“Breve biografia de uma bipolar”

Estes textos são um presente para nós da Mariana Tibo. São trechos preliminares do livro que ela está escrevendo, CuRtOsEsUrToS. Obrigada, Mari.

 

“Sempre soube que havia algo diferente em mim, um misto de sentimentos, mas isso só foi entendido quando eu tinha 30 anos e fui diagnosticada com o transtorno bipolar.

Hoje meus pais contam que os sintomas eram bem claros, mas que não havia informações a respeito da doença . Quando pequena chorava muito, sem motivo, e de repente parava de chorar e ia brincar normalmente. Na adolescência tive algumas crises, mas, segundo olhos leigos, eram apenas crises existenciais, normais da idade. Na fase adulta as crises ficaram mais visíveis, tanto de depressão, quanto de hipomania.

Entrei pra faculdade de Psicologia e no meio do curso estava completamente deprimida. Queimava meu próprio corpo com chave quente para aliviar a dor que sentia. Mas a bipolaridade pode ser perigosa: ao mesmo tempo em que eu suportava tudo, também estava bem e ainda conseguia terminar meus afazeres. Lembro que, no auge de desespero, procurei ajuda num posto de saúde e infelizmente fui muito mal recebida. Depois, na própria faculdade, estudamos um teste chamado Rorschach, a professora percebeu meu estado após a leitura do mesmo. Comecei a frequentar o consultório dela e melhorei muito rapidamente, caindo na hipomania. Então comprei uma bicicleta e só andava de bicicleta pela cidade. À noite, de tarde, de dia… eu tinha a roupagem completa, os acessórios completos e só falava nisso. Depois descobri o boxe… eu tinha a roupagem completa, os acessórios completos e só falava nisso. A hipomania é realmente uma delícia! Mas é uma doença e o pacote vem completo.

Eu me formei em Psicologia, fazia pós-graduação e estava com uma nova terapeuta. A depressão voltou com tudo. Foi a minha primeira vez com uma psiquiatra. Comecei a tomar remédios leves, mas nada fazia efeito. A ideação de suicídio aumentou muito e eu já não conseguia estudar nem trabalhar. O choro saía sem eu perceber. Chorava escondida em qualquer lugar.

Mudei de terapeuta mais uma vez e ela, junto à psiquiatra, me falaram sobre a eletroconvulsoterapia. De início fiz seis sessões que se tornaram quase mil. Fui internada em hospital psiquiátrico tomando ECT (eletroconvulsoterapia) em dias alternados. Não me lembro de muita coisa dessa época, o ECT afeta muito a memória. Passar pelo ECT foi marcante e muito difícil, mas não tenho dúvidas, de que, no meu caso, o tratamento foi benéfico.

Tive alta do hospital e voltei a morar com meus pais, eu dormia vinte horas por dia. Meus pais entravam no quarto para checar se eu ainda estava respirando.

O tempo foi passando e os remédios me deixando menos dopada, comecei a reagir, com muita terapia e ECT. Três anos após consegui um emprego e, um tempo depois, consegui outro. Voltar à vida, com suas escolhas e responsabilidades, ciente de um diagnóstico não é nada fácil. Mas me mantenho em pé.

Hoje tenho dois empregos, me formo em Pedagogia no mês que vem e saio (pouco) com os amigos. Ah! Os amigos! Os reais amigos! Eles aparecem nestas horas!

Sinto que o que me tirou mesmo dos ciclos do humor foi o amor e a conscientização do diagnóstico. Vou terminar esse depoimento com um pequeno conto que escrevi resumindo o tumulto. E logo após, descrevo as primeiras sessões de ECT. Boa leitura! Espero ajudar!”

 

A Menina e a Lua

Ela olhou pra cima e viu a lua. Tão linda. Tão distante da sua realidade insana. Quis morar lá. Numa noite com poucas estrelas, ficou olhando tão fixamente que foi levada a pensar em sua materialização pós Terra. Sentiu um ar de superioridade em si mesma. Respirou fundo por várias vezes. Sorriu. A noite foi passando e a menina rica tão linda não queria se deparar com a sua outra face. No caminho, em cada estrela, teve suas experiências. Bem ou mal, eram suas. E a noite passando. Sentiu-se como nunca. Bem, muito bem. Decidiu ficar. Apostou em nova vida. Olhou pro lado, estava só, mas tão cheia de si! Perdeu-se. Logo ela, tão achada. Outras coisas se perderam também. Passou tanto tempo que chegou ao ponto de se esquecer da luz. Era ela e o escuro, apenas com algumas estrelas. Andava entre elas em um pé só. Esqueceu-se ter dois. Acenava apenas com uma mão. Enxergava com um olho. Deixou de sentir seu coração. Só vazio. E o tempo a passar. Aos poucos o ar ia acabando. Estava num satélite. Deitou-se e dormiu. Tão profundo. Não sabia acordar. Pedia desculpas sem saber o porquê. Não foi fada nem anjo, vozes ainda muito baixas chegavam até ela. Demorou, mas pôs-se a escutar. Vinha de um planeta, era como luz solar de manhãzinha. Abriu um olhar turvo. Ouviu um tum-tum-tum. De dentro pra fora, de fora pra dentro. Seu coração não batia só. Escutou sua mãe chamar. Outras vozes também. Acordou devagar.

