no seu sentimento.” Ele falou que não entendia como eu podia ser tão racional. “Não vou suplicar para você ficar, arrancar os cabelos, bater a cabeça na parede. Isso não adianta. E eu sei o sofrimento que é ficar tentando prorrogar um relacionamento que não existe. Aprendi isso com o meu ex-marido.”

Ele disse que não se sente bem aqui em casa, mas também não se sentiria bem no sobrado (o casarão bicentenário onde mora uma parte da família dele).

Meu Deus, que homem complicadinho! Ele voltou a tocar no assunto da minha fala de há alguns dias, na qual eu disse que não sabia se aguentava passar por aquela sua crise depressiva de novo. Mais uma vez, eu fiquei quieta, não desdisse o que dissera (mas bem que me deu vontade de voltar atrás, para eliminar qualquer tipo de insegurança que ele possa ter em relação ao meu amor). Minha melhor amiga e meu psicólogo tentam me ensinar que não é assim que se faz, que ele tem que ter alguma dúvida, lutar para não me perder. Então eu faço o que eles dizem.

Coloquei essa imagem do casal abraçado gostosamente, porque nós nos abraçamos muito. Mas, com essa conversa, já nem sei se essa imagem faz sentido. Ou será um abraço de despedida? Aquela minha querência de um marido apaixonado miou.

…CONTINUAÇÃO

Meu marido saiu para praticar esporte e me ligou do clube. Perguntou se eu estava bem, respondi que não. Ele perguntou porque e eu respondi: “Porque o homem que eu amo não gosta de mim”. “Não é isso, Amanda, não distorça minhas palavras, por favor.”

Quando voltou para casa, eu disse que precisávamos ter uma conversa. Ele: “Eu vim para cá pensando que eu quero ficar com você, e ficar muito bem.” Repeti as palavras dele da conversa anterior e disse que ele me deixa muito confusa. Ele respondeu: “Porque eu é que estou confuso. Mas quero ficar com você.”

Durante a noite, ele me abraçou e beijou mais de uma vez, todo carinhoso. Mas eu passei por maus bocados com essa atitude dele. Acordei com dores pelo corpo e uma dor de cabeça monstro. Tomei tylenol e melhorei um pouco. Agora parece que está tudo bem.

Não posso nem pensar em ficar triste para a depressão não voltar… Nossa, não quero imaginar uma coisa dessas…

 

2 thoughts on “As nuances do meu casamento”

  1. Fiquei “presa” ao seu belo relato! Foi o texto q mais me identifiquei! Talvez eu quisesse ser tão racional qto você, e no fundo, eu tb sou.

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