As mudanças

Saí da crise depressiva com a ajuda de uma excelente psiquiatra, que mudou minha medicação. De cinco remédios, agora tomo apenas dois: fluoxetina e lítio. Sinto-me mais bem disposta, não sinto tanta fome e estou calma.

Sou calma. Claro, às vezes fico furiosa. Alguém já viu um bipolar que não tenha temperamento forte? Quando decido, está decidido, e nada me demove. Essa característica de personalidade já me fez implementar grandes mudanças na minha vida. Essa característica de personalidade me trouxe até aqui.

Estou em paz com as pessoas: minha família, meu marido, a grande família do meu marido, meus amigos. Estou em paz comigo mesma.

Gosto de ajudar, de cuidar. Estou sentindo um carinho imenso por todas as pessoas que me rodeiam. Gostaria de ajudar todas elas.

Por outro lado, sinto ansiedade. Alguém já viu um bipolar que não seja ansioso? Faz parte do pacote. Um grande mal estar estomacal fez com que eu fosse diagnosticada com gastrite aguda. Fiz um tratamento de 15 dias, um comprimido de manhã e outro à noite, melhorou mas não curou de todo. Não posso ficar muito tempo sem comer que lá vem o mal estar.

Quanto à vida, sinto-me confiante e preparada para as mudanças que ela me reserva. Venho de tantas tempestades… Difícil algo me atemorizar. Sempre lembro de uma frase do Sebastião Salgado, referindo-se a ele e a sua mulher: “A gente não tem medo de muita coisa, não”. Eu também não tenho medo de muita coisa, não.

Seja para que lado os ventos soprem, tenho garra, fibra e energia para enfrentá-los. Na verdade, o que me aborrece é a mesmice. Fui feita da matéria-prima das mudanças. As mudanças me motivam.

As mudanças que implementei em minha vida por vezes magoaram pessoas que não mereciam. Sinto muito por elas, sinto mesmo. Mas não há como não mudar, é uma necessidade profunda de viver o que eu acho que preciso viver.

Quando eu sei que vou magoar alguém que não merece, sinto uma vontade enorme de me repartir em duas: uma Amanda segue vivendo a mesma vida sem magoar a pessoa, a outra Amanda vai viver o que ela acha que precisa viver. Como repartir-me em duas é impossível, magoar quem não merece é inevitável. Sinto tanto.

Fico pensando se em outra vida vou poder reparar a dor que causei. Espero que sim.

O que me fortalece é que todas as mudanças que implementei foram profundamente sinceras, atendendo a uma demanda que vem do fundo da minha alma. Nunca foram impulsivas.

Toda mudança envolve perdas. Eu também pago a minha cota de sofrimento. Mas pago tranquila, sabendo que é a parte que me cabe.

2 thoughts on “As mudanças”

  1. Do seu texto “Toda mudança envolve perdas. Eu também pago a minha cota de sofrimento. Mas pago tranquila, sabendo que é a parte que me cabe.”

    Acabei de ler:
    “Somos assim. Sonhamos o voo, mas tememos a altura.
    Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio.
    Porque é só no vazio que o voo acontece.
    O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas.
    Mas é isso que tememos: o não ter certezas.
    Por isso trocamos o voo por gaiolas.
    As gaiolas são o lugar onde as certezas moram”
    Rubem Alves.

    Nós, os bipolares voamos alto, muito alto. E não nos prendam em gaiolas, por favor. Podemos morrer, porque a certeza da instantaneidade da realidade nos consome o peito.
    Porque as certezas da vida nos matam, pedacinho por pedacinho.
    Somos inovação, somos o vazio, um vazio cheio de vida.

    Beijo Amanda, beijo com carinho.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.