Dra. Doris Moreno de frente com Gabi

Esta é a transcrição de alguns trechos da entrevista que a Dra. Doris Moreno, especialista em transtorno bipolar, concedeu à Marília Gabriela em seu programa “De frente com Gabi”, no dia 31/08/14.

Na transcrição, eu foquei nos pontos mais importantes para o meu caso. Por isso, sugiro assistirem a entrevista inteira, bem mais abrangente que a minha transcrição. Chamo a atenção também para valorizarem mais o conteúdo que a forma, pois trata-se de uma conversa que foi transcrita. Vamos a ela:

 

“Transtorno bipolar está sempre por trás de depressões mais graves e potencialmente mais letais.

A depressão misturada com a euforia é mais venenosa. Períodos de raciocínio mais acelerado , quadros mais expansivos, nitidamente eufóricos (a pessoa fica mais falante, mais solta, mais desinibida), isso normalmente vêm acompanhados de depressão.

O que a gente imagina que transtorno bipolar é que tem um episódio de euforia, (que pode ser leve, moderada ou grave), aí vem a depressão, aí fica bem; aí vem de novo uma euforia e vem de novo a depressão. Isso praticamente deixou de existir no mundo de hoje, a gente não vê mais esses bipolares típicos.

Muitas vezes a depressão se mistura com a aceleração, com a agitação, com o aumento de energia. Então é aquele deprimido workaholic, é aquele deprimido que tem aumento de energia, ou que fica expansivo, por exemplo, na frente de uma plateia. Fica acelerado, se mostra expansivo. Saindo dali ele entra em angústia. Ele começa a ruminar. Aquela aceleração toda entra num humor depressivo: “eu não vou mais sair disso, eu não aguento mais”, fica angustiado, fica ansioso, começa a encher a cara para aliviar aquela sensação, porque é terrível, porque é muito sofrimento. Então muitos pacientes com depressão se medicam com álcool, e aí só piora. Na hora pode até melhorar, mas depois piora. Eles se jogam como uma pedra num estilingue para cima e daí tombam de novo. E isso vai ficando cada vez pior até o suicídio. Principalmente porque a depressão altera o senso de realidade para o negativo. A depressão faz com que você encare tudo de uma maneira pessimista. Aquilo que tiver de problema aumenta, e, se não tiver problema, cria.

Transtorno bipolar não é algo que todo mundo tem. Os sintomas são monotonicamente os mesmos, mas a personalidade é única. Cada ser humano é único. A reação a um sofrimento, a reação àqueles sintomas varia de uma pessoa para outra.

O médico precisa ver: você está com o pensamento acelerado, está com o pavio curto, mais irritado, há quanto tempo, com que idade isso começou, porque isso começa na adolescência, idade de adulto jovem. Um jovem com transtorno bipolar desenvolve o problema até os 20 anos de idade.

Quando uma pessoa que tem uma depressão e se trata com um antidepressivo, se ela tiver transtorno bipolar, que começou lá na adolescência, ela teve vários períodos que ninguém achou que era nada, porque ela se sentia bem, ela ficava bem, a sociedade acha maravilhoso, ela só teve euforias leves (que a gente chama de hipomania), essa pessoa, se tomar antidepressivos, pode ficar mais mista. Isto significa que ela começa a acelerar, ela começa a agitar, ela começa a ficar irritada, ela começa a ficar insone, à noite não conseguir desligar dos pensamentos e aquilo vir atormentando a noite inteira, e os pensamentos negativos crescem, eles aumentam de intensidade, de frequência e ficam retumbantes, como ruminações incessantes (e isso é torturante), então nesse caso o remédio pode agravar e desencadear tanto euforias puras quanto esses quadros mais mistos. O antidepressivo pode causar agitação, irritabilidade, em pessoas que na verdade são bipolares. Esse é o ponto. Por isso é importante fazer o diagnóstico diferencial. Se a pessoa ao longo da vida só teve depressão e se ela não tem parente bipolar de primeiro grau, então ela pode ser depressiva.

