A imipramina ocupa um lugar histórico na psiquiatria: ela foi o primeiro antidepressivo a ser descoberto, na década de 1950. Embora hoje existam moléculas mais modernas, ela continua sendo uma medicação extremamente potente para casos específicos de depressão profunda e resistente.
No contexto do transtorno bipolar, no entanto, a imipramina é uma ferramenta que exige cautela. Ela pertence à classe dos antidepressivos tricíclicos, conhecidos por sua alta eficácia, mas também pelo risco elevado de desestabilizar o humor em pacientes vulneráveis.
A imipramina é um antidepressivo potente de “velha guarda”, eficaz para depressão grave, mas com alto risco de induzir mania em pacientes bipolares. Seu uso requer vigilância médica constante e proteção com estabilizadores de humor.
A visão do especialista
Na minha experiência clínica, reservo a imipramina para situações de exceção. No transtorno bipolar, ela é o que chamamos de “faca de dois gumes”. Se por um lado ela pode tirar o paciente de uma depressão paralisante, por outro, é um dos antidepressivos com maior taxa de virada maníaca.
Sempre que opto por ela, é após a falha de outros tratamentos e obrigatoriamente associada a um estabilizador de humor, como o lítio em níveis terapêuticos ideais. Meu foco aqui é resgatar a funcionalidade do paciente sem “empurrá-lo” para uma crise de euforia ou irritabilidade.
Como a imipramina funciona?
Para explicar o funcionamento da imipramina, gosto de usar a analogia do “banho de neurotransmissores”. Enquanto antidepressivos mais novos focam apenas na serotonina, a imipramina age de forma ampla, aumentando a disponibilidade de serotonina e, principalmente, de noradrenalina.
Esse aumento vigoroso da noradrenalina é o que traz o efeito energizante rápido, mas é também o motivo pelo qual ela pode acelerar demais o sistema nervoso. Além disso, ela bloqueia outros receptores (histamina e acetilcolina), o que explica o motivo de tantos efeitos colaterais.
Efeitos colaterais e segurança
A imipramina é conhecida por ser “pesada” no corpo. Os efeitos colaterais mais comuns incluem:
- Boca seca e visão turva: Muito frequentes no início.
- Intestino preso (constipação): Exige atenção à dieta e hidratação.
- Tontura ao levantar: Pela queda da pressão arterial (hipotensão postural).
- Risco cardíaco: A imipramina pode alterar o ritmo do coração. Por isso, em pacientes acima de 40 anos ou com histórico cardíaco, um eletrocardiograma é obrigatório.
Papel no transtorno bipolar
No transtorno bipolar, o uso é estritamente para a depressão bipolar refratária. Ela nunca deve ser usada sozinha (monoterapia) nesta condição, pois o risco de desencadear mania, hipomania ou estados mistos é altíssimo, conforme apontado pelas diretrizes do CANMAT 2018.
Perguntas frequentes
1. Por que a imipramina não é a primeira escolha para o transtorno bipolar?
Por causa do seu alto potencial de causar "virada maníaca". Existem medicamentos mais seguros, como a quetiapina ou a lamotrigina, que tratam a depressão bipolar com menor risco de desestabilização do humor.
2. Posso beber álcool usando imipramina?
Não é recomendado. O álcool potencializa o efeito sedativo da imipramina e aumenta o risco de tonturas graves e confusão mental, além de prejudicar a estabilidade do humor.
3. O que acontece se eu esquecer uma dose?
Se o esquecimento for de poucas horas, tome assim que lembrar. Se estiver perto da próxima dose, pule a esquecida. Nunca tome duas doses de uma vez, pois o risco de efeitos colaterais cardíacos aumenta drasticamente com doses dobradas.