A segurança necessária ao bipolar

A bipolaridade é a doença da insegurança. Vivemos na corda bamba, numa montanha russa que não controlamos.

Como eu já comentei em outros posts, a ancoragem do bipolar é a tríade: medicação + terapia + “segurar o touro pelo chifre”.

Estamos suscetíveis a crises deflagradas por um gatilho, ou crises que vêm sem motivo aparente. No meu caso, sempre entro em crise por conta dos gatilhos.

Os  gatilhos são desestabilizadores em relação a algum aspecto da minha vida: amoroso, profissional, familiar, ou qualquer outro campo.

Quando conheci meu marido, uma das primeiras coisas que eu disse a ele foi: “Preciso de segurança. A minha doença requer que eu tenha segurança em todas as áreas da minha vida. Preciso ter segurança em relação ao nosso relacionamento. Vivi por oito anos uma relação instável, e isso foi extremamente deletério para mim. Se você quiser ficar comigo, ótimo. Se não quiser, por favor fale logo.” Ele prometeu que faria isso.

Mas, como vocês viram em posts anteriores, não é isso o que vem ocorrendo. Por isso saí do prumo, depois de um ano estabilizada. Tivemos uma conversa séria e ele falou que nunca mais vai tocar nesse assunto, que realmente quer ficar comigo.

Eu preciso de um homem sincero, honesto, e apaixonado por mim. Já tive tudo isso, mas infelizmente perdi. Agora é tarde.

Meu marido me disse que não é apaixonado por mim, mas o primeiro passo para ficarmos juntos é gostarmos um do outro. Eu também não sou apaixonada por ele, não o amo, apenas gosto bastante dele. Mas menti que o amo e que estou apaixonada. Agi assim para garantir que ele fique comigo, nem que seja por piedade. Não consigo viver sem um homem ao meu lado. Fico extremamente vulnerável. Vulnerável até mesmo a psicopatas, como já relatei. Estou sendo desonesta, eu sei – mas o medo é o causador desta desonestidade.

Eu confio que meu marido vá ficar comigo, mesmo sem me amar. E o amor pode ser construído ao longo do relacionamento, ao longo da convivência. O único amor que já chegou pronto para mim foi o grande amor da minha vida. Os demais, nasceram sempre ao longo do tempo.

Por isso faço questão da cerimônia da troca de alianças. Sei que qualquer relacionamento pode acabar, até repentinamente, mas não quero que isso ocorra comigo. Seria um gatilho enorme e deflagraria uma crise de bipolaridade. E isso é tudo o que eu não quero para mim.

14 thoughts on “A segurança necessária ao bipolar”

  1. Ser bipolar é ter perdas na vida.Perdas no amor, perdas no trabalho, perda em relaçoes de amizade.É DIFICIL.O fim é sempre querer a perda da própria vida.É UMA LUTA CONSTANTE, pois o interno nao se identifica com o externo.Parece que sua cabeça vive num tempo.E o externo em outro.Existe um choque de realidades que dificulta em muito a caminhada pela vida.

    1. Você tem razão, é difícil e, sim, é uma luta constante. Mas discordo de uma coisa: o fim nem sempre é querer a perda da própria vida. Eu tentei o suicídio três vezes e agora isso nem me passa pela cabeça. Já passei por crises inacreditáveis e agora estou bem. Não tem cura (ainda), mas controle tem, sim.

  2. Essa postagem me deixou triste e reflexiva ao mesmo tempo. “Será que comigo, bipolar, será assim também? Será que terei um relacionamento de conveniência?” Eu prefiro crer que a paixão e o amor sejam permitidos para todos, inclusive para nós bipolares. Pra tudo dá-se um jeito. A segurança vem com o tempo também!

    1. Claro que sim, Jani! Você vai encontrar quem você ama, que vai amá-la do jeito que você merece! Não estou vaticinando que todo bipolar tem necessariamente um relacionamento de conveniência, longe disso… Minha história de vida é que levou a este estado de coisas, não apenas a bipolaridade. “É só dar um tempo que o amor chega até você.”

  3. Eu não sei o que é mais difícil. Se é tomar uma decisão coerente, ou se manter as atitudes da decisão. Porque no fundo, eu tenho a certeza de que haverá uma auto sabotagem.
    A incerteza passeou aqui em casa hoje o dia inteiro. Literalmente, estou nessa era, a era da incerteza, onde não tenho certeza de nada, nem mesmo do que eu quero…
    ou do que não quero…
    Uma coisa eu sei… não quero estar neste lugar em que estou. Cansei de errar, eu não posso mais errar.
    O que me espera?

    1. Querida Dory
      Quando eu estava indecisa sobre me separar do grande amor da minha vida, fiz o seguinte exercício: como eu estaria dali a um ano? Vi-me cada vez mais amesquinhada, e ele agindo da mesma forma. Percebi que não havia melhoria possível, pois ele não iria mudar. Decidir abandoná-lo foi como amputar uma parte do meu corpo. Nossa, como doeu.
      Qualquer decisão traz perdas e ganhos. Mas eu acredito muito na nossa necessidade de estabilidade. A instabilidade acaba com a gente.
      Que você consiga tomar a melhor decisão, minha amiga, e sair dessa zona de insegurança. Desejo o melhor a você, pois você é sincera, sensível, afetuosa, inteligente, e merece alguém que valorize essas qualidades. Alguém que esteja do seu lado para o que der e vier. Com carinho, Amanda Montenegro.