Não existem exames preventivos, o que se tem que fazer é alertar para a identificação, porque exames preventivos implicariam e exames genéticos. Nós estamos engatinhando nisso. Quem sabe daqui a cinco ou dez anos a gente tenha.

Transtorno bipolar e depressão acontecem na família.

No transtorno bipolar, mesmo pessoas medicadas podem ter recaídas, a doença é crônica. A maioria fica bem, mas muitos, apesar do tratamento, têm recaídas. E muitas vezes as pessoas param o tratamento.

Hoje a depressão é uma questão grave de saúde pública no Brasil e no mundo. Ela é a segunda maior causa de incapacitação no mundo. Vem depois da dor lombar.

Hipomania é a euforia leve. Mas, mesmo leve, são aquelas pessoas que, por exemplo, se apaixonam e desapaixonam, entram em empreendimentos e não tocam para a frente. Têm múltiplas ideias, muitos planos, e morrem na praia. É essa gangorra sempre. E isso é visto como o jeito dela, ou vicissitudes da vida. No jovem, estas alterações de humor podem acontecer no mesmo dia com mais frequência.

As redes sociais ajudam as pessoas de um lado, mas de outro lado a gente precisa sempre checar se não é sintoma, se não faz parte da ansiedade aumentada. É a chamada obstinação, que pode ser por celular, que pode ser por alguém que se idealiza e está apaixonado e aquilo não sai da cabeça, por algum negócio que não sai da cabeça ou por algum programa que eu tenho que fazer, alguma coisa que eu tenho que ir, ou por ginástica, atividade física mais horas por dia porque eu preciso aliviar, eu preciso canalizar toda essa aceleração, essa agitação, essa pressa, essa energia aumentada. E o que a pessoa fala e identifica é: eu sou ansiosa. Não é ansiedade, é diferente, isso é característica de bipolaridade e precisa ser investigada. Essa necessidade de ficar o tempo todo conectado, de não conseguir prestar atenção no outro, então temos que avaliar o conjunto de sintomas, não é o fato de ficar no celular que caracteriza a bipolaridade. Ficar no celular, junto com irritabilidade, com dificuldade de concentração, dificuldade de fazer o que deveria estar fazendo, e alterações no sono, por exemplo, no nível de energia e no ânimo, isso sim podem fazer parte da bipolaridade.”

2 thoughts on “Dra. Doris Moreno de frente com Gabi”

  1. Quando eu vi esta entrevista, quase caí da cadeira. Queria mostrar para toda a minha família, para ver se eles entendiam… depois vi que não valia a pena… eles são loucos mesmo… talvez eu seja a mais sensata…
    E tudo em mim foi se confirmando, porque até então, os médicos falavam aqui e dali algo que entrava por aqui e por ali… a coisa do medicamento que acelera ou aumenta… eu sei, é tudo isto mesmo…
    Me sinto sozinha… Ainda continuo sem falar para ninguém que sou bipolar… Tento ser o mais normal possível, porque tentar explicar, no meu caso, será mais prejudicial do que da maneira que eu vivo.
    Daí, fico assim, codinomes, oculta, conversando com o outro da telinha, nesse amizade líquida, por assim estou me preservando…
    Sei dos amores que sinto, que tenho, das relações conturbadas ou não, das monoideias… sei de tudo…
    No momento, procuro encontrar um romantismo em tudo, para que as coisas não fiquem pesadas demais…
    Parando por aqui… senão o dia vai ser aquela merda…
    metapensamentos…

    1. Minha querida, acho que às vezes vale a pena tentar informar nossos familiares ou as pessoas que nos são mais próximas sobre a nossa doença. Eu fui cautelosa, mas agora todo mundo que convive comigo já sabe. Uso um codinome para preservar as pessoas que cito no site, que não me autorizaram a divulgar certas passagens. Informação sempre vale a pena, eu acho isso. Bjs, Amanda Montenegro – Codinome Vagalume.

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