 

AS PRIMEIRAS ECTs

18/09/2012

O Primeiro Choque

Há três anos me intoxico em busca de paz… Antes eu buscava a paz sem me intoxicar… A verdade é que eu desconheço a paz…

O limite veio se aproximando, a paciência se esgotando e a confusão mental aumentando. ECT era uma opção. Distante de uma realidade sã, mas a minha verdade é insana.

 

PRIMEIRA SESSÃO

06/09/12

Só vi a maca, a seringa, a picada, olhos fechados e depois de duas horas eu acordei, com diarreia e vômito. Desorientação. Falta a memória. Sem saber se ir era buscar o real, quanto mais longe, mais perto. A Consciência machuca. Como posso permitir tal brutalidade? Assumir a limitação? Um dia eu quis me matar. As minhas marcas vão além do corpo, me perturbam a alma.

Na mesma semana eu troquei o lixo do banheiro, eu fiquei acordada o dia inteiro, eu vi meu corpo se comunicar, eu morro de medo de ouvir minha alma chorar… e ela chora.

 

SEGUNDA SESSÃO

18/09/2012

Da outra vez eu não vi ninguém, dessa vez eu frequentei a fila. A fila é a placa do atestado. Somos todos iguais. Não somos. (?)

 

13/09/2012

Depois de depor, eu só, a rampa, as cadeiras em fila, a maca ocupada, o cheiro, a vez que chega, a maca sendo empurrada, o ar que faz dormir… por 20 min. E a completa confusão mental. Sabe o filme MIB? Eu fui apagada pela caneta. Eu chorei e pedi norte.

E me mantenho, ainda hoje, 4 dias após, com o maior medo, desespero e interrogação que já senti. Eu não sei. Nem pra frente, nem pra trás. Eu não sei.

Achei forte demais ver as pessoas passando por isso, ver a realidade estampada, escancarada. A minha e a deles.

Eu lavei louça e passeei com o Recruta Zero. Eu me conecto com o mundo e me desconecto de mim. O coração amassado, triturado, moído. O tempo inteiro me lembrando de que daqui há 3 dias tem mais. Entre o medo e o pânico. Os olhos cheios d’água.

Eu não sei se aguento. Eu quero força. E que tudo acabe logo.

 

20/09/2012

Jonas

É hora de mudar o discurso…

A terceira sessão está chegando e estou com muito medo de passar por tudo de novo. Mesmo não tendo dúvidas dos benefícios do tratamento. Um choque de consciência… Rápido demais, assustador demais.

Não sou muito religiosa, mas ando me aproximando de Deus. Desde que, há pouco, soube que Caim e Abel eram filhos de Adão e Eva, fiquei impressionada e comprei uma Bíblia. Hoje de manhã quando acordei recebi uma mensagem do além. Vem em mim, do nada, a frase: abra a Bíblia, mais pro fim e leia a parte direita. Era Jonas. Deus o procurou e pediu que ele levasse sua palavra. Jonas fugiu de Deus, pegou um navio e foi pra Espanha com marinheiros. No meio do caminho a tempestade, tão forte que os marinheiros, implorando socorro aos Deuses, tiraram os nomes na sorte pra saber quem era o culpado. O nome de Jonas foi o sorteado. Indagado pelos marinheiros, Jonas disse ser Hebreu e que estava fugindo de Deus. Depois de suplicar perdão, os marinheiros jogaram Jonas ao mar e em seguida, este se acalmou. Jonas foi engolido por um peixe, ficando dentro dele por três dias e três noites. Orou a Deus.

Jonas 2: 1,2 Então, Jonas, do ventre do grande peixe, orou ao SENHOR, seu Deus, E disse: Na minha angústia, clamei ao SENHOR, e ele me respondeu; do ventre do abismo, gritei, e tu me ouviste a voz.

