Eu não lamento ser bipolar

Quem me deu o diagnóstico foram os Amparadores, por intermédio do Professor Waldo Vieira. Foi assim: eu andava deprimida, sem gosto pra nada. Meu marido (daquela época, 2009) já havia tentado várias coisas, mas não havia meio de eu melhorar. Eu andava triste demais, choramingando pelos cantos com saudade do Grande Amor da Minha Vida. Num momento de crise, confessei isso ao meu marido e ele se desesperou. Resolveu falar com o Professor Waldo. O Professor Waldo me conhecia muito bem e, com base no relato do meu marido, deu o diagnóstico: transtorno bipolar. Orientou para que o meu marido marcasse uma consulta com o psiquiatra – e indicou o psiquiatra, disse que tinha que ser naquele determinado pois ele era “bem amparado”.

Na consulta, o psiquiatra pediu para eu contar toda a minha vida. “O que você vai fazer nas próximas cinco horas?”, perguntei. É uma vida e tanto, muita coisa pra contar. Comecei a narrativa, ele fazia perguntas de quando em quando. Ao chegar ao fim, penso que ele já tinha o diagnóstico, mas não quis falar de cara. Presenteou-me com o livro “Temperamento Forte e Bipolaridade”, do Diogo Lara. Pediu que eu o lesse até a próxima consulta.

Eu não sabia de nada, comecei a leitura desprevenida. Identifiquei-me com muitas coisas, é claro. Eu sempre soube que tinha temperamento forte – mas bipolaridade?!

Então na consulta seguinte ele confirmou o diagnóstico: transtorno bipolar tipo II. Oi? Desacreditei. Fui tomada por diversos sentimentos: incredulidade, surpresa, medo, e, principalmente, vergonha.

Como eu podia ter um transtorno mental? Uma doença mental? Quer dizer que meu cérebro tinha um defeito? Logo eu, sempre tão inteligente? Reconhecida pela minha inteligência ao longo da vida? Então eu não sou uma pessoa normal??

Foi doloroso. Como eu disse, fiquei com muita vergonha. Escondi de todo mundo a minha condição. Quem sabia era o psiquiatra, o Professor Waldo e o meu marido. Só. Nunca vou contar pra ninguém, pensei. Vou causar tristeza e preocupação à minha família, vou perder meus amigos, vou prejudicar minha carreira profissional… Nunca vou falar pra ninguém.

Comecei o tratamento e percebi que estava me fazendo bem. Comprei livros sobre o tema (os livros que eu li estão listados na seção “Para Saber Mais” do site). Fui desdramatizando. Uma jornada de autodescoberta e de autoaceitação.

Aos poucos, fui contando pra todo mundo. Para minha surpresa, quem me amava não deixou de me amar. Hoje, todos sabem. Todos.

Minha relação com a doença é a seguinte: eu não lamento ser bipolar. Não escrevo: “sou bipolar” – e coloco uma carinha triste ou chorando. Nada disso.

Por duas razões: a primeira, é que a bipolaridade já estava inclusa na programação dessa vida. Ou seja, eu pedi pra ser bipolar, ou no mínimo consenti. Eu já sabia que seria bipolar antes de renascer. Faz parte do plano – e o plano é evolutivo.

Não sei bem os caminhos que percorri antes dessa vida, ou seja, não sei (ou sei parcialmente) as razões pelas quais sou bipolar. O psiquiatra que me deu o diagnóstico tinha uma hipótese: eu estive em pior estado em vidas passadas. Estive mais doente, com doença mental mais grave. Eu concordo.

Penso, portanto, que a bipolaridade é resquício de um processo multimilenar, algo que vem sendo trabalhado ao longo do tempo. Se eu já estive pior, isso pode significar que estou nas últimas vivências como doente mental.

A segunda razão pela qual não lamento ser bipolar é: a doença não trouxe só aspectos negativos a essa vida. Não estou querendo glamorizar o transtorno ou fazer o jogo da Pollyanna, não é isso. Se a cura for descoberta, é claro que vou querer me curar. Sei que, se eu não fosse bipolar, minha vida teria sido mais linear, e eu provavelmente estaria bem casada com o homem que amo, realizada profissionalmente e ajudando muito mais pessoas.

Mas enxergo pontos positivos, não só negativos. Os pontos positivos que enxergo são: a inquietude, a necessidade de sempre agregar coisas novas à vida, a criatividade, a entrega total àquilo que faço, a intensidade, a busca sem descanso pelo verdadeiro e a sinceridade absurda.

Eu gosto de ser quem eu sou. Tenho encontrado muitas pessoas que gostam de mim, sou venturosa. Gosto da minha aparência, gosto da jornada que percorri até aqui. Prezo demais meus planos para o futuro. Carrego arrependimentos, mas nenhum de grande monta. Tenho sido incansável na busca pelo genuíno. Então, é isso. Vamos em frente.

6 thoughts on “Eu não lamento ser bipolar”

  1. Tenho dificuldade para aceitar esse TAB. Mas confesso que nunca havia visto por esse ângulo…o positivo. Obrigada pelo depoimento

  2. Queria ter essa coragem de abrir o peito e encarar!
    Queria gostar de quem eu sou.
    Carrego arrependimentos, de grande monta, que não me deixam seguir em paz.
    mas é isso.
    vamos em frente!

      1. Li agorinha mesmo de Mário Quintana:
        “O jeito é: ou nos conformamos com a falta de algumas coisas na nossa vida ou lutamos para realizar todas as nossas loucuras…”
        Bem bipolar isto. E vejo que me enquadro na segunda opção. Vale a pena ler o texto todo, lindo…

        “Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra, é bobagem. Um dia descobrimos que se apaixonar é inevitável…
        Um dia percebemos que as melhores provas de amor são as mais simples…
        Um dia saberemos que ser classificado como “bonzinho” não é bom…
        Um dia perceberemos que a pessoa que nunca te liga é a que mais pensa em você…
        Um dia saberemos a importância da frase: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas…”
        Um dia percebemos que somos muito importante para alguém, mas não damos valor a isso…
        Um dia percebemos como aquele amigo faz falta, mas ai já é tarde demais…
        Enfim…
        Um dia descobrimos que apesar de viver quase um século esse tempo todo não é suficiente para realizarmos todos os nossos sonhos, para beijarmos todas as bocas que nos atraem, para dizer o que tem de ser dito…
        O jeito é: ou nos conformamos com a falta de algumas coisas na nossa vida ou lutamos para realizar todas as nossas loucuras…
        Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação.

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