Minhas lágrimas, cadê?

Assisto o programa televisivo em que a apresentadora faz uma homenagem à avó, sobrevivente do Holocausto. No fim, ela se emocionou e quando eu vi estava quase chorando também. Até aí tudo bem – mas o caso é que é a primeira vez que eu choro em muito tempo.

Isso não quer dizer que eu não sinta. Sempre sinto tudo intensamente, sempre. Mas em algum momento parei de chorar. Não pranteei a minha separação conjugal… E, para falar a verdade, fiquei com vergonha de não chorar pois o meu ex-marido chorou abundantemente. Está chorando até agora (me liga em prantos de choro). Nossa separação ocorreu há pouco mais de dois meses. Confesso que fiquei com vergonha de não derramar sequer uma lágrima. Mas, sim, senti a tristeza da separação, senti falta dele, ainda sinto. Talvez eu não tenha chorado porque me separei de caso pensado. Sei lá… Não deu vontade.

Por algum motivo não tenho chorado mais. O choro, eu acho, tem uma função emocional importante. É uma catarse, depois do choro nos sentimos melhores, geralmente.

Eu já fui muito chorona. Chorei em apresentações de teatro amador, emocionada por ver a dedicação dos atores. Mas a peça era uma comédia, então escondi minhas lágrimas envergonhada. As lágrimas vinham fortes, começavam com um aperto na garganta e logo em seguida o rosto estava todo encharcado.

Chorei copiosamente na homenagem que os adolescentes carentes fizeram às suas mães. Bom, eu chorava em todas as homenagens. Tinha vergonha de chorar tanto, tentava me conter mas não conseguia. Lembro que chorei três dias seguidos quando um mocinho não quis me namorar. Ele era um menino, eu era mais velha e estava apaixonada. Chorei, chorei, chorei. Aí parei de chorar, e segue o baile.

Minha amiga levantou a hipótese óbvia: será que eu estou reprimindo o choro? Isso seria péssimo. A outra hipótese, mais provável, é que eu estou conseguindo administrar minhas perdas. Sempre tive problemas em lidar com perdas (quem não tem?). Porém venho me percebendo mais altaneira do que nunca.

Meu psicólogo reconheceu minha caminhada, mas salientou que ainda carrego traços de infantilismo em minha manifestação. Dependência emocional. Eu só posso concordar. Ele disse que é um paradoxo, pois sempre fui muito independente, moro sozinha, pago minhas contas, sempre tomei as decisões sem permitir ingerências, morei em muitas cidades, nunca fui sustentada por ninguém… Mas ainda não tenho autonomia completa. De qualquer forma, estou caminhando, e já evoluí bastante, felizmente. Vamos em frente.

4 thoughts on “Minhas lágrimas, cadê?”

  1. Eu vi esse programa também, e fomos pegos de surpresa, porque o choro dela foi rápido demais. Mas o nosso choro também é muito veloz, vem de dentro numa velocidade estonteante e quando vemos, estão elas lá, grossas, a derramar, a pingar, a molhar…
    Estou muito chorona, choro à toa, música, lembranças, tudo eu choro.
    Eu já reprimi choro demais, eu já reprimi sofrimento demais e agora eu ponho prá fora mesmo, choro alto, igual criança pequena, parece que assim, a dor vai embora mais rápido.
    E a cada época eu vou pegando uma mania…
    Agora dei para chorar com a cabeça entre as pernas…
    E é uma dor doída, chega a arrebentar o coração…
    Choro por tudo, choro por ser sozinha, porque não ter um amor comigo, por não ter um lar constituído, por não conseguir ser feliz…
    Eu choro… eu choro.
    desculpe Amanda, por eu chorar tanto.

  2. Depois de um longo período sem conseguir chorar, finalmente aconteceu com a morte de uma das minhas gatas. Eu atribuía esse distanciamento emocional, aos medicamentos. Agora já não sei.

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