Deus ordenou ao peixe que vomitasse Jonas…

Meu irmão me disse que o tempo de Jonas não é o mesmo que o meu. “A régua do homem não pode medir nem o tempo, nem o espaço de Deus. Tenha coragem, minha irmã e principalmente fé. Logo o sol brilhará e seus pés tocarão a areia mais pura da praia mais linda”.

 

TERCEIRA SESSÃO

22/09/2012

A saída foi mais consciente, ando mais calada. Pelo visto cada semana será de um jeito. Difícil pra mim, difícil pra quem vive comigo.

Não olhe para os lados, não ousa nada, pra não ficar marcado.

– Mariana, nós já vamos subir.

Entro eu e mais dois, três ou quatro. São três macas que se revezam fazendo rodízio de ambiente.

Salinha de espera, cadeiras enfileiradas. Pós – maca, posição um, deito e tiro os sapatos. Pós – posição dois, entre espera e choque. Pós – posição três, hummm, zzzzzzzzz. Pós – posição quatro, impossível se lembrar. Pós – posição cinco, cadeira de rodas, confusão mental. Pós – posição seis, descendo de volta a rampa.

Algumas cenas marcam, falas, rostos… Olhar no olho dói, é fundo, profundo, inteiro, verdadeiro demais. Não me lembro da primeira semana. Lembro-me da angustia da segunda. E agora, o vazio da terceira…

 

25/09/2012

No meio do caminho

E lá vem mais uma. A contagem regressiva me corróe, me destrói. Qualquer vento me balança. Não estou forte. Chego a pensar que é tudo uma mentira. Uma ilusão momentânea. Nada é para sempre, todo mundo sabe… Fica ainda mais confuso poder experimentar os dois lados e não conseguir se definir. Entre a lógica e a falta dela, entre razão e a emoção, entre mim e eu. Eu continuo trabalhando. É o que sei fazer. Ou eu trabalho ou me atrapalho. Eu sempre quis ter uma bússola, mas nunca soube usar.

 

QUARTA SESSÃO

29/09/2012

O choque das mulheres de meia idade. Os olhos cheios de nada além de dor.

Semana passada foi o vazio. Agora, nem isto.

Eu vi a moça de jaqueta verde e salto alto vermelho. Existe vaidade no hospício.

A anestesia começa a se despedir com mais facilidade. A saída dela é a entrada da realidade.

Desesperança se encontra com indiferença. A escolha se torna eminente e a espera consciente.

Entender que o caminho está feito, posto, convido-me a tentar, mas sem sorrir, por enquanto.

A neblina do suicídio. Vai pairando até o natural.

E quando corriqueira, o ato se une à ação.

A cortina se fecha.

E eu me despeço.

 

QUINTA SESSÃO

05/10/2012

Tiago e sua camisa xadrez

O seu olhar não é perdido, nem encontrado. Ele estava lá, em pé, com as mãos para trás, andando lentamente e ocupando um pequeno lugar da recepção. Assim que desci do carro, já recebi o convite. Ele também. Mas negou. Esperaria alguém. Lá em cima, após subir a rampa azul, me sentei à cadeira amarela e em seguida, o segundo convite. Eu me deitei, tirei minha camisa. Oximetro. Esfigmomanômetro. Cateter. Troquei meia dúzia de palavras com a enfermeira e me coloquei à espera. Este é um momento de tortura. Das cadeiras amarelas vinham risos misturados com choro e eu ainda não sabia de quantas pessoas. De dentro da sala, um pós choque roncava alto. Adesivos de monitoramento. Peito. Ombro. Pescoço. Testa. Ao meu lado passa Tiago, acompanhado por sua jovem mãe. A maca se desloca para o penúltimo lugar. A faixa com gel, para ser posta, pede que eu levante um pouco a cabeça. Tiago chora. Sua mãe, forte, o acalma, o conforta. Tiago ri. Tiago chora. Ele não quer. Mas tem que. Eu apago. Desta vez me lembro da maca em sua última posição. Com ajuda, caminho três passos até a cadeira de rodas. Ao meu lado um homem um pouco mais velho que eu. À minha frente, ao fim do biombo, os pés descalços e imóveis de Tiago. Ele já não se mexe mais. Sua mãe lhe calça as meias brancas. Eu, com voz lenta e certa dificuldade para sair, pergunto se está tudo bem. A enfermeira confirma. Eu espero recuperar um sentimento e raciocínio ao menos um pouco lógico. Os movimentos pela sala continuam. Todos se mexem. Menos Tiago. O último convite me é feito. Eu me levanto com dificuldade e desço de volta a rampa azul. Lá fora o dia claro, o sol quente. Lá dentro… Tiago deve estar acordando…

