Pitacoteca

Minha mãe: “Você é uma sofredora. Olha há quanto tempo você está procurando ser feliz…”

Minha melhor amiga: “Casamento é questão de vocação.”

Meu irmão: “Você tem um mês para acabar com esse casamento.”

Meu amigo querido: “Como assim tem que fazer esforço para gostar de você? Para amar não tem que fazer esforço, ou você gosta ou não gosta. Isso é um absurdo! Você é lixo, agora?”

Meu psicólogo: “Você não o ama.”

Meu psicólogo: “Ele não é distraído, ele não percebe as suas coisas porque só tem olhos para si mesmo.”

Meu enteado: “Meu pai, quando tem uma companheira, se escora nela. Minha mãe morreu de câncer por isso.”

Meu marido: “Fiz tanto esforço para gostar de você e agora você me dá o pé na bunda?”

Nesta “pitacoteca”, ninguém este completamente certo. Pessoas dão a sua opinião, mas não conhecem a situação por inteiro.

Meu casamento ainda não é estável, seguro, firme, inabalável. Plagiando Simone de Beauvoir, nenhum casamento nasce sólido. Torna-se sólido. O meu está nesse caminho. It is a work in progress.

Enquanto isso, ouço uma série de considerações das pessoas que veem a situação de fora e dão a sua opinião. Uma polifonia de opiniões.

Meu marido contribui para essa multiplicidade de sons que me atingem e me deixam confusa.

A situação parece tão clara para todos, menos para mim.

“Eu gosto dele, com seus defeitos e virtudes.” Chavão, lugar-comum, clichê. Mas é a verdade.

Estamos cada vez mais próximos. O cômodo nos aproximará ainda mais.

Não sei como eu suportei a sua crise aguda de depressão, no início do relacionamento. Período ruim, péssimo. Em vez de ficar acabrunhado, silente, ele ficava reclamão, rabugento, ranzinza, irritadiço, agitado. No auge das crises, chorava. Praticamente um surto psicótico.

Recentemente brigamos, quando ele voltou do hospital. Ele estava mal-humorado, reclamando de tudo. Vi trevas. Vislumbrei situação semelhante às crises de depressão. Para mim, agora, esta situação parece insuportável. Falei isso para ele. Ele ficou irado. Gritou comigo.

Porém, melhorou com o passar dos dias. Agora está praticamente normal.

Estou aprendendo, com a terapia, que não devo esconder minha emoção, seja ela qual for. Ou seja, ele merece um desconto, pois está em convalescença, mas nem por isso devo deixar de expressar o meu sentimento em relação à sua postura. Deu certo. Na hora ele gritou, enfureceu-se, mas captou a mensagem, e melhorou.

É aos poucos que a vida vai dando certo.

4 thoughts on “Pitacoteca”

  1. Oi querida!
    Período difícil, mas fácil para virar um gatilho.

    Ainda bem que está na terapia. Ainda bem que compartilham conosco estas situações. Podemos não resolver, mas nosso ouvido ouve com ares visuais a tua situação.

    Lembra-te da minha situação. Lembra-te que estamos todos, sempre no mesmo barco, a tirar leite das pedras para sermos felizes.

    Mas, a que duras penas estamos dispostos a suportar as coisas pela nossa estabilidade?

    Não sei Vagalume, preciso dessa luz…

    Estou na área, querendo conversar…

    Beijo, Dory

  2. Muito realista todo sentimento exposto, difícil “dos normalóides” entenderem, mas te entendo amiga. Talvez atue diferente de voce em pouquíssimas situações, haja vista , vir de “gens”, experiencias diversas, inconsciente, ego e superego com funcionamento proprio, mas te entendo , pois passei, passo, e passarei por conflitos não menos difíceis, complexos, com pessoas, principalmente ao nosso redor, de uma incompreensão e insensibilidade até “sádica!”
    Difícil a convivência com “um depressivo”, no meu caso, não “sou agressivo”, pouquíssimo irritável, mas muito melancólico, tristíssimo, faltaria adjetivo para esse sofrimento “de reclusão psicológica”, gostaria muito que fosse o oposto: eufórico, irriquieto, etc. Mas tou torcendo por voce, “torcendo não é a palavra exata”, meditando e “clamando aos céus” , que tudo passa, e depois trabalhar a manutenção de “uma certa estabilidade sensata, prazerosa, como voce disse ” o cômodo nos aproximará mais!” Oxalá! “tou torcendo”, voce merece e precisa! Amém “ama!”

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