O bipolar e sua família

Como já me referi no post Minha mãe, ela é bipolar mas não aceita a sua condição, não se medica e nem faz terapia. Sofri muito com ela na adolescência.

Nascer naquele ambiente sem dúvida contribuiu para a manifestação da minha bipolaridade. Meu pai também contribuiu, com a sua omissão.

Tive uma infância relativamente feliz, mas a minha adolescência foi um desastre. Minha mãe, mais poderosa, me arrasava sempre que podia (ou seja, o tempo todo). Meu pai via tudo, mas muito raramente se manifestava. Felizmente agora tudo se ajeitou. Vejam como são as coisas: mês passado pedi dinheiro emprestado à minha mãe. Ela me emprestou na hora. Esse mês, quando fui devolver, pensei que ela ficaria contente, mas em vez disso ficou preocupada e perguntou se não ia fazer falta pra mim… Às vezes eu penso mal dela, isso não deveria acontecer. É uma ótima pessoa e faz tudo por mim.

Dra. Doris Moreno, na entrevista à ABP – Associação Brasileira de Psiquiatria, falou sobre a “prole de risco”, ou seja, as crianças que têm pais ou mães bipolares.

E agora eu encontrei na literatura o seguinte trecho (Miklowitz, 2009): “As pessoas que recebem terapia focada na família e medicação têm taxas mais baixas de reincidência e sintomas menos severos que aquelas que recebem apenas apoio individual e medicação.”

No Brasil, a saúde pública mal tem condição de cuidar dos pacientes, que dirá das famílias.

Mas, para quem tem um poder aquisitivo maior e não precisa apelar para a da saúde pública, vale a pena fazer um tratamento integrado, ou seja, a díade paciente-família.

A família muitas vezes pode ficar sem saber o que fazer, ou até mesmo revoltada, ou se sentindo explorada, por falta de informação. Dra. Doris cita isso em sua entrevista. O paciente precisa de cuidado o tempo todo. Uma família disfuncional pode levar ao suicídio.

Felizmente eu saí viva da fase aguda de desentendimentos com a minha mãe, mas não saí incólume. Carrego sequelas. Mas, em absoluto, não quero colocar a culpa dos meus desmandos em minha mãe ou em qualquer outra pessoa. Sou eu que estou vivendo a minha vida, do jeito que ela é. E ela é uma fraude.

Hoje a minha sessão de terapia durou 1h30. Falei com o meu psicólogo da gastança e da comilança. Ele foi fundo. Disse que eu tenho completa consciência da minha situação, mas não quero sair dela. Buscando as causas no passado, ele pediu que eu escrevesse sobre a minha infância, minha adolescência e minha adultidade. No fim do exercício, ficou claro para mim que, esse meu comportamento em relação aos gastos maníacos e a comida exagerada têm a ver com não querer assumir a adultidade. É a menina rebelde, que faz as coisas escondidas dos pais. Faço porque quero, quero e quero, e se não deixarem eu faço escondido. Ninguém manda em mim.

É a menina que não quer se submeter às regras, à responsabilidade, à vida adulta com suas cobranças.

O psicólogo pediu para eu estabelecer as idades da infância, adolescência, vida adulta e terceira idade. Coloquei a infância até os 14 anos, depois a adolescência até os 18 anos, depois a vida adulta até os 65 anos, quando inicia-se a terceira idade.

A mensagem positiva que ficou foi: ainda tenho tempo de vida adulta para viver bem, antes de chegar à terceira idade. Tenho exatos 18 anos para dar jeito em mim e em minha vida. Gastei 29 anos fugindo da adultidade. Mas eu ainda tenho tempo para parar de me esconder de mim mesma – comprando coisas e colocando o endereço de entrega na casa da faxineira (minha cúmplice), escondendo bombons pelo quarto, gastando mais do que tenho, com coisas absolutamente inúteis. Amanda, toma seu rumo!

Amanhã é dia 7 de Setembro, comemoração da Independência do Brasil e da Amanda. Disse o meu psicólogo: puxe a espada e declare sua independência às margens plácidas do Ipiranga!

8 thoughts on “O bipolar e sua família”

  1. Amanda me identifiquei demais com você. . Eu sou igual gasto demais e estou acima do peso. .
    E eu odeio pensar que tenho 29 anos.. Serio kkk eu queria ter 17 ..
    Minhas roupas são de adolescente.. eu vejo essas mulheroes e penso ..eu deveria ser assim não? .. mas não gosto..
    Seu post me ajudou a pensar..

    1. Você tem 29 anos, Adelaide? Com a consciência que você tem, com certeza vai tirar mais proveito do que eu da sua vida adulta, pois aos 29 anos eu não tinha essa consciência, nem sabia que era bipolar. Você está com a faca e o queijo na mão! Aproveite-os! Beijos carinhosos, Amanda.

  2. Amiga. Amanda adorei,nem sabia que existia essa doença.
    Já solicitei para avisar por email os novos assuntos que vc postar na sua pagina.
    Desde já te agradeço pagina.amigo (CARLOS GOMES)

    1. Carlos Gomes, para você ficar sabendo o que eu publico aqui no site, torne-se meu seguidor no facebook. Assim você vai ter a informação de primeira mão. Abraços, Amanda.
      PS: Muito obrigada pelas palavras elogiosas!

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