“Um psicopata na minha vida”

Este texto quem nos enviou foi a Dory, a assassina do post anterior. Vale a pena entender melhor essa relação mulheres bipolares – psicopatas da internet.

 

Trabalho numa universidade em uma cidade qualquer. Porque ali eu tive uma vida muito infeliz, e porque precisava muito viver longe de toda a minha família, eu resolvi que teria que sair de lá. Por estas voltas que a vida dá, moro noutra cidade distante a 800 km daquela, noutro estado, mais perto do local onde faço doutorado.

E fico alternando as viagens, semanais, quinzenais, mensais que variam de acordo com minhas demandas do doutorado, de dinheiro para as viagens ou das minhas dores nas costas pelas viagens longas. E a cada temporada, que é como eu digo, em minha linda, confortável e aconchegante casinha, eu vivia uma história. Coloco aqui na forma de ficção, porque eu realmente espero que elas continuem nesta nuvem e nunca mais voltem a me incomodar.

Numa fase de extrema carência, diga-se de passagem, não sexual, estava eu a navegar na internet pela madrugada. Piorou a condição, porque no fim de noite, só dá coisa que não presta. Eu participava de vários sites de relacionamento. E me deparei com um cara bacana, bonitão, olhos verdes, professor… Sempre assim a sedução, vai pelo estético, intelectual. Era uma sexta-feira. Na manhã seguinte eu dava aula às 7h30. Quando cheguei na escola, de cara já tinha um pedido de amizade dele no facebook. Puxa, eu nem tinha conversado com ele, apenas visto o perfil, mas isto já deixa rastros.

E a “amizade” começou assim. Eu professora, ele também, ele, imediatamente, foi publicando fatos assim, “éticos”, e eu não fui percebendo a sedução. Uma passada rápida pelo perfil mostrou muitos amigos, muitas fotos… família. Não os pesquisei… foi meu erro.

E a coisa foi rápida demais. Embrenhou pelo sábado, no domingo já estávamos no WhatsApp e conversando direto. Um apaixonado pela voz do outro. Ele entrou no meu perfil e curtiu todas as minhas fotos. E em seu perfil ele me marcava em tudo. Me apresentou alguns poucos amigos, homens, jornalistas.

E no domingo à noite começou a fantasia sexual. Ele me falava coisas que eu não conseguia mais deixar de pensar. Eu já estava em minha casa, noutra cidade, daí teria mais liberdade para ficar com ele. Aproximava-se o feriado de Corpus Christi e combinamos de nos encontrar. Aquele tesão intenso foi na segunda, na terça… na quarta…

Na segunda-feira, eu recebi um pedido de amizade de uma amiga dele. Bem mais nova, uma loura bonita. Eu mandei mensagem para ele, que me respondera não ter problemas. Ele já havia ficado com ela, e ficava à minha escolha, aceitar ou não. Quando eu aceitei, ela disse que minha amizade seria muito boa para eles e fiquei me perguntado o porquê…. mas logo, logo as coisas que ele me falava fizeram esquecer qualquer preocupação. E na quinta-feira seria o feriado. Ele tinha algumas coisas a fazer, iria receber alguém para o almoço e à noite viria para minha cidade e ficaria comigo até o domingo.

Me sentia feliz. Desejada. Fui tirar um cochilo depois do almoço. Dormi imaginando aquele homem, como seria, como eu me comportaria…

Detalhe: minha melhor amiga estava por dentro. Eu dissera a ela meus receios, pois eu nunca havia ficado com homens mais velhos. Ele tinha 59. Ela olhou o perfil dele e me disse para dar uma chance prá mim e prá ele. Ela se preocupa muito comigo, temos muita afinidade, muita conexão. Somos espíritas, ela médium bem formada, incorpora, é vidente, faz desdobramentos, e temos muita sintonia. E naquele cochilo, dormindo, eu fui acordada pelos sons de notificação do facebook. Fui ver e era a tal moça, a amiga nova.

Começou assim: “Parabéns! Você ganhou o touro!” Era a amiga. E percebi que ela havia bebido mais do que o normal. E a conversa rendeu. Ele era amante dela. Ela era esposa de um importante político em São Paulo, tinha três filhos e era louca por ele. Me disse que veio a saber o que era prazer com o meu suposto “namorado”. Mas o marido andara desconfiando, e uma namorada como eu seria a fachada perfeita. Professora universitária, bom nome na mídia acadêmica, e com ele declarando a paixão por mim no face estava perfeito. Perguntei a ela porque não ficava com ele. E a resposta foi: “Eu optei pelo dinheiro.”

Fui então no perfil dele, e lá estava escrito assim: “achar o amor de sua vida é como encontrar a pontinha do durex quando não se tem unha. Eu encontrei a pontinha e estou feliz demais. Não é … (e marcou meu nome)”.

Putz… era tudo que eu queria.. Alguém apaixonado por mim… mas…

Liguei para minha amiga. Ela: liga prá ele agora! Não vai começar um relacionamento desse jeito. E foi o que eu fiz. Ele estava recebendo amigos para um almoço, pedi desculpas e ligaria depois. Ele insistiu… falei que a mocinha havia me procurado… contei a história e ele se mostrou impaciente, falou algumas coisas, disse que esperava que eu fosse mais madura e me chamou pelo meu nome completo. Hum… nome completo. Aí vem bronca. E desligou o telefone.

