“Tinha uma árvore no meio do meu caminho…”

“Não estou me olhando no espelho…

Não quero me enxergar, não quero ver o retrato da dor, do coração doído, da imagem desfeita e deprimida…

Não quero ver os meus cabelos que precisam de um trato, do corpo largado…

Não quero ver meu cenário…

Tem dois dias que eu não tomo banho, que eu não visto uma roupa decente… mesmo estando frio por aqui, ando apenas de calcinha e sutiã…

Como o essencial, encho meu estômago de remédios…

Ontem eu não vi a cara da rua, o lixo ficou por esperar o próximo dia do lixeiro, não fosse a chuva, minhas plantas teriam desfalecido…

O chão coberto de papéis embolados… a tese sobre a mesa do escritório, o computador ligado desde não sei quando…

A represa está cheia, a energia acumulada, precisando se esvair…

E assim, passei para ir ao banheiro, e de relance vi minha imagem no espelho… virei o rosto..

E sentada no vaso, a represa se esvaiu… bastou um fechar de olhos, e elas, grossas, começaram a descer pelo rosto e não pararam mais…

Inundaram tudo… os óculos embaçaram…

E eu me deixei perder naquela enchente. Com o rosto entre os joelhos, eu me afundei num mergulho que poderia ser sem volta…

Lembrei-me da oração: coragem para mudar as coisas que eu posso modificar,  serenidade para aceitar aquelas que eu não posso e sabedoria para distinguir uma das outras…

E minhas palavras foram se esbarrando uma nas outras, em meio a tantas orações e dizeres, e frases, e textos, e doideiras…

E cansaço…

Eu estou muito cansada, muito, muito…

Eu sei que vai passar, precisa passar. O problema é como passar, é como suportar a dureza do aço vermelho da dor, o problema é como enfrentar a pedra no meio do caminho.

Lembro-me da música de Milton Nascimento que empresta o poema de Drummond de Andrade… no meio do meu caminho, sempre haverá uma pedra… plantarei a minha casa, numa cidade de pedra… pedra miúda rolando sem vida…

Tinha uma árvore no meio do meu caminho… não posso plantar a minha casa num pé de árvore, porque eu vivo há muitos e muitos anos em zona de flutuação, sem paradeiro, cada hora num cenário, numa casa… desgastada pelos caminhos em caminhões de mudança, em investimentos em novos rumos, novos períodos.

Pedra miúda rolando sem vida…

Como é difícil e quase sem brilho a vida…

Como é difícil e quase sem brilho a vida do povo bipolar que mora onde dá para morar, vivendo do jeito que os parceiros e companheiros e pessoas pensam que dá para nos aguentar…

Tinha uma árvore no meio do meu caminho…

Eu sei que é a esperança dizendo para mim que eu preciso ter paciência, que é só por hoje, mais um dia…

E eu preciso dar conta de vencer este dia, de conseguir chegar pelo menos a noite…

Meu senhor, eu não sou digna de que visites a minha pobre morada, porém, se Tu o desejas, queres me visitar, dou-te meu coração, dou-te meu coração…”

Dory

3 thoughts on ““Tinha uma árvore no meio do meu caminho…””

  1. Um texto “de coração” em crise, uma das tantas crises pelas quais nós bipolares passamos, ou “não passamos”, talvez sobre esse verbo intransitivo eu possa fazer analogia com o poeta, com a poesia de Drumond :” Eu passarinho, eles passarão”.Mas em nosso caso a poesia perde o sentido nós passaremos eles ficarão, sem nos dá nenhuma chance de perdão! Temos que sobreviver ou não? Então acreditemos na fábula da cura, de que haverá um novo amanhecer e que o sol voltará a brilhar… se a fabula virar verdade sobreviveremos sem a “dor do Mito de Sísifo”, sem carregar “eternamente uma grande pedra nas costas , deixa-la rolar e depois subir com ela de novo…. Criemos ” a nossa luz no fim do túnel” quem sabe a alcançemo-la! Amém!

  2. Olá. Encontrei o seu blog numa pesquisa por blogs de pessoas com bipolaridade e estou a adorar lê-lo. Fui diagnosticada no principio deste ano e procuro tudo o que me possa ajudar a controlar esta doença. Gosto muito de ler testemunhos pois percebo que não estou sozinha nesta luta.
    Obrigada pela sua partilha.

    1. Obrigada pelas palavras, Maria. A proposta do meu site é justamente ser o mais pessoal possível, pois sites com informações técnicas sobre bipolaridade há vários. Se você tiver vontade, escreva um texto sobre a sua experiência com o transtorno bipolar ou qualquer outro tema que nós publicamos com muito prazer. Beijo, Amanda Montenegro.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.