 

SEXTA SESSÃO

15/10/2012

A enfermeira disse que eu não estava com a carinha boa. Eu disse que estava resfriada, que tinha ido ao médico. Basculante escama de peixes. O médico perguntou se eu estava fazendo bom proveito. Eu disse que sim. Prontuário cinza com meu nome em fita crepe. “É Tibó?” – É Tibo. Respondi. Lá dentro uma Mariana queria ir embora. Estava muito ansiosa. Menstruada. Não queria virar moradora dalí. O doutor iria averiguar. Desligo como um antigo televisor. O convite me é feito. Da maca para a cadeira de rodas. Da cadeira de rodas para a rampa azul. “Cadê a moça de cabelo vermelho?” – Ela já foi. Respondi. – Vou embora com meu irmão. E assim fui.

 

13/11/2012

O Último de Agora

Foram seis sessões. E eu ainda cega. Indo.

Espera. Deita. Picadinha, Mariana.

Movimento sobre rodas.

Na sala central eu aprendi a me entregar.

Foi através do olhar do outro.

A Persistência.

O Amor.

Foi choque de vida.

E eu agradeço.

47 thoughts on ““Breve biografia de uma bipolar””

  1. Mari, você é muito corajosa! Obrigada por compartilhar sua experiência. Aprendo muito com você. Obrigada por existir! Não desista nunca. O mundo precisa de pessoas assim!

  2. Mari, que orgulho da sua luta!
    Seu texto é certamente um conforto pra muita gente que passa pelo mesmo.
    Sucesso no livro! Parabéns pela história.

    Abraços

  3. Diante de uma escritora completa, não posso deixar de parabeniza-la pela escolha em dividir conosco sua vida, seu aprendizado, fico na expectativa do livro. Um forte abraço de sua admiradora Rita Silva e Silva

  4. uma estudante de psicologia passar por tudo isso, me parece que ela foi escolhida para ter essa experiencia e poder ajudar a outras pessoas eu como muitos julgava muito esse tipo de doença depois que passei a ter a depressao procuro ajudar sempre a quem precisa espero que muitos encontrem a paz assim como eu encontrei a minha apesar de ter alguns dias ruins

  5. Seu relato me tocou. Já passei por muita coisa desde o diagnóstico mas nunca por eletrochoque. No momento estou muito perdida. Não é fácil encontrar tratamento adequado e terapia gratuita ou de baixo custo. Aguardo por seu livro. Já li muitos. Mas saber que não estou sozinha é reconfortante. Boa sorte!

    1. Tatiana, que bom que minha experiência te tocou! Realmente é muito bom saber que não estamos sós. Precisamos nos unir para nos ajudar. Em breve lanço o livro! Abraços!

  6. Quando eu tive o diagnóstico senti perder o meu eu, não foi fácil passei por hospitais psiquiátricos e com muito esforço estou conseguindo viver um dia de cada vez, não consigo viver sozinha mais tbm não tenho medo de ser uma suicida pois estou aprendendo com o espiritismo as causas e efeitos de nossas escolhas. Obrigada por partilhar lembanças suas comigo. Bjs.

  7. A conscientização da doença é o primeiro passo é foi dado. Agora é seguir a vida sem parar a medicaçao.Parábias! Bela atitude!Com certeza vai ajudar outras pessoas a viver com suas limitações. Abs

  8. Lilian! Isso mesmo, a conscientização do diagnóstico! Espero realmente ajudar a quem precisa! Obrigada por ler! Bjo

  9. Mari, a sua persistência serve de exemplo p mtas pessoas q sofrem da Bipolaridade. Em minha família há um caso deste, mas ela não aceita nenhum tratamento mais agressivo. Parabéns, mulher guerreira! Deus há de abençoá-la mto. beijos, Maria Yedda.

  10. Maria Yedda, muito obrigada! Força pra sua família, um diagnóstico desse afeta todos os membros. Que Deus abençoe vcs!

  11. Ei Mari,
    Admirei cada palavra, suas emoções nelas expressa é quase palpável ; e a sua coragem em compartilha-lhas é tocante.Sua vida não é obra do acaso, sua vida tem um propósito! Assim como a de Jonas.
    Não cesse a busca pela paz. Qual foi mesmo a estratégia que Jonas usou até alcançar a tão sonhada praia?

    Um beijão.

  12. Sula, que bom que meus textos te tocaram! Muito obrigada pela força! Não vou esquecer suas palavras!

    Grande beijo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.