“Quase” normal

Na entrevista da Dra. Doris Moreno, ela diz que o bipolar, com tratamento, pode levar uma vida “normal”.

Sempre achei que o bipolar, com tratamento adequado, pode trabalhar, casar, ter filhos, cuidar de suas finanças, tudo isso.

Mas… será que o bipolar age igual a uma pessoa “normal” mesmo?

Pela minha experiência, eu diria que não. Vou falar por mim. Sou extravagante, exótica, autêntica, singular. Muitas vezes me sinto seguindo no contrafluxo da sociedade. Não sou de chamar a atenção, não. Sou discreta. Mas sou invulgar dentro da minha discrição.

Não ligo muito para o que as pessoas pensam de mim. Danço na chuva, com música alta. Acordo às três da manhã para assistir seriados. Coleciono dezenas de coisas: livros de culinária (eu não cozinho), livros de astrofísica, toy art, porcelanas. Tudo o que brilha chama a minha atenção.

Sou franca e direta. Sou objetiva e assertiva. Ao longo do tempo, aprendi que a forma é muito importante, não só o conteúdo, então procuro modelar as minhas palavras para não ofender o interlocutor. Não deixo de dizer o que penso, mas coloco candura na minha fala.

As pessoas me consideram “meio maluquinha”. Sou cheia de ideias, tenho muita criatividade e sou perfeccionista. Ou faço bem feito, ou não faço. Quando coloco uma coisa na cabeça, pode ter certeza de que vou conseguir. Super obstinada. E muito inteligente.

Não tenho receio de expor minhas ideias em público e nenhum pejo de me apresentar a uma plateia, não importa o tamanho dela.

Não tenho medo de muita coisa, não. Recomeços são o meu forte.

Não gosto de arroz, feijão, bife e salada. Minha alimentação é super diferente – e errada, pois meu colesterol e triglicérides estão altos. Eu me alimento como uma criança: chocolate, sorvete, paçoca…

Não tenho vergonha mais de dizer a todos que sou bipolar. Já superei essa fase.

Também falo com naturalidade sobre as minhas experiências com retrocognições (memórias de vidas passadas) e sobre as minhas viagens astrais, que, aliás, serão mote de um post em breve.

Também não me intimida dizer que não sou religiosa, não sou cristã.

Sou ousada. Não sou nada tímida. Não tenho medo de me aventurar. Quase nada me atemoriza.

Sou casadoira. No interlúdio entre um casamento e outro, fico muito carente, mas não deixo de fazer as coisas que gosto. Vou ao cinema sozinha, restaurantes, shows… Faço tudo sozinha.

Penso que nunca vou me adequar aos “padrões”. Já tenho 47 anos, estou velha para isso.

Então, tomando-me por base, acho que os bipolares sempre serão um pouco “diferentes”. Muitos gênios criativos são considerados bipolares

(Vou falar dos meus defeitos para este texto não ficar muito cabotino: indecisa, imprudente, preguiçosa, voluntariosa, desorganizada, perdulária, egoísta).

Fui uma menina quieta. Na infância, durante um certo tempo eu quis descobrir “onde” os pensamentos se localizam. Pensava bastante sobre isso. Minha mãe, quando soube, me levou a um neurologista e eu fiz um eletrocardiograma. Ela temia que houvesse algo errado com o meu cérebro. Mas o exame não apontou nenhuma anomalia. Era apenas o meu jeito de ser.

Uma das minhas melhores amigas também é bipolar, está estabilizada, e é “diferente”, assim como eu.

Conclusão: eu, mesmo estabilizada, sou “quase” normal. Penso que o bipolar sempre será um pouco “diferente”. Temos intensidade, vigor, vontade forte, força de superação. O que vocês acham?

12 thoughts on ““Quase” normal”

    1. muita sinceridade, heterodoxia, singularidade, não conheço ninguém igual, fluência verbal dos grandes escritores Soviéticos-URSS (antiga), ideal para ser uma boa amiga. Só gostaria, gostaria, eu, que quero te ver mais tempo e com mais qualidade, incluir talvez, frutas, vegetais, nozes, (castanhas voce já inclui), mais “consumo de integrais, sementes de linhaça, etc.!” Desculpe a sugestão ortodoxa, de minha ideologia-dieta ortomolecular que tem me dado mais saúde! Tou esperando a “réplica” , pode vir , vou me preparar pra assimilar!

      1. Giovani, você tem toda a razão. Minha alimentação é indefensável. “Mas se você acha que eu estou derrotada, saiba que ainda estão rolando os dados” (Cazuza). Quis dizer que tenho planos de melhorá-la. Obrigada pelas palavras! Abs, Amanda.

  1. sinceridade?
    hoje eu vejo que nós, bipolares, somos os “normais”.
    O mundo está cheio de pessoas que detonam, têm todos os surtos do mundo, estraçalham, maltratam, têm pânico, depressão, e a sociedade os trata como que sofrendo de uma consequência dos tempos modernos. E nós, somos o que? consequência dos atos daqueles dos tempos modernos.

    Minha querida, somos mesmo, muito, muito parecidas.
    Algumas diferenças aqui e ali (ainda estou apenas no início da fase de esconder minha condição), sou cristã, espírita, não sou preguiçosa e longe de ser egoísta.
    Também fui uma garota quieta até por demais.

    Mas hoje sou intensa, e ainda continuo achando que nós é que somos os normais. Como disse outro dia num comentário em seu artigo (esqueci a tag), não acho normal uma pessoa que mora no mesmo lugar desde que nasceu, o mesmo caminho, o mesmo tudo durante anos. Essa pessoa não vive. E quem não vive para mim não é normal.

    E nós bipolares, vivemos muuuuuuito. De todas as formas, de todas as maneiras, de um jeito ou de outro.
    Beijos
    Dory

    1. Oi, Querida Dory. Sim, somos intensas, não é mesmo? Vivemos em um degrau acima das outras pessoas. Feliz ou infelizmente, essa é a nossa condição. Meu desafio pessoal é canalizar essa intensidade (a luz do vagalume) para ajudar as pessoas. Beijos, Amanda.

  2. Oi Amanda, abri um novo blog onde vou abordar a minha bipolaridade entre outras coisas, espero tua visita 🙂
    quanto ao tema do post, concordo que somos “quase” normais, sou uma pessoa bastante excêntrica, realmente não me preocupo em ser e fazer tudo como os outros, bjs querida

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