Aí começou a doideira. Os seis dias que detonaram uma crise que quase virou suicídio.

Eu morava no décimo andar. E começou a me dar uma dor no peito esquisita, até então desconhecida. Num momento de impulsividade e sem saber o que estava acontecendo, eu fui lá e bloqueei os dois no facebook e ele no WhatsApp.

E a minha cabeça foi girando em mil rodeios. Eu sentia medo e mil palavras rodavam na minha mente… fachada, amantes, deputado. E o sinal do telefone me chamou para a realidade. Por um SMS ele tentava entrar em contato comigo.

Precisava se esclarecer e perguntou se eu o bloqueara.

Meus devaneios me fizeram sentir o arrependimento do bloqueio. Eu não podia dizer a ele que o bloqueara. Como tenho dois perfis, um de aluno e outro pessoal, disse que havia desativado minha conta, mas que o adicionaria noutro perfil. Tolinha, inocente. Ele foi entrando no meu perfil e saiu curtindo minhas fotos. Depois foi comentando minhas coisas. E pelo inbox começou a me insultar. Quantos perfis eu tinha? 10, 10 mil? Que eu era uma pilantra. E nos comentários da minha timeline foi me chamando de golpista, de filha da puta. Alguns alunos viram e imediatamente eu o bloqueei. Dali ele foi para o SMS e continuou com os palavrões. E disse que ia se encontrar comigo até debaixo da saia da minha mãe. E que ele já havia copiado todas as minhas fotos e colocado a legenda de golpista e vigarista e as espalharia na Internet. Aliás, ele já estava fazendo. Cada palavrão era um tapa em minha cara. Não respondi a nenhuma mensagem. Fui recebendo os tapas, os golpes, um a um e me perguntando o que eu havia feito, o que havia acontecido.

Pensei apenas em minhas filhas e em meu emprego… eu, educadora… escândalo… minha família…

E abriu-se uma cratera em meu peito e eu tinha certeza da morte ali naquele momento, porque a angústia estava rasgando meu peito e eu precisava me ver livre de tudo, eu precisava me matar.

Era o 10° andar. Estava fácil e eu já estava sentindo a pior dor do mundo. Eu sentia uma dor no peito insuportável. Pior não ficaria. Que dor era aquela, meu Deus?

E fui para a sacada. A mão no peito tentando tirar aquela dor esquisita demais. Minha cabeça girava, girava… o telefone na mão vibrou. Quem ousava?

Fechei os olhos… o telefone insistia, insistia. Resolvi olhar: era minha amiga.

E sem eu dizer nada ela me disse: “Por favor, calmamente, saia de onde você está, tranque a porta da varanda e vá para o seu quarto. Quero conversar contigo.” Eu chorava e chorava… a tarde caía e minha máscara também…. como ela sabia?

E ela falando calmamente comigo, falando, falando, eu fui para o quarto, deitei-me e contei tudo a ela. Ela foi me acalmando, chamaríamos um advogado. Eu chorei todas as minhas vidas. A dor continuava, eu não aguentava respirar, queria sair dali correndo, correndo, para esse mundo de meu Deus. E ela ali, comigo, falando, falando, colocou uma música para mim, até que eu dormisse.

Como ela soube? Naquele dia, à tarde, em trabalhos no centro espírita, por um desdobramento, ela me viu, de relance, muito mal e foi me acudir.

O advogado, noutras palavras, me chamou de idiota, e, vejam, me disse que eu deveria ter notado que ele era um psicopata, um bipolar. Eu fiquei olhando prá ele. Me deu umas instruções, disse que o cara não era burro de fazer o que havia prometido, porque aquilo daria um processo gigantesco nas costas dele, ainda mais que eu tinha todas as conversas. Mas que seria colocada uma pessoa para averiguar isso durante um tempo. Se fosse publicada alguma foto assim, aí entraríamos com processo. Eu me desliguei da internet por uns dois meses.

Minha médica na época me receitou rivotril para aplacar a angústia e me fazer dormir. Demorei uns três meses para sentir segurança de andar, sair de casa, dar aulas e navegar.

Aproximavam-se as férias e resolvi ir para a casa de minha amiga, numa região serrana. Comecei a fazer um tratamento no centro espírita que ela trabalhava. E no sábado eram os trabalhos de desobsessão. Durante a sessão, o espírito que me assediava  disse assim: “Eu não largo ela, eu a amo demais, ela não vai ficar com ninguém.” No centro, eles me falaram que eu preciso agradecer pelos livramentos.

Obrigada meu Deus, por ter me livrado desse psicopata e por não ter feito uma merda na minha vida e das minhas filhas.

E eu fiquei pensando na relação do texto da lagartixa e deste do psicopata. Eu fui uma lagartixa. Quando eu sinto o cheiro da morte eu volto a sentir aquela dor no peito. E é muito ruim. Muito.

De escrever esse post, minha mão suou frio. E eu fiquei muito mal.

1 thought on ““Um psicopata na minha vida””

  1. Dory, apesar de você dizer que “ficou muito mal” ao escrever este texto, espero que tenha sido como uma espécie de catarse para você se esquecer do fato escabroso e fazer as pazes consigo de uma vez por todas. Torço muito por você. Abs, Amanda,

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