  4. Eu tive uma adolescência muito difícil. Todas as vezes que algo mais “sentimental ” me acontecia, coincidia com chuva. Meu coração doía… Parecia que se esvaía junto com as enxurradas…. Este barulho da pós chuva, dos pneus dos carros no asfalto me doíam muito.
    E hoje aqui, chove… uma chuva fina, chuva de molhar pasto, que as plantas agradecem…
    E meu coração também chove…
    Porque esta situação que passamos sempre, praticamente todos os dias, em ter que tomar decisões difíceis em nossa vida, nos arrebenta.
    Estou, desde ontem, tentando sobreviver à decisão de abrir mão de um sonho que tive, de uma vivência rápida, mas longa, duradoura em meu peito, em meu sentimento.
    Nem mesmo minha famosa articulação de fingir que aquilo não estava acontecendo comigo, para dar tempo ao tempo em sarar meu machucado está funcionando.
    Estou sangrando feio… eu me recuso a acreditar que estou vivendo aqui e agora este dia de hoje… Como você mesma disse aí em disse, tem uma parte de mim que foi amputada.
    Eu não brinco com sentimentos. Eu sou muito sincera, aberta, honesta. Eu não entendo como entramos num relacionamento meio que com o pé atrás, segurando as emoções e as sensações, os sentimentos, o que eu penso, o que eu desejo.
    E é isso, estou num mar de insegurança aqui agora.
    A chuva que cai aqui agora me deixa insegura, navegando numa canoa que não conheço sequer por onde ela vai levar, ou os recursos que ela me oferece.
    Eu morri agora.

  5. Você fala aí em cima em gatilhos….
    Ontem eu tinha viagem marcada para 23:15. Minha filha comprara minha passagem online como vem fazendo há três anos. E vem dado certo. Pelo menos, na doideira que eu vivo na roleta financeira, pelo menos isso. Alguém controla minhas passagens, porque viajo demais em função de fazer um doutorado fora.

    Tudo arrumado, correndo no tempo certo, coisa difícil para uma bipolar premiada com deficit de atenção com hiperatividade. Mas havia tomado minha anfetamina, receitada pelo médico e que me deixa pilhada.

    Pois bem…. daí começaram os gatilhos…

    Às 21 horas atendo uma ligação via telefone, rápida do Canadá. O namorado, que estou tentando esquecer. …

    E entre lágrimas, lágrimas não, entre enxurradas, para distrair a cabeça entro na página no face de um grupo de suporte para bipolares. De cara, uma garota pede ajuda porque namora um bipolar e está difícil de levar. E eu, tentando ali ajudar a garota. … e uma outra garota posta lá que para ficar com um bipolar, a auto-estima tem que estar baixa, que bipolar não tem cura…. Eu fiquei tão agredida com o post que respondi assim: oh fulana, putz! E continuei a falar com a tal moça do doutorado. A garota respondeu: por que o espanto? 1o. Gatilho. Eu queria comprar a briga. O táxi businou. Dentro do carro, escrevi para a administradora que logo em seguida me retornou, havia excluído a tal garota. ..
    Bom, gatilhada, cheguei na rodoviária para retirar o bilhete. 2o. Gatilho. O carinha disse que só podia liberar o bilhete mediante a apresentação do cartão de crédito. Poxa, minha filha mora em Curitiba e eu pego ônibus daquela linha desde 2001. Resumindo, com a ameaça de chamar a polícia prá ele, o coisa me vendeu outra passagem com cartão de débito. Agora, corro atrás do prejuízo.

    Cheguei em Belo Horizonte para uma avaliação. E necessitava portar alguns documentos que estavam na casa de minha mãe. Mamis, onde estão meus documentos? Gato comeu… botei a casa de pernas para o ar. Liguei para o consultório: olha, sem o pedido e a guia para cirurgia a senhora não será atendida. Vou te voltar prá fila. E procure seus documentos.

    Detalhe, estou esperando esta avaliação desde maio/2015.
    3o. Gatilho.

    Não é apenas um dia ruim. É uma sequência de gatilhos, que sem um controle maior, uma percepção mais apurada, teriam sido bem gerenciados.

    Mas na verdade, o primeiro gatilho veio antes. Foi quando eu percebi que precisava desistir de algo essencial em minha vida. Foi quando eu entendi que às vezes tem uma hora em que a gente precisa desistir.

    Daí resolvi encher a cara.
    Passei no supermercado perto de minha mãe e comprei um tanto de cerveja.

    Sem álcool.
    Ponto.

  6. Obrigada minha querida. Eu não diria que estou mais perto de uma decisão final. Estou é ao lado de passos importantes, como conseguir manter a calma e a consciência de meus atos. Vou seguindo. Não consigo resolver tudo ao mesmo tempo. Ontem eu desenhei, literalmente, numa folha de papel. E traçar estratégias.

    Eu vou ..

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