A separação

Ele me mandou um email, dizendo que eu era bonita e se apresentando – ainda era o tempo dos emails. Um trecho dizia mais ou menos assim: “Não sei se devia falar isso, mas sou atirador esportivo.” Gostei dessa pequena demonstração de insegurança, nesse mundo repleto de homens cheios de empáfia. Respondi o email, contei um pouco de mim. Eu não o conhecia, mas a minha mãe era muito amiga da irmã dele, estimava toda a família. Coisas de cidade pequena. Minha mãe aprovou a nossa aproximação, por certo. Logo ele me convidou pra jantar. Disse que precisou perguntar à sobrinha aonde me levar, pois não conhecia os locais da cidade. Achei bonitinho. Antes de chegar, mandou mensagem dizendo que já tinha passado três vezes de carro em frente à minha casa (imagina se eu não achei bonitinho?). Foi um encontro agradável, estávamos felizes. Ele era 22 anos mais velho que eu, mas não parecia. Na hora de me deixar em casa, uma bitoquinha. No segundo encontro, me beijou de verdade. E pronto, ele era meu namorado. Saíamos sempre, tomávamos cerveja, vinho, jantávamos. Apaixonados. Não víamos a hora de nos encontrar. Quando nos encontrávamos, abraços demorados. Ele me ajudou a encontrar uma casa para que eu pudesse morar sozinha, sair da casa da minha mãe. Encontramos uma casa ótima e eu fui morar sozinha. Na época, ele estava passando por uma forte crise de depressão. Acompanhei-o em vários médicos, psiquiatras e neurologistas. Não conseguia se estabilizar. Pra piorar, passou por duas cirurgias. Na segunda cirurgia, desesperou-se e disse que ia parar de tomar todos os remédios. “Isso é que não”, falei. “Vem se recuperar em casa e eu te dou os remédios direitinho”. Ele, viúvo, morava com a irmã em um sobrado sesquicentenário. Veio para a minha casa. Nossa convivência era muito boa, exceto nos momentos em que a depressão se tornava mais aguda. Ele gritava, chorava, lamentava, praguejava. Eu ficava super aflita tentando ajudar. Eram surtos psicóticos, ele perdia a razão. Acontecia semanalmente. Doía ver aquilo. Todo dia eu dava os remédios, e fazia os curativos nos cortes das cirurgias. Ele foi melhorando aos poucos. Finalmente, encontrou uma psiquiatra que conseguiu estabilizá-lo. Recuperou-se totalmente, nunca mais teve surto psicótico. Ele estava morando comigo, e assim ficou. Duas vezes teve dúvidas sobre o nosso relacionamento. Nestas ocasiões, chorava e dizia que gostava de mim, mas não sabia se era o suficiente para ficar comigo pra sempre. Eu ficava estarrecida, sem ter o que dizer. Mas ele fazia terapia e a psicóloga deu uma bronca: “Você não pode falar isso pra ela não!”. Então ele nunca mais falou, e a dúvida desapareceu. Vivíamos muito bem. Um dia, fazendo compras em uma loja, ele me puxou pela cintura e falou no meu ouvido: “Você imaginava que alguém fosse gostar de você assim?”. “Não”, respondi, e o abracei e beijei. A família dele era numerosa, afetuosa, alegre, festiva. Eu gostava muito de todos e era super bem tratada. Estávamos sempre no sobrado, seguidos dias de festa. Construí um cômodo pra ele no quintal de casa, para ele carregar as balas e guardar as munições, equipamentos, ferramentas, cases. Ele adorou. Todos os dias de manhã me levava o remédio na cama, me dava um beijo e “ia trabalhar” no cômodo. Voltava pro almoço e depois só à tardinha. Eu esperava o marido voltar do trabalho. Começou a ter dor de estômago, eu fazia mingau. A dor passou. Umas três vezes acordei com ele olhando para o meu rosto. “Você está me olhando?” “Você é bonita, meu anjo”, dizia. Que lindo! Eu me sentia amada e cuidada. Pôs ordem na minha vida financeira, mandou arrumar o meu carro, cuidou dos documentos. Lavava a louça diariamente. Nossa vida entrou em um nível ótimo de organização. A vida dele estava completa. Mas a minha vida estava incompleta. Eu vivia dias ociosos, sedentários e vazios. Minha consciência se rebela contra a estagnação. Não recebi a dádiva da aposentadoria para desperdiçá-la. Tenho certeza que tenho que aproveitar a maravilhosa oportunidade de estar aposentada tão jovem para ajudar as pessoas. Quero fazer faculdade de Psicologia, depois o Mestrado, escrever meu livro e atender as pessoas de graça. Esse é meu objetivo, ou mais do que isso, essa é minha missão. Eu falei com o meu marido sobre isso, mas ele falou que nunca sairia dessa cidadezinha em que moramos. Eu, no entanto, quero cursar a melhor faculdade de Psicologia do país. O que fazer? Ele não ia me acompanhar. Foi enfático e resoluto. A isso, soma-se a falta de troca em vários aspectos. Eu contei sobre o meu site, mas ele nunca se interessou em visitar. Gosto de cantar, dançar, beber, passear, namorar. Não havia nada disso na nossa vida. Ele era muito ciumento, e sempre fazia questão de frisar esse aspecto. Quando me encontrei com o irmão dele pela primeira vez, esse meu cunhado passou a mão no meu rosto e disse que eu era bonita. Meu marido ficou muito bravo. Ficava bravo se eu cantasse, bebesse, dançasse. Então eu passei a reprimir esses gostos. Vida sexual, não tínhamos. No Dia dos Namorados de 2017, eu tentei me aproximar dele eroticamente. Não deu certo. Além de não corresponder, ele teve uma crise depressiva. Perdi as esperanças de ter uma vida sexual normal. Culpa com certeza da idade dele: 70 anos. Eu tenho 48 anos. Decerto há muitos homens nessa idade e até mesmo mais velhos que têm vida sexual, mas ele não tinha e não fazia questão de mudar. Então eu quis me separar. Aquela já não era a minha verdade. Eu não estava inteira naquele casamento. Ele chorou bastante. Fiquei com muita dó. Foi sofrido. Tentou me demover, eu estava decidida, então não tentou mais. Foi embora, levou todas as suas coisas. A casa ficou grande, a cama ficou enorme. Passei a dormir do seu lado no colchão, pois não suportaria olhar pra aquele espaço vazio. O cômodo das munições está tristemente vazio, eu não vou mais até lá. Só a faxineira o visita. Eu falo com ele ocasionalmente, nosso trato é afável e carinhoso. Agradeci e agradeço sobremaneira tudo o que ele fez por mim. Mas não sei ser metade. Essa é a minha glória e a minha perdição. Duas constatações se destacam. A primeira, convivi com um homem absurdamente honesto e sincero, generoso, carinhoso, inteligente, cheiroso e com lindos olhos verdes. A segunda, tenho tido a sorte, ou o mérito, de ser muito amada pelas pessoas com as quais convivo, desde a minha família, meus amigos e meus amores. Obrigada, Universo, sou muito grata.

