Para ver se a dor passa

Vim escrever para ver se a dor passa um pouco. O corpo todo dói, mais as costas e a cabeça. O peito está oprimido. Não durmo um minuto sequer. Vi o dia amanhecer da janela da sala. Se deito, pioro. Apagou a luz do vagalume. Sofro. Tenho que me manter em movimento, igual o moço do filme que foi envenenado e não podia deixar o nível de adrenalina diminuir. Então, mantenho-me em movimento. Vou ao cabeleireiro, à manicure, ao fórum. Invento tarefas inúteis. Vou tentar assistir um filme de terror para ver se me distraio. De qualquer forma, não consigo prestar atenção em muita coisa mesmo. E detesto filmes de terror. Recebi um pedido para rezar um Pai-Nosso, não consegui chegar ao final. A atenção me escapa. Por falar nisso, não posso me esquecer que detesto bossa nova. Não vou passar a gostar só porque ele cantou para mim. Não se esqueça, Amanda. Penso, penso e não consigo entender por que ele me magoou desse tanto. Por que ele fez isso? Por quê? Por quê? Se sabia que me machucaria… Sabia, porque eu falei, eu avisei, eu pedi. Sabia, porque fui sincera o tempo todo, porque é isso o que eu faço melhor, desde criança. Queria me magoar? Nunca desrespeitei a memória dela, o seu grande amor. São legados que a gente carrega. Também tenho os meus, descritos neste site: “O meu melhor namorado”, “O grande amor da minha vida”. Seguimos sempre um pouco amputados. Mas eu os mantenho em local emocional distante. Não dá para reviver. E eles, meus dois legados, não morreram não. Estão vivos e de vez em quando falo com eles. Eles também gostam de mim e valorizam nossas memórias juntos. Mas não fazem mais parte do presente. Um, o namorado, porque se casou depois que eu fui embora e não quer se separar. Pedi: “larga ela e fica comigo”… Ele não quis, disse que isso era “muito forte”. O outro, o grande amor, faz parte do passado porque só me quis quando ficou desempregado. Vamos explicar: eu estava desempregada, ele começou a me maltratar, fui embora, depois me humilhei para que me recebesse de volta, ele não quis, ficou desempregado, veio me procurar e aí quem não quis fui eu. ”Agora quem não quer sou eu”, canta o Seu Jorge. Será que agi mal? Não sei de mais nada, minha cabeça tão confusa… Por que estou lembrando disso tudo ? Decerto estou tentando avisar a mim mesma que também tenho memórias, para ver se paro de sofrer um pouco. Mas não está adiantando…. Não consigo manter o pensamento retilíneo… Ah, nós bipolares somos tão passionais! Depois de tudo cá estou eu, machucada de novo. E era uma história tão bonita, tão bonita… O nosso encontro foi pura magia. Pura magia, nestes tempos tão duros… Por ele, “rompi com o mundo, queimei meus navios”, como diz o Chico naquela canção maravilhosa, “Eu te amo”. Bom, o rompimento real seria feito no momento certo, na ocasião certa, como ele mesmo fazia tanta questão de enfatizar. Mas dentro de mim o rompimento já estava selado. Eu havia tomado uma decisão. E quando eu decido, eu decido. Sempre foi assim. Sempre fui assim. Ai, que dor de cabeça… Não é metafórica, não, é real. A cabeça lateja. Agora fico eu com tudo o que podia ter sido e não foi. Minhas fantasias, meus devaneios, minhas esperanças, meus planos, tudo perdido. Na verdade, não aconteceu nada. Só aconteceu dentro de mim. Nunca olhei em seus olhos, nunca senti seu cheiro, nunca me aconcheguei em seus braços. Nossa, Amanda, agora você está piorando o sofrimento! Para já com isso! A dor vai passar, vai passar… Sempre passa.

2 thoughts on “Para ver se a dor passa”

  1. Puxa Amanda, que relato forte! Nunca te vi assim…
    Sempre te vi como o nosso vagalume com uma tênue luz a nos indicar um caminho, que fosse qualquer um.
    Queria ter meus passados civilizados, conversando ainda, falando sobre a vida, sobre as coisas, e ter tido pelo menos a chance de querer voltar. Ninguém quer voltar comigo, será que eu não valho a pena, ou será que os “ninguém” valem a pena?
    Você está certa… não vai gostar de bossa nova só porque o outro gosta, não vai mudar tua identidade…
    Outro dia você escreveu em algum lugar: nós bipolares somos autênticos.
    E você está sendo autêntica agora. Em entender que apenas você teve um amor, teve um plano, que o outro não teve. Você está entendendo isso, não está fantasiando, está na mais pura realidade.
    Uma realidade que choca, que dói, porque no fundo, pelo que você diz, você tinha uma decisão tomada. E seja qual for, ela está tomada, e você sabe disto.
    O que podia ter sido seu e não foi, talvez fosse ruim, insosso, sem graça, higiênico, sistemático… tudo mentira…
    Suas fantasias, seus devaneios, suas esperanças, seus planos, tudo perdido. Mas tudo vivido, pelo menos um tempo, em tua cabeça, te percorreu o sangue, encheu teus dias de prazer e emoção.
    É verdade, só aconteceu dentro de você, esse sentimento é só seu, apenas você sentiu.
    Você nunca olhou nos seus olhos, mas você via cada minúsculo de cor deles, e sentia pelo teu corpo o olhar que te desnudava…
    Você nunca sentiu o teu cheiro, mas tuas narinas se abriam impregnadas pelo aroma que as sensações te provocavam…
    Você nunca se aconchegou em seus braços, mas teus abraços se abriam para receber um calor de um afago apertado..
    E agora Amanda, para com isso. Porque sua realidade é outra, cheia de coisas.
    Você tem olhos para olhar, você tem cheiro para sentir, você tem braços que te abraçam…
    Vou te confessar que no fundo fico tranquila que nada aconteceu, que tudo aconteceu dentro de você! Porque o estrago das coisas acontecerem fora da gente é gigantesco, pode nos fazer perder o controle e tudo que temos.
    Quantas histórias você nos contou de suas perdas…
    E tudo passou…Tudo passa….
    Sua cabeça agora lateja… mas vai passar
    Tem que passar…
    Sempre passa…
    Eu te adoro, estou por aqui no teu blog, se precisar de mim.
    Beijo com carinho,
    Dory.

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