Transtorno bipolar – amor ou ódio?

No prefácio do livro “Transtorno bipolar – o que é preciso saber”, de David J. Miklowitz (bibliografia citada na área Para saber mais aqui no site), chamou a minha atenção o seguinte trecho: “As pessoas têm vindo ao meu consultório em vários estados clínicos (…). Muitas tiveram uma relação de amor e ódio com a doença – elas gostavam da intensidade das experiências emocionais que a mania oferece, mas detestavam os períodos de depressão, a imprevisibilidade do transtorno e os danos emocionais, práticos e financeiros causados em suas vidas.”

Sou bipolar tipo II, e, no meu caso, nunca senti prazer na fase maníaca. A mania se apresenta para mim como uma ansiedade sem controle, foco excessivo em algo (seja um projeto, seja um trabalho), pensamentos acelerados, insônia, agitação íntima. Em resumo, uma sensação muito desagradável. Já a depressão é mais minha amiga, ela me acolhe, ela faz para mim uma “caminha” confortável para eu sentir autocomiseração. Claro, sofro muito, mas existe uma certa familiaridade e um certo prazer em deitar na caminha e colocar na porta a placa “estou muito doente”.

Pensando na bipolaridade como um todo, não posso negar que me sinto muito mais realizada, vivida, escolada, do que muitas das pessoas normais.

Vamos aos números: seis maridos, 20 homens com quem transei, 12 empregos em 21 anos, dez cidades e 29 casas em 47 anos. No meu último emprego, a maioria das pessoas da minha área só tinha trabalhado naquela mesma empresa, um só registro na carteira profissional. Um só emprego, minha gente, como assim?

Minha irmã só beijou e só transou com o marido dela. Um só homem, minha gente, como assim?

Tenho uma amiga que mora na mesma casa desde que nasceu, dorme na mesma cama. Uma só casa, uma só cidade, minha gente, como assim?

Por certo eu não suportaria, seja pelo meu temperamento, seja pela minha doença, trabalhar em um só local, ter um só homem e morar em uma só casa. E eu digo isso com uma certa satisfaçãozinha: uma vida nada monótona, concordam? Mas não posso incorrer no erro de igualar a vida de uma pessoa normal à monotonia. Claro que nem todas as pessoas normais têm existências monótonas. Eu, por exemplo, com o meu temperamento e sem o transtorno bipolar, seria “cheia de vida”.

Este post vem de encontro ao post Amanda e sua cobiça. Parece paradoxal, e é. Ao mesmo tempo em que cobiço a vida das pessoas normais, tenho um certo orgulho da minha nada mole vida.

Mas só sinto isso agora, no período da estabilidade. Nas crises, tudo o que queria é ter uma vida bem… ortodoxa.

E termino com a máxima: sempre há algo bom naquilo que, à primeira vista, parece ser só ruim.

7 thoughts on “Transtorno bipolar – amor ou ódio?”

  1. Nossas identidades boders são tão próximas que me impressionam. Me identifico muito quando trata da “mesmice” dos normóticos. Minha vida foi tão intensa, vivi tanta coisa e tantas ao mesmo tempo que sempre me convenci que a minha partida desta viagem seria breve… e hoje já acho que já está longa de mais.

  2. Estatísticas… gosto disso. Tal qual nossa anfitriã, em números menores, tive 1 marido, transei com 14 homens, tive 8 empregos, morei em 6 cidades e em 34 casas. As pessoas dizem que sou muito intensa em tudo, e eu, somente eu, sei o que é intenso em mim… o desejo.

    Minha vida é tão intensa e realmente não consigo entender como as pessoas ficam anos morando na mesma casa, na mesma cidade, o mesmo trajeto, o mesmo modo de polvilhar o açúcar ou o sal na comida, de arrumá-la no prato, o feijão primeiro, o arroz na ponta, a carne de um lado e os legumes de outro… as horas… o banho… a mesma posição para um sexo do mesmo jeito, o mesmo lado da cama para dormir, não sei é tudo tão igual, sem intensidade…

    Eu gosto da urgência, eu gosto da intensidade, não tanto, poderia ser menos… Eu pensava que iria morrer aos 40 anos, e como Wendel, e agora vejo que está demorando demais… Hoje por exemplo, não estou dando conta de passar o dia, está foda…

    Minha vida é difícil, minha vida é foda, minha vida às vezes é monástica, às vezes é fantástica… chega a ser fodástica…

    1. Dory, somos parecidas mesmo. Entre a monotonia e a intensidade, é tão certo que eu escolho a intensidade… Mas agora finalmente, depois de tantos arranhões na minha lataria, não ando mais por aí feito um carro desgovernado. Tomei pé da situação. Mas sempre serei (seremos) um tanto excêntricos, singulares, extravagantes, não é mesmo? Bjs, Amanda Montenegro – Codinome: Vagalume.

  3. necessitou terapeutica halopatica? autocontrole,
    A depressão me é mais tolerada por ser mais aceita e no meu caso menos prejudicial
    Parabens pelo seu trajeto!!!!!!!

    1. Oi, Roberto Gabriel! Sim, tomo cinco medicamentos todos os dias e faço psicoterapia semanalmente. Não conheço nenhum paciente com transtorno bipolar que consiga ficar equilibrado sem lançar mão destes elementos. E mais: “segurar o touro pelo chifre”, que nada mais é do que o autocontrole. Acho que a depressão é menos estigmatizada que o transtorno bipolar. Você pode dizer: “tive uma depressão”, mas não pode dizer “tive um transtorno bipolar”. Obrigada pela visita e pelas palavras! Abs, Amanda Montenegro – Codinome: Vagalume.

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