Entre a carência e a euforia

por Dory

 

A primeira vez que eu ouvi o termo “psicopata da internet” foi por meio de nossa anfitriã, Amanda.

Você, leitor, deve estar se perguntando por que diabos esse assunto vira e volta, vira e mexe…

É porque ele precisa ser abordado, uma vez que, ao mesmo tempo em que conta situações e as pessoas vão se inteirando das armadilhas virtuais, ele esconde duas coisas fatais: a carência e a euforia. Não sei quem decorre de quem. Talvez a primeira gere a segunda, não sei…

Falamos de psicopatas da Internet, mas temos também muitos psicopatas presenciais. Às vezes ele vem do virtual e toma forma e rosto e nome, talvez…

Um dia, recebi um pedido de amizade de um homem aparentemente inofensivo. Da mesma cidade natal que a minha, foi logo passando o telefone, com foto e tudo, e em duas frases disse que queria entrar em contato. Aquela mensagem e aquele telefone ficaram ali, mofando, dias, dias… até que a minha desilusão por causa de outro psicopata me levou a este…

Pura carência. Buracos que vão sendo preenchidos, um após o outro, por pessoas, uma após a outra…

Pura carência. Num ato impensado (impulsividade, meus caros, faz coisas…) resolvi mandar mensagem para o tal homem inofensivo.

Passei uma noite infernal. Depois de ficar mais de uma hora conversando com CVV sobre a minha solidão, tentei dormir pelo prático método dos remédios, mas não consegui. Estava osso aquela fase. O psicopata anterior havia deixado feridas profundas, um roubo de nove mil reais, e o desprezo. História para outra oportunidade…

Pela manhã, embriagada pela falta de sono e pelo desconforto do sofá, fui escutando a campainha do WhatsApp, seguidas, várias. Levantei e fui ver quem era. Novo amigo, nova bola da vez…

Ficamos conversando por duas horas seguidas, por voz, por mensagem. Puxa, o que era aquilo, um presente dos deuses? Um advogado, fazendo mestrado, solteiro, com uma filha fazendo medicina, e tão convincente, que eu me esqueci que ele era de mentira, era uma miragem, era uma pessoa virtual, e nesse mundo, tudo pode…

Mas ele tinha um nome tão bonito, e esse nome soava em meus lábios tão gostoso, tão promissor… Ficamos quatro meses conversando diariamente, trocando músicas, poemas, palavras, sonhos, vontades, muito tesão, até que o inferno começou.

Eu estava completamente apaixonada. Pensava ter encontrado o grande amor da minha vida… Quantas vezes eu já me apaixonei mesmo? Vivia pura euforia, essa delícia de sentimento. Lembrei-me de um post de um colega nosso, outro dia, falando da euforia, e era isso que eu sentia (eita, rimou!). O mundo aos meus pés, eu podia tudo e tudo eu queria. A euforia enchia meu coração, minha mente. Eu estava feliz! E era o que importava, meus olhos brilhavam, estava embriagada por uma droga que quando passa o efeito, fode com tudo.

E de repente, ele combinou de passarmos o nosso aniversário juntos, ele fazia num dia e eu no outro. Eu viajei 800 quilômetros para encontrá-lo.

E ele não apareceu.

Detalhe interessante, os psicopatas são, além de tudo, machistas, porque com todos eles, eu fui ao encontro.

Depois de uma semana consegui falar com ele, e lá estava o maluco, havia sofrido um AVC e causado uma sequela na vista direita. E eu acreditei. Precisava acreditar, porque o torpor do fim da euforia estava me matando e eu necessitava urgente me agarrar em alguma coisa para não me afundar.

E continuamos a conversar. Um dia, estando na mesma cidade que ele (onde minha mãe morava), eu o chamei para um encontro. E ele na recusa, eu na insistência. Em determinado momento, eu fiz a fatídica pergunta: Posso lhe perguntar uma coisa? Ele disse que sim, e eu lasquei na tora: você é esquizofrênico, ou bipolar? Silêncio.

Depois de meia hora, veio a resposta: bipolar. Seguida da minha: e você acha que eu sou o que?

Os meses se passaram sem que eu tivesse qualquer notícia do meu colega de transtorno. Comi o pão que o diabo amassou com o rabo. Mandava e-mails, falando da minha tristeza, mil mensagens, acendia 500 velas para o cara voltar… nada. Para os tantos amigos que eu falara sobre o meu amor, o homem dos meus sonhos, fui contando a história do gato que subiu no telhado. Ele havia tido um AVC, era de uma cidade no Sul, a família o levara para os cuidados, ele não recuperava, até que morreu. Na verdade, eu fizera mesmo aquele velório, aquele enterro e colocava definitivamente uma pedra sobre quem eu achava que era o amor de minha vida. O cara morreu!

No final do ano, estava eu fazendo uma tatuagem nas mãos, com a palavra Fé, quando recebi o sinal de um e-mail. Era o falecido, perguntando se eu estava na cidade. Depois de ofender até a madre do cara, ele disse apenas que me procurou porque precisava conversar com alguém.

E tudo voltou. A euforia, essa filha da mãe… essa euforia que me dizia que meus tempos de carência haviam acabado…

E me vi diante de um cara (virtualmente é claro), que não se chamava aquele nome, mas um outro, um nome que eu não conseguia pronunciar, e preferi chama-lo por um diminutivo, era mais elegante e imponente.  Desempregado, doente, morando sozinho, estudando para concursos. E eu passei a ajudá-lo com dinheiro. Hora para fazer provas, ora para medicamentos. E um dia eu armei uma armadilha e finalmente fiquei conhecendo o cara. Estava acabado, magro, e percebia-se sua inquietação e todos os sintomas que dizem que nós temos. E continuei a ajuda-lo. Ele marcava encontro comigo, levava as receitas, eu ia com ele na farmácia e comprava os medicamentos, um lanche, conversávamos um pouco. Ele ia embora, com uma garrafa de água na mão, bebendo, porque a boca seca era visível e o pânico do metrô o matava.

Eu o convidei para morar comigo. Não como um casal, o amor fora embora. Mas como dois amigos, eu o ajudaria, pelo menos ele teria casa, comida, um lugar para estudar e alguém para segurar a onda. Olha a carência aí. Queria apenas companhia, uma pessoa dentro de casa, e não um fantasma. Ele me disse que não daria certo, que se um dia os dois surtassem, como seria? Não sei. Não sei como seria, sei que eu tenho o meu emprego e isto garantia medicação e internação se fosse o caso. Cheguei a olhar um plano de saúde para ele.

Ele sumia, aparecia, sumia, aparecia. Parei de ajudar com dinheiro. Eu sumi da vida dele.

Um dia, ele apareceu, havia sido internado, depois me pediu dinheiro para tirar visto para ir embora. Arrumei uma agência de vistos, e ajudei depositando o dinheiro. Ainda continuo sem notícias dele.

Mas eu agradeço muito a Deus, porque ter tido esse psicopata na minha vida. Por causa dele, eu aprendi o perdão, aprendi a generosidade sem olhar a quem, o amor fraternal, a solidariedade, o respeito e a gratidão. Ele sempre me agradecia, por tudo. Nunca nos tocamos, nunca nos amamos…

Apenas vivemos na onda da euforia, da impulsividade, da carência, de um sofrer por conta deste transtorno…

Queria que ele tivesse morado comigo. Sei que ele estaria bem. Não o queria como homem, mas como companhia, velhos amigos, histórias para contar, viagens a fazer, vida a se viver…

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