“E morreu, no caso, Eu.”

Vou dar um presente a vocês, queridos leitores: um texto do meu amigo DaVinci,  um portador de depressão que se expressa muito bem. O site do DaVinci é o https://sobredepressao.wordpress.com/

Primeiro vamos deixar que ele mesmo se apresente, e a seu site:

“Após ser diagnosticado com depressão maior aos 21 anos, iniciei uma busca incessante por obter mais dados sobre como viver melhor com essa doença, que muitas vezes é incapacitante. Agora com 27 anos, após ter passado por diversos tratamentos, crises profundas e experiências em busca de um maior entendimento da depressão, me sinto livre pra falar com credibilidade sobre esta doença. Espero que meu site seja um espaço onde as pessoas com depressão possam se identificar com minha história e entenderem que não temos nem culpa e não deveríamos ter vergonha de ter essa complexa doença. Para as pessoas que não têm depressão, mas buscam um melhor entendimento sobre a doença, espero que os textos sirvam como ferramentas para aproximar o leitor da realidade que é viver dia após dia com essa condição. E para todas as pessoas, desejo que um dia entendam que o maior exercício de solidariedade frente às doenças mentais passa necessariamente pelo aumento da tão perdida empatia na nossa sociedade. Um abraço sincero, DaVinci.”

E AGORA VAMOS AO POST

“E MORREU, NO CASO, EU.”

“Uma das sacadas de Freud em seu livro ‘Melancolia e Luto’ era de que os pacientes com depressão viviam uma espécia de luto. O luto era relacionado a ter perdido parte da sua identidade rotineira e um novo Eu, mais deprimido, cabisbaixo e triste ter assumido o ‘controle’ das suas emoções.

Essa me parece ser uma teoria bastante interessante, porque de fato, sinto-me frequentemente vivendo um luto pelo Eu que perdi depois que a doença começou. Sinto falta da minha libido antiga, da minha maior vitalidade frente a vida e do meu antigo Eu que parecia viver com uma tranquilidade quase budista se comparada com o Eu que agora convivo diariamente. Embora, em raras ocasiões esse Eu volte e eu me sinta melhor, na maior parte do tempo sinto como se ele tivesse morrido e eu de fato estivesse vivendo em luto por sua morte. Sinto falta dele.

Não é raro ver pessoas que sofrem de depressão afirmando que ‘eu só queria voltar a ser quem eu era antes’. Isso quer dizer que a pessoa não gosta de quem ela se ‘tornou’, mas também aponta para o fato de que ela sente saudades e uma certa nostalgia do tempo em que o Eu mais saudável mentalmente habitava sua psique.

Na minha experiência com a depressão, a parte mais difícil é de fato aceitar esse luto e seguir adiante, entender que aquela parte de nossa identidade morreu e que agora temos uma nova constituição de emoções e sentimentos com a qual precisamos aprender a lidar, e isso é marcantemente difícil, porque aponta para a necessidade de aceitarmos que um Eu conhecido desde nossa infância e que nos trazia maior senso de vitalidade simplesmente não vai mais voltar. Isso quer dizer que todos os deprimidos devem aceitar que sua nova identidade baseia-se agora em uma personalidade triste, fraca e sem condições de experimentar emoções satisfatórias? Claro que não, e isso deve ser extensivamente trabalhado na terapia, a aceitação e acolhimento dessas novas emoções que surgiram com a morte do Eu antigo, por mais difícil que isso pareça ser, é um trabalho árduo que necessita ser feito para vermos alguma melhora nos nossos sintomas.

Enquanto não aceitamos o nosso próprio luto, a nossa própria parcela de morte do Eu conhecido, sofremos por não aceitar que ele se foi e que talvez não voltará mais. O trabalho terapêutico consiste em aprender a lidar com o novo Eu, e com seus sintomas que parecem tornar tudo imensamente mais difícil. Afinal, a depressão é uma doença que se apoia de forma esmagadora na personalidade.

Diferente de pessoas que não tem problemas de saúde mental, o deprimido não pode se dar ao luxo de ter uma vida não examinada.”

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1 thought on ““E morreu, no caso, Eu.””

  1. Que texto bom… que requer uma continuidade… e sei que vou mergulhar fundo nos textos deste simpático jovem com nome tão significativo. Assim como mergulho nos contos maravilhosos de nossa Amanda!

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