4 thoughts on “A separação”

  1. O meu maior sonho é me casar novamente e constituir um lar. Ler seu depoimento me dilacerou o coração pela efemeridade das coisas, pelos nossos desejos, pelos encontros e desencontros, por esta vida bandida que nos deixa tão vulneráveis…

    O meu maior sonho é me casar novamente e constituir um lar.

    Por quanto tempo? pelo tempo que durar? não… não sei se vou ter amor suficiente para durar a vida toda, porque sou vulnerável, impulsiva, uma bomba relógio.

    O meu maior sonho é me casar novamente e constituir um lar. Olhar para o outro lado da cama e ver que tem alguém ali que me ama o suficiente para durar pelo menos aquela noite, ou o dia quem sabe…

    Beijos querida, espero que encontre alguém bacana…

  2. “Nestas ocasiões, chorava e dizia que gostava de mim, mas não sabia se era o suficiente para ficar comigo pra sempre.”

    Pelo amor de Deus! Por que esse desejo infantil de querer ficar pra sempre? Se ficar, ficaram. Se não ficar (provavelmente não ficarão mesmo, pois este deveria ser o normal), não ficaram e pronto.

    Nenhum gostar é suficiente para garantir eternidade.

    1. Oi!
      Então, tem uma coisa… Quando a gente se casa (vai morar junto), isso sempre faz parte de um projeto de vida… Pelo menos comigo sempre foi assim. Desconheço alguém que se case pensando em se separar – mas, claro, esta é uma possibilidade. Não concordo que este seja um desejo infantil. Ao contrário. Construir uma vida em parceria exige muita maturidade. Abs, Amanda.

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