Será que as aparências enganam?

por Dory

 

Nossa anfitriã costuma chamá-los de “psicopatas da internet”.

Concordo com alguns, outros não. Aliás, outro não.

Tenho um namoradinho virtual que mora no Canadá. Já sofremos e passamos por muitas dificuldades e problemas, desde doenças graves (leucemia), ex-mulher querendo voltar, porque ele está com alguém, dificuldades de comunicação, já vai para 18 meses…

Um namoradinho adulto, maduro, ele tem 64 anos e eu 56. Formamos um lindo casal, e isto pudemos constatar na viagem que fiz ao Canadá para conhecê-lo. Ele é muito fofo, eu queria trazê-lo para minha casa. Firmamos compromisso, ele espera a aposentadoria em maio/2018 e virá ao Brasil ficar um tempo comigo. Assim eu espero.

Mas tivemos alguns contratempos, como por exemplo, a ex-mulher simular uma situação absurda (estávamos retirados em um hotel) e a mãe colocou a polícia atrás dele.

E no meio da despedida de lágrimas, escutávamos uma música que eu adoro, e que agora eu tento de todas as formas não associá-la com a despedida, com a solidão e com a falta que eu sinto dele.

Conversamos todos os dias, agora em três vezes, pela manhã, almoço e tardinha. Sempre escondidos, porque ele estava apenas separado de corpos, e a ex pegou nossas conversas e fotos e o ameaça com adultério, e a lei por lá é séria. Acreditamos que até outubro/novembro ele consiga obter o divórcio. Eu em minha casa, livre e solta pelo ar, e ele dentro do carro, num estacionamento qualquer. Quando queremos um sexo virtual, ele se retira para algum parque, e ali somos felizes e somos quem quisermos.

E assim, eu vou levando meus dias com o meu “psicopata da internet”. Aprendi com ele o inglês e conversamos normalmente sem qualquer dicionário. Como as coisas fluem…

Eu duvido do meu diagnóstico. Ele duvida do meu diagnóstico.

Sou professora universitária de nome, terminando meu doutorado, tenho mais de 400 alunos por semestre, moro sozinha e assim vou levando minha vida, tentando controlar meus altos e baixos.

Faz um tempo que estou estabilizada. Tomo medicamentos de última geração associados com outros pré-históricos, sou assistida por psiquiatra e psicóloga, por este site, por alguns amigos, e uma grande amiga, também portadora, e que conversamos diariamente sobre os nossos dilemas.

Só que sinto-me cansada. Cansada de manter as aparências. Como as pessoas não sabem de meu transtorno, tento manter a fachada de que sou uma pessoa cult, inteligente, personalidade marcante, estudiosa e forte prá caralho…

Só que sinto-me cansada. Cansada de manter as aparências. Praticamente tenho uma pequena crise de pânico todos os dias. Normalmente pela manhã, quando abro os olhos e preciso enfrentar o dia, em muitas coisas a se fazer. A pior de todas, acessar minha conta no banco e pagar as contas. O dinheiro está lá, mas acessar e digitar os códigos de barra é para mim um transtorno, eu suo frio, minhas mãos tremem, os olhos embaçam, mas preciso fazer…

Só que sinto-me cansada. Cansada de manter as aparências. Praticamente tenho uma pequena crise de pânico todos os dias, quando minha orientadora me liga, e me diz o que tenho que fazer, e percebo que preciso escrever mais 20 páginas ou fazer uma entrevista com alguém…

Só que sinto-me cansada. Cansada de manter as aparências. Praticamente tenho uma pequena crise de pânico todos os dias, quando me olho no espelho, e me vejo por dentro. E me vejo por fora. Vejo a idade chegar, vejo o tempo roendo as coisas, minha jovialidade, meu desejo de ser feliz, livre, tentando conseguir respirar até o fundo do fundo, sem ter aquela parada e dor no peito que é a dor da angústia. Sem ter que me deitar sozinha, num ladinho apenas de uma gigante cama de casal, esperando a aposentadoria do meu psicopata chegar… sem ter que tomar banho e deixar que as lágrimas escorram junto à água e se esvalem pelo ralo.

Em me sentir uma alma penada andando por esta casa enorme e branca, despida de pessoas, de conversas, de companhias… apenas o meu espírito andando pelo silêncio dos cômodos, tentando tirar leite das pedras, conversando com os desencarnados.

Só que sinto-me cansada. Cansada de manter as aparências. Praticamente tenho uma pequena crise de pânico todos os dias, quando percebo que vou entrar numa euforia doida, mas minha posição e segredos não me permitem, e eu tenho medo de viver as consequências que minha euforia provocará. Como diz nosso finado e tão querido Belchior, eu tenho medo de que chegue a hora em que eu precise entrar no avião. Faca de ponta e meu punhal que corta, e o fantasma escondido no porão. Medo, medo, medo, medo, medo.

A música continua a tocar, e eu aqui fazendo uma puta força para não associá-la com a solidão e o abandono, mas com o carinho, o dançar, o amar, tudo de bom que vivi com ela.

Sinto-me cansada. Cansada de manter as aparências. Como elas enganam…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.